Metafísica - Livro VII 17
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
A substância como causa: por que esta matéria forma uma coisa única, e não um amontoado
Vamos dizer o que é a substância, ou que tipo de coisa devemos chamar de substância, recomeçando de outro ponto de partida. Talvez assim a gente consiga enxergar com clareza também aquela substância que existe à parte das substâncias sensíveis. Já que a substância é um princípio e uma causa, vamos investigá-la por esse lado.
A pergunta 'por quê' é sempre feita desta forma: por que uma coisa pertence a outra coisa? Perguntar por que o homem que é músico é um homem que é músico ou é perguntar, como já dissemos, por que esse homem é músico, ou é outra coisa.
Agora, perguntar 'por que uma coisa é ela mesma' é uma pergunta sem sentido. Para que a pergunta 'por quê' tenha sentido, o fato ou a existência da coisa já precisam estar à vista. Por exemplo, que a lua está eclipsada. Mas o fato de uma coisa ser ela mesma é a única razão e a única causa que se pode dar como resposta a todas as perguntas do tipo 'por que o homem é homem' ou 'por que o músico é músico'.
Você poderia até responder que 'cada coisa é inseparável de si mesma, e ser uma coisa só significa exatamente isso'. Mas essa resposta serve para tudo igualmente e resolve a pergunta de um jeito curto e fácil demais, sem dizer nada.
Por outro lado, faz sentido perguntar por que o homem é um animal de tal e tal natureza. Aqui fica claro que não estamos perguntando por que aquele que é homem é homem. Estamos perguntando por que uma coisa pode ser afirmada de outra. E que ela possa ser afirmada precisa estar evidente, pois, se não estiver, a pergunta não investiga nada.
Por exemplo: por que troveja? Isso é o mesmo que perguntar por que o som é produzido nas nuvens. Ou seja, a pergunta é sempre sobre afirmar uma coisa a respeito de outra. E por que estas coisas, os tijolos e as pedras, são uma casa? Está claro que estamos procurando a causa.
E essa causa, falando de modo abstrato, é a essência. Em alguns casos a essência é a finalidade da coisa, como talvez no caso de uma casa ou de uma cama; em outros casos é aquilo que primeiro pôs a coisa em movimento, pois isso também é uma causa. Mas a causa que põe em movimento é procurada quando se trata do nascer e do perecer de algo, enquanto a finalidade é procurada também quando se trata simplesmente de a coisa ser.
O alvo da investigação passa despercebido com mais facilidade nos casos em que um termo não é claramente afirmado de outro. É o que acontece quando perguntamos 'o que é o homem', porque aí não separamos as partes nem dizemos com precisão que certos elementos compõem certo todo. Mas precisamos deixar claro o que queremos dizer antes de começar a investigar; caso contrário, a investigação fica na fronteira entre procurar alguma coisa e não procurar nada.
Como precisamos ter a existência da coisa já como um dado, fica claro que a pergunta é: por que esta matéria é uma coisa definida? Por exemplo, por que estes materiais são uma casa? Porque está presente neles aquilo que era a essência de uma casa. E por que este corpo individual, com esta forma, é um homem? O que procuramos, então, é a causa, ou seja, a forma, por causa da qual a matéria é uma coisa definida. E essa forma é a substância da coisa.
Fica evidente, então, que no caso dos termos simples não cabe nem investigação nem ensino; diante deles, nossa atitude é outra, não a de quem investiga.
Quando algo é composto de partes de tal modo que o todo é uma unidade, e não como um amontoado, mas como uma sílaba, observe o seguinte: a sílaba não é apenas suas letras. 'BA' não é a mesma coisa que 'B' e 'A' soltos, nem a carne é apenas fogo e terra. Quando separamos esses componentes, os todos, ou seja, a carne e a sílaba, deixam de existir, mas as letras continuam existindo, e o fogo e a terra também.
A sílaba é, portanto, algo a mais: não só seus elementos, a vogal e a consoante, mas também alguma outra coisa. E a carne não é só fogo e terra, ou o quente e o frio, mas também alguma outra coisa.
Se esse algo a mais tivesse que ser ele próprio ou um elemento ou um composto de elementos, vejamos. Primeiro: se fosse um elemento, voltaríamos ao mesmo problema, pois a carne seria feita desse elemento mais fogo mais terra mais ainda mais alguma coisa, e o processo iria ao infinito. Segundo: se fosse um composto, é claro que seria um composto não de uma coisa só, mas de mais de uma (senão essa coisa única seria o próprio todo), e de novo cairíamos no mesmo argumento que vale para a carne ou para a sílaba.
Mas tudo indica que esse 'algo a mais' é justamente alguma coisa, e não um elemento, e que é a causa que faz uma coisa ser carne e outra ser uma sílaba. O mesmo vale para todos os outros casos. E isso é a substância de cada coisa, pois é a causa primeira de a coisa existir.
Como algumas coisas não são substâncias, mas as que são substâncias se formam de acordo com uma natureza própria e por um processo natural, a substância delas parece ser esse tipo de 'natureza', que não é um elemento, mas um princípio. Um elemento, ao contrário, é aquilo em que uma coisa se divide e que está presente nela como matéria. Por exemplo, 'A' e 'B' são os elementos da sílaba.