Metafísica - Livro VII 12
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
Por que uma definição é uma coisa só, e não uma lista de partes
Vamos tratar primeiro da definição, na medida em que não a tratamos nos Analíticos, porque o problema levantado ali é útil para a nossa investigação sobre a substância. O problema é este: em que consiste a unidade daquilo cuja fórmula chamamos de definição? Tome o exemplo do homem: dizemos que ele é "animal de dois pés". Por que isso é uma coisa só, e não muitas, ou seja, "animal" e "de dois pés" como duas coisas separadas?
Compare com "homem" e "pálido". Aqui há duas coisas quando um termo não pertence ao outro, mas há unidade quando um pertence ao outro e o sujeito, o homem, tem aquela propriedade. Nesse caso surge uma unidade e temos "o homem pálido". No caso da definição, no entanto, a situação é diferente: um termo não participa do outro. Não se considera que o gênero participe de suas diferenças, pois então a mesma coisa participaria de contrários, já que as diferenças pelas quais o gênero é dividido são contrárias entre si.
E mesmo que o gênero participasse delas, o mesmo problema continua, porque as diferenças presentes no homem são muitas, por exemplo: dotado de pés, de dois pés, sem penas. Por que essas diferenças são uma coisa só, e não muitas? Não é por estarem presentes numa única coisa, pois por esse critério se poderia fazer uma unidade com todas as propriedades de qualquer coisa. Mas todas as propriedades reunidas na definição precisam mesmo formar uma unidade, porque a definição é uma fórmula única e uma fórmula da substância, de modo que tem de ser a fórmula de algo que é um só. A substância, afinal, significa um "isto", uma coisa única, como sustentamos.
Precisamos investigar primeiro as definições obtidas pelo método da divisão. Numa definição assim não há nada além do primeiro termo nomeado e das diferenças. Os demais termos são o gênero primeiro junto com as diferenças que vão sendo tomadas com ele. Por exemplo: o primeiro pode ser "animal"; o seguinte, "animal que é de dois pés"; e ainda, "animal que é de dois pés e sem penas". E assim por diante, se a definição incluir mais termos.
De modo geral, não faz diferença se a definição inclui muitos ou poucos termos, nem, portanto, se inclui poucos ou apenas dois. E dos dois, um é diferença e o outro é gênero. Por exemplo, em "animal de dois pés", "animal" é o gênero e o resto é a diferença.
Ora, ou o gênero não existe de modo nenhum à parte das espécies que dele derivam, ou existe, mas existe como matéria. Pense na voz: ela é gênero e matéria, e suas diferenças produzem as espécies a partir dela, ou seja, as letras. Em qualquer dos casos, fica claro que a definição é a fórmula composta pelas diferenças.
Mas é preciso também que a divisão se faça pela diferença da diferença. Por exemplo, "dotado de pés" é uma diferença de "animal". Em seguida, a diferença de "animal dotado de pés" precisa ser tomada justamente enquanto dotado de pés. Por isso, se queremos falar corretamente, não devemos dizer que, do que é dotado de pés, uma parte tem penas e outra não tem (quem faz isso o faz por incapacidade). Devemos dividir apenas em pé fendido e pé não fendido, pois essas são diferenças no próprio pé: ter o pé fendido é um modo de ter pé.
E o processo quer sempre prosseguir assim até chegar às espécies que já não contêm diferenças. Nesse ponto haverá tantos tipos de pé quantas forem as diferenças, e os tipos de animais dotados de pés serão iguais em número às diferenças. Se é assim, fica claro que a última diferença será a substância da coisa e a sua definição, já que não é correto enunciar a mesma coisa mais de uma vez nas nossas definições, pois isso é redundante.
E isso de fato acontece. Quando dizemos "animal dotado de pés e de dois pés", não dissemos nada diferente de "animal que tem pés, que tem dois pés". E se dividirmos isso pela divisão adequada, estaremos dizendo a mesma coisa repetidas vezes, tantas vezes quantas forem as diferenças.
Se, então, a cada passo se toma uma diferença da diferença, uma única diferença, a última, será a forma e a substância. Mas se dividirmos segundo qualidades acidentais, por exemplo, se dividíssemos o que é dotado de pés em branco e preto, haverá tantas diferenças quantos forem os cortes. Fica claro, portanto, que a definição é a fórmula que contém as diferenças, ou, segundo o método correto, a última delas.
Isso ficaria evidente se invertêssemos a ordem dessas definições, por exemplo, na do homem, dizendo "animal que é de dois pés e dotado de pés". Aqui "dotado de pés" é supérfluo, depois de já ter sido dito "de dois pés". Mas na substância não há ordem, pois como haveríamos de pensar um elemento como posterior e o outro como anterior? Quanto às definições obtidas pelo método da divisão, que isto baste como nossa primeira tentativa de dizer qual é a sua natureza.