Metafísica - Livro VII 14

Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância

Por que as Formas de Platão não podem ser ao mesmo tempo separadas e universais: as consequências impossíveis

Esses mesmos fatos deixam claro qual consequência atinge quem afirma que as Ideias são substâncias capazes de existir separadas e, ao mesmo tempo, monta a Forma juntando o gênero com as diferenças. Se as Formas existem e o 'animal' está presente tanto no 'homem' quanto no 'cavalo', então esse 'animal' ou é um e o mesmo em número, ou é diferente em cada um. Pela definição, ele claramente é um só, pois quem enuncia a definição de animal vai dizer a mesma coisa nos dois casos.
Suponha então que exista um 'homem-em-si', algo determinado e individual que existe à parte. Nesse caso, as partes de que ele é feito, por exemplo 'animal' e 'bípede', também teriam de ser coisas determinadas, existir separadas e ser substâncias. Logo, 'animal' também teria de ser desse tipo, e não 'homem'.
Tome agora a primeira hipótese: o 'animal' presente no 'cavalo' e o 'animal' presente no 'homem' são um e o mesmo, do mesmo jeito que você é idêntico a si mesmo. Como pode esse 'animal' único estar inteiro em coisas que existem separadas umas das outras? E como ele escaparia de ficar dividido até de si mesmo?
Pior: se esse 'animal' único tem de participar ao mesmo tempo do 'bípede' e do 'que tem muitos pés', chega-se a um absurdo. Atributos contrários pertenceriam a ele ao mesmo tempo, mesmo sendo ele uma coisa e determinada.
E se ele não participa desses atributos, qual é a ligação entre as coisas quando se diz que o animal é bípede ou que tem pés? Talvez se diga que o 'animal' e o 'bípede' estão 'postos juntos', ou 'em contato', ou 'misturados'. Mas todas essas saídas são absurdas.
Tome agora a segunda hipótese: a Forma 'animal' é diferente em cada espécie. Então existirá um número praticamente infinito de coisas cuja substância é 'animal', pois não é por acaso que o 'homem' tem 'animal' como um de seus elementos.
Além disso, haverá muitos 'animal-em-si'. O 'animal' presente em cada espécie será a substância dessa espécie, porque não é por causa de nenhuma outra coisa que a espécie recebe esse nome. Se fosse por outra coisa, essa outra coisa entraria como elemento no 'homem', isto é, seria o gênero do 'homem'.
E mais: todos os elementos de que o 'homem' é composto seriam Ideias. Ora, nenhuma coisa pode ser a Ideia de uma e ao mesmo tempo a substância de outra, pois isso é impossível. Logo, o 'animal' presente em cada espécie de animal teria de ser o próprio 'animal-em-si'.
Resta perguntar de onde vem esse 'animal' presente em cada espécie e como ele deriva do 'animal-em-si'. Ou ainda: como pode esse 'animal', cuja essência é simplesmente ser animal, existir à parte do 'animal-em-si'?
No caso das coisas sensíveis, essas consequências e outras ainda mais absurdas se seguem. Se elas são impossíveis, fica claro que não existem Formas das coisas sensíveis no sentido em que alguns sustentam que elas existem.