Metafísica - Livro III 6
Livro III (Beta): o inventário das grandes dificuldades (aporias) que a filosofia precisa enfrentar antes de resolvê-las
Os princípios são universais ou individuais? A aporia final
De modo geral, dá para perguntar por que, afinal, além das coisas que captamos pelos sentidos e dos objetos intermediários, precisamos ainda procurar outra classe de coisas, ou seja, as Formas que estamos supondo existir. A razão alegada é esta: os objetos da matemática, embora se distingam das coisas deste mundo em algum aspecto, em nada se distinguem delas no fato de haver muitos do mesmo tipo, de modo que seus princípios não podem ser limitados em número.
Pense no exemplo das letras: os sons que formam toda a fala neste mundo sensível não são limitados em número, mas apenas em tipo. Só seriam limitados em número se você tomasse os sons desta sílaba específica ou deste som articulado específico. Com os objetos intermediários acontece o mesmo, pois também ali os membros de um mesmo tipo são infinitos em número.
Daí que, se não existirem, além das coisas sensíveis e dos objetos matemáticos, outras coisas como as Formas que alguns defendem, não haverá nenhuma substância que seja uma só em número, mas apenas uma em tipo, nem os princípios primeiros das coisas serão determinados em número, mas apenas em tipo. Se for assim que tem de ser, então as Formas também precisam ser admitidas como existentes.
Mesmo que os defensores dessa posição não a exponham com clareza, é isto que eles querem dizer, e é por isto que sustentam as Formas: porque cada uma das Formas é uma substância, e nenhuma existe por acaso.
Mas se vamos supor ao mesmo tempo que as Formas existem e que os princípios são um só em número, e não em tipo, já apontamos os resultados impossíveis que disso necessariamente seguem.
Bem ligada a esse ponto está a pergunta: os elementos existem como potência (capacidade) ou de algum outro modo? Se existirem de outro modo, haverá algo anterior aos princípios primeiros, pois a potência é anterior à causa em ato, e nem tudo que tem capacidade de ser precisa de fato se realizar.
Mas se os elementos existem apenas como potência, é possível que nada do que existe venha a existir. Pois até aquilo que ainda não é tem capacidade de vir a ser: o que ainda não existe passa a existir, mas nada que seja incapaz de existir chega a existir.
Não devemos levantar essas perguntas apenas sobre os princípios primeiros, mas também perguntar se eles são universais ou aquilo que chamamos de indivíduos. Se forem universais, não serão substâncias, pois tudo o que é comum a muitos indica não um "isto", mas um "tal"; e a substância é um "isto".
E se nos for permitido afirmar que aquilo que se diz em comum de muitos é um "isto" e uma coisa única, então Sócrates será vários animais ao mesmo tempo: ele próprio, mais "homem", mais "animal", caso cada um desses indique um "isto" e uma coisa única.
Se, então, os princípios são universais, seguem-se esses resultados. Se não são universais, mas têm a natureza de indivíduos, eles não serão conhecíveis, pois o conhecimento de qualquer coisa é universal. Portanto, se vai haver conhecimento dos princípios, terá de haver outros princípios anteriores a eles, a saber, aqueles que se afirmam universalmente deles.