Metafísica - Livro VII 11
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
Quais partes pertencem à forma e quais à matéria, e por que não se pode eliminar a matéria
Surge naturalmente outra pergunta: que tipo de partes pertence à forma e que tipo não pertence à forma, mas à coisa concreta? Se isso não fica claro, não é possível definir nada, pois a definição é do universal e da forma. Então, se não ficar evidente quais partes são da natureza da matéria e quais não são, também não ficará evidente a definição da coisa.
Quando uma mesma coisa aparece em materiais de tipos diferentes, como um círculo pode existir em bronze, em pedra ou em madeira, parece claro que o bronze ou a pedra não fazem parte da essência do círculo, já que ele existe separado deles. Já quando não vemos a coisa existir separada, nada impede que o mesmo seja verdade. Suponha que todos os círculos já vistos fossem de bronze: ainda assim o bronze não faria parte da forma, embora seja difícil descartá-lo no pensamento.
Por exemplo, a forma do homem sempre se encontra em carne, ossos e partes desse tipo. Então essas partes também são parte da forma e da definição? Não, elas são matéria. Mas como o homem não aparece também em outras matérias, não conseguimos fazer essa separação no pensamento.
Como isso parece possível, mas não fica claro quando é o caso, algumas pessoas já levantam a questão até no caso do círculo e do triângulo. Elas acham que não se deve definir essas figuras por meio de linhas e do contínuo, e que tudo isso está para o círculo ou o triângulo assim como a carne e os ossos estão para o homem, e o bronze ou a pedra para a estátua. Daí reduzem todas as coisas a números e dizem que a definição da linha é a do número dois.
E entre os que afirmam as Ideias, alguns dizem que o número dois é a própria linha, e outros dizem que ele é a Forma da linha. Pois em alguns casos eles dizem que a Forma e aquilo de que ela é a Forma são a mesma coisa, como o dois e a Forma do dois. Mas no caso da linha eles dizem que isso já não vale.
Daí decorre que haveria uma só Forma para muitas coisas cuja forma é claramente diferente, uma conclusão que os pitagóricos também enfrentaram. E seria possível fazer de uma única coisa a Forma de tudo, e sustentar que as demais não são Formas. Mas assim todas as coisas seriam uma só.
Mostramos, então, que a questão das definições contém certa dificuldade, e por que isso acontece. Por isso, reduzir tudo a Formas desse modo e eliminar a matéria é trabalho inútil, pois algumas coisas são, com certeza, uma forma específica numa matéria específica, ou coisas específicas num estado específico.
A comparação que Sócrates, o jovem, costumava fazer no caso do animal não é correta, pois afasta da verdade e leva a supor que o homem poderia existir sem suas partes, do mesmo modo que o círculo existe sem o bronze. Mas o caso não é parecido. O animal é algo perceptível pelos sentidos, e não se pode defini-lo sem referência ao movimento, e portanto sem referência às partes estarem num certo estado. Pois uma mão não é parte do homem em qualquer estado, mas só quando pode cumprir sua função, e portanto só quando está viva. Se não está viva, não é parte.
Quanto aos objetos da matemática, por que as definições das partes não são partes das definições dos todos? Por que, por exemplo, os semicírculos não entram na definição do círculo? Não se pode dizer que é porque essas partes são coisas perceptíveis pelos sentidos, pois não são. Mas talvez isso não faça diferença, pois mesmo algumas coisas que não são perceptíveis precisam ter matéria. De fato, há alguma matéria em tudo o que não é uma essência e uma forma pura, mas um 'isto' concreto.
Os semicírculos, então, não serão partes do círculo universal, mas serão partes dos círculos individuais, como já se disse. Pois enquanto um tipo de matéria é perceptível pelos sentidos, há outro tipo que é inteligível, captado só pelo pensamento.
Fica claro também que a alma é a substância primeira, e o corpo é matéria, e o homem ou o animal é o composto dos dois, tomados de modo universal. E 'Sócrates' ou 'Corisco', se a alma de Sócrates também pode ser chamada de Sócrates, tem dois sentidos (alguns entendem por esse termo a alma, outros entendem a coisa concreta). Mas se 'Sócrates' ou 'Corisco' significa simplesmente esta alma e este corpo, então o indivíduo é análogo ao universal na sua composição.
Se existe, além da matéria dessas substâncias, outro tipo de matéria, e se devemos buscar alguma substância diferente dessas, como números ou algo do gênero, isso precisa ser examinado mais adiante. É por causa disso que tentamos também determinar a natureza das substâncias sensíveis, pois, num certo sentido, a investigação sobre as substâncias sensíveis é tarefa da física, ou seja, da filosofia segunda. O físico precisa conhecer não só a matéria, mas também a substância expressa na definição, e a esta ainda mais do que à outra.
E no caso das definições, como os elementos da definição são partes dela, e por que a definição é uma só fórmula (pois é claro que a coisa é uma, mas em virtude de quê ela é uma, embora tenha partes?), isso também precisa ser examinado mais adiante.
O que é a essência e em que sentido ela existe por si mesma já foi dito de modo geral, valendo para todos os casos. Também foi dito por que a definição da essência de algumas coisas contém as partes da coisa definida, enquanto a de outras não. E afirmamos que na definição da substância não estarão presentes as partes materiais, pois elas nem sequer são partes da substância nesse sentido, mas da substância concreta.
Dessa substância concreta há, num certo sentido, uma definição, e num certo sentido não há. Não há definição dela junto com sua matéria, pois a matéria é indeterminada. Mas há uma definição dela em referência à sua substância primeira, como no caso do homem a definição da alma. Pois a substância é a forma que habita dentro da coisa, e dessa forma mais a matéria deriva a chamada substância concreta. Por exemplo, a concavidade é uma forma desse tipo, pois dela mais o nariz surgem o 'nariz arrebitado' e o ser arrebitado.
Mas na substância concreta, como um nariz arrebitado ou Cálias, a matéria também estará presente. E afirmamos que a essência e a própria coisa são, em alguns casos, a mesma coisa, ou seja, no caso das substâncias primeiras, como a curvatura e a essência da curvatura, se esta é primeira. (Por substância 'primeira' entendo aquela que não implica a presença de algo em outra coisa, isto é, num substrato que funciona como matéria.)
Mas as coisas que são da natureza da matéria, ou de todos que incluem matéria, não são idênticas às suas essências, nem o são as unidades acidentais, como a de 'Sócrates' e 'músico'. Pois essas são a mesma coisa apenas por acidente.