Metafísica - Livro III 4

Livro III (Beta): o inventário das grandes dificuldades (aporias) que a filosofia precisa enfrentar antes de resolvê-las

Existem coisas além das sensíveis? Os princípios são um só ou muitos? O ser e a unidade são a substância das coisas?

Ligada a essas questões uma dificuldade, a mais difícil de todas e a mais necessária de examinar, e é dela que vamos tratar agora. Se, por um lado, não existe nada além das coisas individuais, e os indivíduos são infinitos em número, como então é possível obter conhecimento de indivíduos infinitos? Pois tudo o que chegamos a conhecer, conhecemos na medida em que essas coisas têm alguma unidade e identidade, e na medida em que algum traço lhes pertence de modo universal.
Mas, se isso é necessário, e tem de haver algo além dos indivíduos, então será necessário que os gêneros existam à parte dos indivíduos, sejam eles os gêneros mais baixos, sejam os mais altos. que acabamos de mostrar, na discussão anterior, que isso é impossível.
Além disso, suponhamos no sentido mais pleno que algo exista à parte da coisa concreta, sempre que algo é afirmado da matéria. Se existe esse algo à parte, ele tem de existir à parte de cada conjunto de indivíduos, ou de alguns e não de outros, ou de nenhum?
Primeira hipótese: se não nada além dos indivíduos, não haverá nenhum objeto do pensamento, e todas as coisas serão apenas objetos dos sentidos. Nesse caso, não haverá conhecimento de nada, a menos que digamos que a sensação é conhecimento. Além disso, nada será eterno nem imóvel, pois todas as coisas perceptíveis perecem e estão em movimento.
Mas, se nada é eterno, tampouco pode haver um processo de vir a ser. Pois é preciso que haja algo que vem a ser, isto é, algo a partir do qual a coisa surge, e o termo último dessa série não pode ter vindo a ser, que a série tem um limite e que nada pode surgir daquilo que não é.
Além disso, se a geração e o movimento existem, tem de haver também um limite, pois nenhum movimento é infinito: todo movimento tem um fim. E aquilo que é incapaz de completar o seu vir a ser não pode estar em processo de vir a ser. aquilo que completou o seu vir a ser tem de existir tão logo veio a ser.
Além disso, como a matéria existe, por ser ela mesma não gerada, é com mais razão ainda razoável que exista a substância, ou essência, isto é, aquilo que a matéria em cada momento está vindo a ser. Pois, se nem a essência nem a matéria existirem, nada existirá de modo algum. E, como isso é impossível, tem de haver algo além da coisa concreta, a saber, a configuração ou forma.
Mas, por outro lado, segunda hipótese: se vamos supor isso, é difícil dizer em quais casos devemos supô-lo e em quais não. Pois é evidente que não é possível supô-lo em todos os casos. Não poderíamos supor que existe uma casa em si além das casas particulares.
Fora isso, a substância de todos os indivíduos, por exemplo de todos os homens, será uma só? Isso é paradoxal, pois todas as coisas cuja substância é uma são uma única coisa. Mas serão as substâncias muitas e diferentes? Isso também é absurdo. E, ao mesmo tempo, como a matéria vem a ser cada um dos indivíduos, e como a coisa concreta é esses dois elementos juntos?
De novo, alguém poderia levantar a seguinte questão também sobre os princípios primeiros. Se eles são um apenas em espécie, nada será numericamente um, nem mesmo a unidade em si nem o ser em si. E como existirá o conhecer, se não houver algo comum a todo um conjunto de indivíduos?
Mas suponhamos que haja um elemento comum que seja numericamente um, e que cada um dos princípios seja um só, e que os princípios não sejam, como no caso das coisas perceptíveis, diferentes para coisas diferentes. Por exemplo: como esta sílaba particular é a mesma em espécie sempre que ocorre, também as letras que a compõem são as mesmas em espécie. As mesmas em espécie, pois também elas, como a sílaba, são numericamente diferentes em contextos diferentes.
Ora, se não for assim, e os princípios das coisas forem numericamente um só, não haverá nada além dos elementos. Pois não diferença de sentido entre dizer numericamente um e dizer indivíduo, que é exatamente isso que entendemos por indivíduo, o numericamente um, e por universal entendemos aquilo que pode ser afirmado dos indivíduos. Seria então como se as letras da fala articulada fossem limitadas em número: toda a linguagem do mundo se reduziria ao ABC, pois não poderia haver duas ou mais letras da mesma espécie.
Mais uma dificuldade, tão grande quanto qualquer outra, foi negligenciada tanto pelos filósofos recentes quanto pelos seus antecessores: a de saber se os princípios das coisas perecíveis e os das imperecíveis são os mesmos ou diferentes. Se forem os mesmos, como é que algumas coisas são perecíveis e outras imperecíveis, e por qual razão?
A escola de Hesíodo e todos os que falavam dos deuses pensaram apenas no que era plausível para eles próprios, e não levaram em conta a nós. Pois, afirmando que os princípios primeiros são deuses e nascidos de deuses, eles dizem que os seres que não provaram o néctar e a ambrosia se tornaram mortais. É claro que estão usando palavras que lhes são familiares, mas o que disseram sobre a aplicação dessas causas está acima da nossa compreensão.
Pois, se os deuses provam o néctar e a ambrosia por prazer, então essas coisas não são de modo algum as causas da existência deles. E, se os provam para manter a sua existência, como podem ser eternos deuses que precisam de alimento? Mas não vale a pena investigar a sério as sutilezas dos contadores de mitos. aqueles que usam a linguagem da demonstração, esses temos de interrogar a fundo e perguntar por que, afinal, coisas feitas dos mesmos elementos são, algumas delas, eternas por natureza, enquanto outras perecem.
Como esses filósofos não mencionam nenhuma causa, e é absurdo que as coisas sejam como eles dizem, fica evidente que os princípios ou causas das coisas não podem ser os mesmos. Até o pensador que se poderia supor mais coerente, Empédocles, mesmo ele cometeu o mesmo erro. Pois ele sustenta que a discórdia é um princípio que causa destruição, mas a discórdia parece produzir tudo igualmente, exceto o Uno. Pois todas as coisas, exceto Deus, procedem da discórdia. Ao menos é o que ele diz:
Daquilo de que tudo o que foi, e é, e de ser de agora em diante, árvores, e homens e mulheres, tiveram seu crescimento, e feras e aves e peixes nutridos pela água, e deuses de longa idade.
A implicação fica evidente mesmo fora dessas palavras, pois, se a discórdia não estivesse presente nas coisas, todas as coisas seriam uma só, segundo ele. Pois, quando elas se uniram, então a discórdia ficou de fora. Daí também decorre, na teoria dele, que Deus, o mais feliz de todos, é menos sábio que todos os outros, pois não conhece todos os elementos. Pois não discórdia nele, e o conhecimento se do semelhante pelo semelhante. Pois, diz ele:
Pela terra vemos a terra, pela água a água, pelo éter o éter divino, pelo fogo o fogo destruidor, o amor pelo amor, e a discórdia pela sombria discórdia.
Mas, e este é o ponto de que partimos, ao menos isto fica evidente: na teoria dele, decorre que a discórdia é tanto causa da existência quanto da destruição. E, do mesmo modo, o amor não é causa especialmente da existência, pois, ao reunir as coisas no Uno, ele destrói todas as outras. E, ao mesmo tempo, Empédocles não menciona nenhuma causa da própria mudança, exceto que as coisas são assim por natureza.
Mas quando a discórdia enfim cresceu nos membros da Esfera, e saltou para reivindicar seus direitos, ao se cumprir o tempo que lhes está fixado em alternância por um poderoso juramento.
Isso a entender que a mudança era necessária, mas ele não mostra nenhuma causa dessa necessidade. Ainda assim, ao menos nesse ponto, ele fala de modo coerente, pois não torna algumas coisas perecíveis e outras imperecíveis, e sim torna todas perecíveis, exceto os elementos. A dificuldade de que falamos agora é por que algumas coisas são perecíveis e outras não, se elas são feitas dos mesmos princípios.
Isso baste como prova de que os princípios não podem ser os mesmos. Mas, se princípios diferentes, uma dificuldade é saber se também eles serão imperecíveis ou perecíveis. Pois, se forem perecíveis, é evidente que também eles têm de ser feitos de certos elementos, que tudo o que perece, perece ao se desfazer nos elementos de que é feito. Disso decorreria que, antes dos princípios, outros princípios. Mas isso é impossível, quer o processo tenha um limite, quer prossiga ao infinito.
Além disso, como existirão coisas perecíveis, se os seus princípios forem suprimidos? E, se os princípios forem imperecíveis, por que coisas compostas de certos princípios imperecíveis serão perecíveis, enquanto as compostas dos outros serão imperecíveis? Isso não é provável, mas é ou impossível ou precisa de muita demonstração. Além disso, ninguém sequer tentou sustentar princípios diferentes: todos sustentam os mesmos princípios para todas as coisas. E engolem a dificuldade que enunciamos primeiro como se a tomassem por algo insignificante.
A investigação que é ao mesmo tempo a mais difícil de todas e a mais necessária para o conhecimento da verdade é esta: se o ser e a unidade são a substância das coisas, e se cada um deles, sem ser nenhuma outra coisa, é respectivamente o ser ou a unidade, ou se devemos antes investigar o que são o ser e a unidade, supondo que eles tenham por baixo alguma outra natureza.
Pois algumas pessoas acham que eles são do primeiro tipo, outras acham que são do segundo. Platão e os pitagóricos achavam que o ser e a unidade não são nenhuma outra coisa, mas que essa era a sua natureza, sendo a sua essência apenas a unidade e o ser. os que estudam a natureza seguem outra linha. Empédocles, por exemplo, como que reduzindo a unidade a algo mais inteligível, diz o que ela é: ele parece dizer que ela é o amor, pois este é, para todas as coisas, a causa de serem uma só.
Outros dizem que essa unidade e esse ser, de que as coisas são feitas e a partir do qual foram produzidas, é o fogo, e outros dizem que é o ar. Uma visão semelhante é expressa por aqueles que fazem dos elementos mais de um, pois também estes precisam dizer que a unidade e o ser são exatamente todas as coisas que eles apontam como princípios.
Primeira hipótese: se não supomos que a unidade e o ser sejam substâncias, decorre que nenhum dos outros universais é uma substância, pois esses são os mais universais de todos. E, se não a unidade em si nem o ser em si, dificilmente haverá em qualquer outro caso algo além do que chamamos de indivíduos. Além disso, se a unidade não é uma substância, é evidente que o número também não existirá como uma entidade separada das coisas individuais, pois o número é feito de unidades, e a unidade é precisamente um certo tipo de um.
Mas, segunda hipótese: se uma unidade em si e um ser em si, então a unidade e o ser têm de ser a substância deles. Pois não é nenhuma outra coisa que se afirma universalmente das coisas que são e que são uma só, e sim justamente a unidade e o ser. Mas, se vai haver um ser em si e uma unidade em si, muita dificuldade em ver como haverá algo além disso, quero dizer, como as coisas serão mais de uma em número. Pois o que é diferente do ser não existe, de modo que decorre necessariamente, segundo o argumento de Parmênides, que todas as coisas que são, são uma só, e essa coisa é o ser.
objeções a ambas as posições. Pois, quer a unidade não seja uma substância, quer haja uma unidade em si, o número não pode ser uma substância. dissemos por que esse resultado se segue caso a unidade não seja uma substância. E, caso ela seja, surge a mesma dificuldade que surgiu a respeito do ser. Pois de onde haveria de vir um outro um além da unidade em si? Esse outro um teria de ser não um, mas todas as coisas são ou uma ou muitas, e, dentre as muitas, cada uma é uma.
Além disso, se a unidade em si é indivisível, segundo o postulado de Zenão ela será nada. Pois aquilo que, ao ser acrescentado, não torna uma coisa maior, nem, ao ser retirado, a torna menor, ele afirma não ter ser nenhum, supondo evidentemente que tudo o que tem ser é uma grandeza no espaço.
E, se é uma grandeza, é corpórea, pois o corpóreo tem ser em todas as dimensões. os outros objetos da matemática, por exemplo um plano ou uma linha, acrescentados de um modo aumentam aquilo a que são acrescentados, mas, de outro modo, não aumentam. E um ponto ou uma unidade não aumentam de modo algum. Mas, como a teoria de Zenão é de baixa qualidade, e uma coisa indivisível pode existir de tal modo que tenha uma defesa mesmo contra ele (pois o indivisível, ao ser acrescentado, tornará maior o número, ainda que não o tamanho), mesmo assim, como pode uma grandeza proceder de um único indivisível desses, ou de muitos? É como dizer que a linha é feita de pontos.
Mas, mesmo que alguém suponha o caso de tal modo que, como dizem alguns, o número proceda da unidade em si e de algo mais que não é um, ainda assim temos de investigar por que e como o produto será às vezes um número e às vezes uma grandeza, se o não um era a desigualdade e era o mesmo princípio nos dois casos. Pois não fica evidente como as grandezas poderiam proceder do um e desse princípio, nem de algum número e desse princípio.