Metafísica - Livro VII 16
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
As partes e os elementos são só potência, não substância: 'o uno' e 'o ser' não são substâncias
É evidente que, mesmo entre as coisas que costumamos considerar substâncias, a maioria é apenas potência (capacidade): por exemplo, as partes dos animais. Nenhuma delas existe separada do animal, e quando são separadas continuam a existir, mas todas elas apenas como matéria.
O mesmo vale para a terra, o fogo e o ar. Nenhum deles é uma unidade verdadeira: é mais como um monte amontoado, até que sejam trabalhados e alguma unidade seja formada a partir deles.
Poderíamos pensar, com facilidade, que as partes dos seres vivos e as partes da alma a elas ligadas seriam as duas coisas ao mesmo tempo, ou seja, existiriam tanto em realidade plena quanto em potência, porque têm em suas articulações algo que serve de fonte de movimento. É por isso que alguns animais continuam a viver mesmo quando são divididos.
Ainda assim, todas as partes devem existir apenas em potência enquanto formam, por natureza, uma só coisa contínua. Se a unidade fosse obtida pela força ou por colagem, isso seria uma anomalia, e não o estado natural.
O termo 'unidade' se usa do mesmo modo que o termo 'ser'. A substância daquilo que é uno é uma, e as coisas cuja substância é uma em número são uma em número. Fica evidente, então, que nem a unidade nem o ser podem ser a substância das coisas.
Do mesmo modo, ser elemento ou ser princípio não pode ser a substância. Quando perguntamos o que é o princípio, fazemos isso justamente para reduzir a coisa a algo mais conhecível.
Entre esses conceitos, 'ser' e 'unidade' são mais substanciais do que 'princípio', 'elemento' ou 'causa'. Mesmo assim, nem 'ser' nem 'unidade' são substância, pois, de modo geral, nada que seja comum a muitas coisas é substância. A substância não pertence a nada além de si mesma e daquilo que a possui, do qual ela é a substância.
Além disso, aquilo que é uno não pode estar em muitos lugares ao mesmo tempo, mas aquilo que é comum está presente em muitos lugares ao mesmo tempo. Fica claro, então, que nenhum universal existe separado dos indivíduos.
Os que defendem a existência das Formas estão certos num ponto e errados em outro. Acertam ao dar às Formas existência separada, caso elas sejam mesmo substâncias. Erram ao afirmar que o 'uno presente em muitos' é uma Forma.
A razão de fazerem isso é que não conseguem dizer quais são as substâncias desse tipo, as substâncias imperecíveis que existem separadas das substâncias individuais e sensíveis. Por isso acabam por torná-las iguais, em natureza, às coisas perecíveis, que são o único tipo de substância que conhecemos: o 'homem em si' e o 'cavalo em si', acrescentando às coisas sensíveis a palavra 'em si'.
Mas considere o seguinte: mesmo que nunca tivéssemos visto os astros, suponho que eles ainda assim seriam substâncias eternas, separadas daquelas que conhecemos. Do mesmo modo, mesmo que agora não saibamos quais substâncias não sensíveis existem, com certeza é necessário que haja algumas.
Fica claro, então, que nenhum termo universal é o nome de uma substância, e que nenhuma substância é composta de outras substâncias.