Metafísica - Livro III 3

Livro III (Beta): o inventário das grandes dificuldades (aporias) que a filosofia precisa enfrentar antes de resolvê-las

Os princípios das coisas são os gêneros ou as partes que as compõem? E, se gêneros, os mais gerais ou os mais próximos das espécies?

Além da grande dificuldade de descrever esses assuntos com exatidão, é muito difícil dizer, sobre os princípios primeiros, se devemos tomar como elementos e princípios os gêneros (as classes gerais a que as coisas pertencem) ou, em vez disso, as partes básicas de que cada coisa é feita.
Pense nos sons da fala: são as partes mínimas que compõem cada som articulado que consideramos seus elementos e princípios, e não a classe geral 'som articulado'. Do mesmo modo, em geometria chamamos de 'elementos' aquelas proposições cujas demonstrações estão contidas nas demonstrações das outras, de todas ou da maioria delas.
Além disso, tanto quem diz que os corpos têm vários elementos quanto quem diz que têm um afirmam que os princípios são as partes de que os corpos são compostos. Empédocles, por exemplo, diz que o fogo, a água e os demais são os elementos que constituem as coisas, mas não os descreve como gêneros das coisas que existem.
E mais: quando queremos examinar a natureza de qualquer outra coisa, examinamos as partes de que ela é feita (por exemplo, uma cama) e como essas partes estão montadas, e então passamos a conhecer a natureza dela.
A julgar por esses argumentos, então, os princípios das coisas não seriam os gêneros. Mas, se conhecemos cada coisa por sua definição, e os gêneros são os princípios ou pontos de partida das definições, então os gêneros também têm que ser os princípios das coisas que podem ser definidas.
E se conhecer as espécies pelas quais as coisas recebem seus nomes é o mesmo que conhecer as coisas, então os gêneros são ao menos os pontos de partida das espécies. Alguns dos que dizem que a unidade, ou o ser, ou o grande e o pequeno são elementos das coisas parecem também tratá-los como gêneros.
Por outro lado, não é possível descrever os princípios das duas maneiras ao mesmo tempo. A fórmula da essência de uma coisa é uma só, mas a definição feita por gêneros vai ser diferente da definição que indica as partes que compõem a coisa.
Além disso, mesmo que os gêneros sejam princípios no mais alto grau, devemos considerar como princípios os primeiros gêneros (os mais gerais) ou aqueles que se afirmam diretamente dos indivíduos (os mais próximos das espécies)? Isso também é matéria de disputa.
Pois, se aquilo que é mais universal é sempre mais da natureza de um princípio, então é evidente que os gêneros mais altos são os princípios, que estes se afirmam de todas as coisas. Haveria, então, tantos princípios quantos forem os gêneros primeiros, de modo que o ser e a unidade seriam princípios e substâncias, pois são os que mais se afirmam de tudo o que existe.
Mas não é possível que o ser ou a unidade seja um único gênero das coisas. Cada uma das diferenças que distinguem uma espécie dentro de um gênero tem que ter ser e ser una; ora, um gênero, tomado à parte de suas espécies, não pode ser afirmado de suas próprias diferenças (assim como as espécies de um gênero também não podem). Logo, se a unidade ou o ser fosse um gênero, nenhuma diferença teria ser nem seria una, o que é absurdo.
Mas, se a unidade e o ser não são gêneros, então também não serão princípios, caso os princípios sejam os gêneros.
Outro problema: as classes intermediárias, que incluem em sua natureza as diferenças, seriam por essa teoria gêneros também, descendo até as espécies que não se podem mais dividir. Mas, na prática, algumas dessas classes são consideradas gêneros e outras não.
Além disso, as diferenças são princípios ainda mais do que os gêneros. E se elas também são princípios, então o número de princípios se torna praticamente infinito, sobretudo se supusermos que o gênero mais alto é um princípio.
Mas, de novo: se a unidade é mais da natureza de um princípio, e o indivisível é uno, e tudo o que é indivisível o é em quantidade ou em espécie, e o que é indivisível em espécie vem antes, e os gêneros se dividem em espécies (pois 'homem' não é o gênero dos homens individuais), então aquilo que se afirma diretamente dos indivíduos tem mais unidade. Por esse lado, seriam as espécies, e não os gêneros, os princípios.
Mais ainda: quando uma ordem de anterior e posterior entre as coisas, aquilo que se afirma delas não pode ser algo separado delas. Se o número dois é o primeiro dos números, não um Número em geral à parte dos tipos de números; e do mesmo modo não uma Figura à parte dos tipos de figuras. E se os gêneros dessas coisas não existem separados de suas espécies, dificilmente os gêneros das outras coisas existirão, pois é justamente aqui que se costuma admitir que os gêneros existam, se é que existem em algum caso.
entre os indivíduos, nenhum vem antes e nenhum vem depois. Além disso, onde uma coisa é melhor e outra é pior, a melhor sempre vem antes; assim, também nesses casos não pode existir um gênero separado. Por todas essas considerações, então, as espécies que se afirmam dos indivíduos parecem ser princípios mais do que os gêneros.
Mas, de novo, não é fácil dizer em que sentido essas espécies seriam princípios. Pois o princípio ou causa tem que existir ao lado das coisas das quais é princípio, e tem que ser capaz de existir separado delas. Mas que razão teríamos para supor que algo assim existe ao lado do indivíduo, a não ser o fato de que se afirma de modo universal, de todos? Mas, se essa é a razão, então as coisas mais universais teriam que ser tidas por mais da natureza de princípios, de modo que os gêneros mais altos é que seriam os princípios. E assim voltamos ao impasse.