Metafísica - Livro VII 10
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
As partes de uma coisa entram ou não na sua definição
Uma definição é uma fórmula, e toda fórmula tem partes. Assim como a fórmula está para a coisa definida, a parte da fórmula está para a parte da coisa. Surge então a pergunta: a fórmula das partes precisa ou não estar contida na fórmula do todo? Em alguns casos vemos que sim, em outros que não. A fórmula do círculo não inclui a fórmula dos seus segmentos, mas a fórmula da sílaba inclui a das letras, embora o círculo se divida em segmentos do mesmo modo que a sílaba se divide em letras.
Além disso, se as partes são anteriores ao todo, e o ângulo agudo é parte do ângulo reto, e o dedo é parte do animal, então o ângulo agudo seria anterior ao ângulo reto, e o dedo anterior ao homem. Mas pensamos que é o contrário: na fórmula, são as partes que se explicam a partir do todo, e quanto à capacidade de existir separadamente, os todos é que são anteriores às partes.
Talvez seja melhor dizer que a palavra parte tem vários sentidos. Um deles é o de aquilo que mede outra coisa em quantidade. Deixemos esse sentido de lado e investiguemos as partes que compõem a substância. Se a matéria é uma coisa, a forma outra, e o composto das duas uma terceira, e se a matéria, a forma e o composto são todos substância, então num sentido até a matéria é chamada de parte da coisa, mas noutro sentido não é: parte são apenas os elementos que compõem a fórmula da forma.
Por exemplo, a carne não é parte da concavidade (a carne é a matéria em que a concavidade aparece), mas é parte do nariz arrebitado. E o bronze é parte da estátua concreta, mas não da estátua entendida como forma. Pois devemos chamar de a coisa a forma, ou a coisa enquanto tem forma, mas o elemento material sozinho nunca deve ser chamado assim.
Por isso a fórmula do círculo não inclui a dos segmentos, mas a fórmula da sílaba inclui a das letras: as letras são partes da fórmula da forma, e não matéria, ao passo que os segmentos são partes no sentido de matéria, sobre a qual a forma se aplica. Ainda assim os segmentos estão mais próximos da forma do que o bronze quando a redondeza é produzida no bronze.
Mas, num certo sentido, nem todo tipo de letra estará presente na fórmula da sílaba: por exemplo, letras feitas de cera ou letras como sons no ar. Pois também aqui já temos algo que é parte da sílaba só no sentido de ser sua matéria perceptível. Mesmo que a linha, ao ser dividida, se desfaça em suas metades, ou o homem em ossos, músculos e carne, isso não significa que sejam compostos por esses elementos como partes da sua essência: eles são partes como matéria. São partes da coisa concreta, mas não da forma, isto é, daquilo a que a fórmula se refere. Por isso não estão presentes nas fórmulas.
Num tipo de fórmula, então, a fórmula dessas partes estará presente, mas noutro tipo não deve estar, ali onde a fórmula não se refere ao objeto concreto. É por essa razão que algumas coisas têm como princípios constituintes as partes em que se decompõem, e outras não. As coisas que são forma e matéria tomadas juntas, como o nariz arrebitado ou o círculo de bronze, decompõem-se nesses materiais, e a matéria é uma parte delas. Já as coisas que não envolvem matéria, que existem sem matéria e cujas fórmulas são fórmulas só da forma, não se decompõem, ou não se decompõem de modo algum, ou ao menos não desse modo.
Portanto esses materiais são princípios e partes das coisas concretas, mas da forma não são nem partes nem princípios. É por isso que a estátua de barro se resolve em barro, a bola em bronze, Cálias em carne e ossos, e o círculo em seus segmentos: existe um sentido de círculo que envolve matéria. Pois a palavra círculo é usada de modo ambíguo, significando tanto o círculo sem qualificação quanto o círculo individual, porque não há nome próprio para os indivíduos.
A verdade já foi dita, mas vamos enunciá-la com mais clareza, retomando a questão. As partes da fórmula, em que a fórmula se divide, são anteriores a ela, todas ou algumas delas. A fórmula do ângulo reto não inclui a fórmula do agudo, mas a fórmula do agudo inclui a do reto, pois quem define o agudo usa o ângulo reto: o agudo é menor que um ângulo reto. O círculo e o semicírculo estão na mesma relação, pois o semicírculo se define pelo círculo. E o dedo se define pelo corpo inteiro, pois o dedo é tal parte de um homem.
Portanto, as partes que têm a natureza de matéria, e em que a coisa se divide como em sua matéria, são posteriores. Mas as que têm a natureza de partes da fórmula, e da substância segundo a sua fórmula, são anteriores, todas ou algumas delas.
E como a alma dos animais (que é a substância do ser vivo) é a substância deles segundo a fórmula, isto é, a forma e a essência de um corpo de certo tipo (afinal definiremos bem cada parte apenas em referência à sua função, e a função não pode existir sem percepção), então as partes da alma são anteriores, todas ou algumas, ao animal concreto, e o mesmo vale para cada animal individual. O corpo e suas partes são posteriores a essa substância essencial, e não é a substância, mas a coisa concreta, que se divide nessas partes como em sua matéria. Sendo assim, num sentido essas partes são anteriores à coisa concreta, e noutro sentido não são.
Pois elas nem sequer conseguem existir se separadas do todo. Um dedo não é dedo em qualquer estado: um dedo morto é dedo só no nome. Algumas partes não são nem anteriores nem posteriores ao todo, ou seja, aquelas que são dominantes e nas quais a fórmula, isto é, a substância essencial, está imediatamente presente, como talvez o coração ou o cérebro. E não importa qual dos dois tem essa qualidade.
Mas homem, cavalo e termos assim aplicados aos indivíduos de modo universal não são substância, e sim algo composto desta fórmula particular e desta matéria particular tomada universalmente. Quanto ao indivíduo, Sócrates já inclui em si a matéria individual última, e o mesmo se dá em todos os outros casos.
Uma parte pode ser parte ou da forma (isto é, da essência), ou do composto de forma e matéria, ou da própria matéria. Mas só as partes da forma são partes da fórmula, e a fórmula é do universal: ser um círculo é o mesmo que o círculo, e ser uma alma é o mesmo que a alma.
Mas quando chegamos à coisa concreta, por exemplo este círculo, um dos círculos individuais, seja perceptível ou inteligível (chamo de círculos inteligíveis os matemáticos, e de perceptíveis os de bronze e de madeira), desses não há definição: são conhecidos pelo pensamento intuitivo ou pela percepção. E quando saem dessa realização plena, não fica claro se existem ou não, mas são sempre enunciados e reconhecidos por meio da fórmula universal. A matéria, em si mesma, é incognoscível. Há matéria perceptível, como bronze, madeira e toda matéria que muda, e há matéria inteligível, que é aquela presente nas coisas perceptíveis não enquanto perceptíveis, isto é, os objetos da matemática.
Já dissemos, então, como as coisas se passam quanto ao todo e à parte, e quanto à sua anterioridade e posterioridade. Mas quando alguém pergunta se são anteriores o ângulo reto, o círculo e o animal, ou então as partes em que se dividem e de que são feitos, devemos responder que a pergunta não admite resposta simples.
Pois se até a alma nua é o animal ou o ser vivo, e se a alma de cada um é o próprio indivíduo, e ser um círculo é o círculo, e ser um ângulo reto, a essência do ângulo reto, é o ângulo reto, então o todo, num sentido, deve ser chamado posterior à parte: posterior às partes incluídas na fórmula e às partes do ângulo reto individual (pois tanto o ângulo reto material feito de bronze quanto o formado por linhas individuais são posteriores às suas partes). Já o ângulo reto imaterial é posterior às partes incluídas na fórmula, mas anterior às incluídas no exemplar particular. Por isso a pergunta não deve receber resposta simples.
Se, no entanto, a alma é algo diferente e não se identifica com o animal, mesmo assim algumas partes devem ser chamadas anteriores e outras não, como sustentamos.