Metafísica - Livro VII 13
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
Por que nenhum universal pode ser substância
Voltemos ao tema da nossa investigação, que é a substância. Chamamos de substância o substrato, a essência e o composto dos dois, e há quem chame também o universal. Já tratamos de dois desses sentidos: a essência e o substrato. Sobre o substrato, dissemos que ele está por baixo de duas maneiras: ou como um 'isto aqui' determinado, do modo como um animal está por baixo das suas propriedades, ou como a matéria está por baixo da realidade plena.
Alguns pensam que o universal também é, no sentido mais forte, uma causa e um princípio. Por isso vamos examinar também esse ponto. Pois parece impossível que qualquer termo universal seja o nome de uma substância.
Em primeiro lugar, a substância de cada coisa é o que é próprio dela, o que não pertence a nenhuma outra. O universal, ao contrário, é comum, pois chamamos de universal justamente aquilo que é tal que pertence a mais de uma coisa. De qual indivíduo, então, o universal seria a substância? Ou de todos, ou de nenhum. Mas não pode ser a substância de todos. E se for a substância de um só, então esse um será também os outros, pois coisas cuja substância é uma e cuja essência é uma são elas próprias uma só coisa.
Além disso, substância é aquilo que não se afirma de um sujeito, ao passo que o universal sempre se afirma de algum sujeito.
Talvez o universal, mesmo não podendo ser substância do modo como a essência é, possa estar presente na essência. Por exemplo, 'animal' pode estar presente em 'homem' e em 'cavalo'. Nesse caso, fica claro que o universal é a fórmula de uma essência. E não faz diferença que ele não seja a fórmula de tudo o que há na substância, pois mesmo assim o universal será a substância de algo, assim como 'homem' é a substância do homem individual em quem ele está presente. O mesmo resultado volta a aparecer: o universal, 'animal' por exemplo, será a substância daquilo em que ele está presente como algo próprio.
E mais: é impossível e absurdo que o 'isto aqui', ou seja, a substância, caso seja feito de partes, não seja feito de substâncias nem de coisas que sejam um 'isto aqui', mas sim de qualidade. Pois então aquilo que não é substância, a qualidade, seria anterior à substância e ao 'isto aqui'. E isso é impossível, pois as propriedades não podem ser anteriores à substância nem na fórmula, nem no tempo, nem na geração. Se fossem, poderiam também existir separadas dela.
Além disso, Sócrates conteria uma substância presente dentro de outra substância, de modo que essa segunda seria a substância de duas coisas. E, de modo geral, segue-se o seguinte: se 'homem' e coisas desse tipo são substância, então nenhum dos elementos que aparecem nas suas fórmulas é a substância de coisa alguma, nem existe separado da espécie nem em qualquer outra coisa. Quero dizer, por exemplo, que nenhum 'animal' existe à parte das espécies particulares de animal, e nenhum outro dos elementos presentes nas fórmulas existe separado.
Se examinarmos a questão por esses ângulos, fica evidente que nenhuma propriedade universal é substância. Isso também fica claro pelo fato de que nenhum predicado comum indica um 'isto aqui', mas antes um 'tal qual'. Se não fosse assim, surgiriam muitas dificuldades, em especial a do 'terceiro homem'.
A conclusão também é evidente a partir da seguinte consideração. Uma substância não pode ser feita de substâncias que estejam presentes nela em plena realidade. Pois duas coisas que estão assim, em plena realidade, nunca são uma só em plena realidade. Se forem duas apenas em potência, elas podem ser uma. Por exemplo, a linha dupla é feita de suas duas metades em potência, pois levar essas metades à realização plena separa uma da outra.
Portanto, se a substância é uma, ela não será feita de substâncias presentes nela desse modo. Demócrito descreve isso corretamente quando diz que uma coisa não pode ser feita de duas, nem duas de uma, pois ele identifica as substâncias com suas grandezas indivisíveis. Fica claro, então, que o mesmo vale para o número, se o número for uma soma de unidades, como dizem alguns. Pois ou o dois não é uma só coisa, ou não há nele uma unidade presente em plena realidade.
Mas o nosso resultado traz uma dificuldade. Se nenhuma substância pode ser feita de universais, porque um universal indica um 'tal qual' e não um 'isto aqui', e se nenhuma substância pode ser composta de substâncias que existem em plena realidade, então toda substância seria sem composição, de modo que não haveria sequer uma fórmula para substância alguma.
Mas todos pensam, e isso foi afirmado há muito tempo, que é só a substância, ou principalmente ela, que se pode definir. Agora, no entanto, parece que nem mesmo a substância pode ser definida. Não pode haver, então, definição de coisa alguma. Ou, em certo sentido, pode haver, e em certo sentido não pode. O que estamos dizendo ficará mais claro no que vem a seguir.