Metafísica - Livro III 5
Livro III (Beta): o inventário das grandes dificuldades (aporias) que a filosofia precisa enfrentar antes de resolvê-las
Os objetos da matemática (números, pontos, linhas, superfícies) são substâncias separadas?
Ligada a essas questões está outra: os números, os corpos, as superfícies e os pontos são algum tipo de substância, ou não? Se não forem, fica difícil dizer o que é o ser e quais são as substâncias das coisas. Pois propriedades, movimentos, relações, disposições e proporções não parecem indicar a substância de nada: todas elas se afirmam de um sujeito, e nenhuma é um 'isto', uma coisa concreta que existe por si.
E mesmo aquilo que mais pareceria indicar a substância, ou seja, a água, a terra, o fogo e o ar, dos quais os corpos compostos são feitos, tem o calor, o frio e coisas do gênero apenas como propriedades suas, não como substâncias. O que persiste como algo real e como substância é o corpo que recebe essas modificações.
Por outro lado, o corpo é menos substância do que a superfície, a superfície menos do que a linha, e a linha menos do que a unidade e o ponto. Pois o corpo é delimitado por esses elementos, e se pensa que eles podem existir sem o corpo, enquanto o corpo não pode existir sem eles.
Por isso, enquanto a maioria dos filósofos, sobretudo os mais antigos, achava que substância e ser eram a mesma coisa que o corpo, e que tudo o mais eram modificações dele, de modo que os princípios primeiros dos corpos eram também os princípios primeiros do ser, os mais recentes, tidos por mais sábios, achavam que os números é que eram os princípios primeiros. Como dissemos, então, se esses objetos matemáticos não são substância, não há substância nem ser nenhum, pois não pode ser correto chamar de seres os acidentes deles.
Mas se admitirmos isso, que as linhas e os pontos são substância mais do que os corpos, e ainda assim não conseguimos ver a que tipo de corpos eles poderiam pertencer (pois não podem estar nos corpos perceptíveis), então não pode haver substância alguma.
Além disso, esses objetos são claramente divisões do corpo: uma em largura, outra em profundidade, outra em comprimento. E mais: nenhuma forma está presente no sólido mais do que qualquer outra. Assim, se a estátua de Hermes não está no bloco de pedra, também a metade do cubo não está no cubo como algo já determinado. Logo, a superfície também não está nele, pois, se algum tipo de superfície estivesse, então a superfície que separa a metade do cubo também estaria. E o mesmo raciocínio vale para a linha, para o ponto e para a unidade.
Portanto, se de um lado o corpo é substância no mais alto grau, e de outro esses objetos são substância mais do que o corpo, mas eles nem sequer são exemplos de substância, fica difícil dizer o que é o ser e qual é a substância das coisas.
Pois, além do que já foi dito, as questões da geração e da destruição nos colocam diante de novos paradoxos. Se uma substância que antes não existia agora existe, ou que antes existia depois deixa de existir, pensa-se que essa mudança vem acompanhada de um processo de surgir ou de perecer. Mas os pontos, as linhas e as superfícies não podem estar surgindo nem perecendo, embora ora existam, ora não.
Pois, quando dois corpos entram em contato, ou quando são separados, seus limites se tornam ao mesmo tempo um só, no caso em que se tocam, e dois, no caso em que se dividem. De modo que, depois de juntos, um dos limites já não existe, mas pereceu, e, depois de separados, passam a existir limites que antes não existiam. Pois não se pode dizer que o ponto, que é indivisível, tenha sido dividido em dois.
E se esses limites passam a existir e deixam de existir, a partir do que eles surgem? Algo semelhante pode ser dito do 'agora' no tempo, pois também ele não pode estar em processo de surgir ou de perecer, e mesmo assim parece ser sempre diferente, o que mostra que não é uma substância. E o mesmo vale, evidentemente, para os pontos, as linhas e as superfícies, pois a eles se aplica o mesmo argumento, já que todos são, igualmente, ou limites, ou divisões.