Metafísica - Livro VII 15
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
Por que o indivíduo concreto não pode ser definido, e por que as Formas de Platão também não
A substância é de dois tipos: a coisa concreta e a fórmula. Quero dizer que um tipo de substância é a fórmula tomada junto com a matéria, enquanto o outro tipo é a fórmula em sua generalidade. As substâncias no primeiro sentido podem ser destruídas, pois também podem ser geradas. Já a fórmula não se destrói no sentido de estar em algum momento sendo destruída, pois ela também não é gerada: não se gera o ser da casa, mas apenas o ser desta casa. Sem geração e sem destruição, as fórmulas simplesmente existem ou não existem, pois já foi mostrado que ninguém as faz nascer nem as fabrica.
Por isso também não há definição nem demonstração a respeito das substâncias sensíveis individuais, porque elas têm matéria, cuja natureza é tal que essas substâncias tanto podem existir quanto podem deixar de existir. Por essa mesma razão, todos os exemplares individuais delas são destrutíveis.
Ora, se a demonstração trata de verdades necessárias e a definição é um procedimento científico, então vale o seguinte. Assim como o conhecimento não pode ser ora conhecimento, ora ignorância (esse estado que oscila assim chama-se opinião), também a demonstração e a definição não podem oscilar desse modo. É a opinião que lida com aquilo que pode ser diferente do que é. Logo, fica claro que não pode haver definição nem demonstração a respeito dos indivíduos sensíveis.
Pois as coisas que perecem ficam obscuras até para quem tinha o conhecimento delas, uma vez que tenham saído da nossa percepção. E ainda que as fórmulas permaneçam intactas na alma, não haverá mais definição nem demonstração. Por isso, quando algum amante de definições for definir um indivíduo qualquer, ele precisa reconhecer que a definição dele sempre poderá ser derrubada, pois não é possível definir tais coisas.
Também não é possível definir nenhuma Ideia. Pois a Ideia é, como dizem os que a defendem, um indivíduo, e pode existir separada das coisas. Além disso, a fórmula tem de ser feita de palavras, e quem define não pode inventar uma palavra nova (ela seria desconhecida): as palavras já estabelecidas são comuns a todos os membros de uma classe. Essas palavras, então, têm de se aplicar a alguma coisa além daquilo que está sendo definido. Por exemplo, se alguém fosse definir você, diria 'um animal magro' ou 'pálido', ou outra característica qualquer que também se aplica a alguém que não é você.
Alguém poderia objetar que talvez cada uma das características, tomada à parte, pertença a muitos sujeitos, mas todas juntas pertençam só a este aqui. A isso respondemos, primeiro, que essas características também pertencem aos dois elementos que compõem a definição. Por exemplo, 'animal de dois pés' pertence tanto a 'animal' quanto a 'de dois pés'.
No caso das entidades eternas, isso é até necessário, já que os elementos são anteriores ao composto e são partes dele. E mais: esses elementos também podem existir separados, se 'homem' pode existir separado. Pois ou nenhum dos dois pode, ou ambos podem. Se nenhum pode, o gênero não existirá separado das diversas espécies; mas, se o gênero existe separado, a diferença que distingue as espécies também existirá.
Em segundo lugar, respondemos que 'animal' e 'de dois pés' são anteriores em ser a 'animal de dois pés'. E aquilo que é anterior a outras coisas não é destruído quando essas outras são destruídas.
De novo: se as Ideias são feitas de Ideias (como têm de ser, já que os elementos são mais simples que o composto), será preciso ainda que os elementos de que a Ideia se compõe, por exemplo 'animal' e 'de dois pés', se afirmem de muitos sujeitos. Se não fosse assim, como chegariam a ser conhecidos? Pois haveria então uma Ideia que não se poderia afirmar de mais de um sujeito. Mas isso não se considera possível, pois toda Ideia é tida como algo que se pode compartilhar.
Como foi dito, então, a impossibilidade de definir indivíduos passa despercebida no caso das coisas eternas, sobretudo as que são únicas, como o sol ou a lua. As pessoas erram não só ao acrescentar características cuja remoção o sol sobreviveria, como 'girar em torno da terra' ou 'ocultar-se à noite'. Pois, na visão delas, se o sol parasse de girar ou ficasse visível à noite, deixaria de ser o sol. Mas é estranho que seja assim, pois 'o sol' designa uma certa substância.
Elas erram também ao mencionar características que poderiam pertencer a outro sujeito. Por exemplo, se outra coisa surgisse com essas mesmas características, claramente seria um sol. A fórmula, portanto, é geral. Mas supunha-se que o sol fosse um indivíduo, como Cléon ou Sócrates. Afinal, por que nenhum dos defensores das Ideias apresenta uma definição de uma Ideia? Ficaria claro, se tentassem, que o que acabamos de dizer é verdade.