Metafísica - Livro III 2
Livro III (Beta): o inventário das grandes dificuldades (aporias) que a filosofia precisa enfrentar antes de resolvê-las
As primeiras aporias desenvolvidas: uma ou várias ciências para as causas, os axiomas e as substâncias
Comecemos pela primeira questão que levantamos: investigar todos os tipos de causa cabe a uma única ciência ou a várias? Como uma só ciência poderia reconhecer os princípios, se eles não são contrários entre si?
Além disso, há muitas coisas às quais nem todos os princípios se aplicam. Como poderia existir um princípio de mudança, ou a natureza do bem, para as coisas que não mudam? Pois tudo o que é bom em si mesmo e por sua própria natureza é um fim, e é causa no sentido de que é em vista dele que as outras coisas vêm a ser e existem. E um fim, ou propósito, é o fim de alguma ação, e toda ação implica mudança. Logo, no caso das coisas que não mudam, esse princípio não pode existir, nem pode haver um bem em si.
É por isso que, na matemática, nada se prova por meio desse tipo de causa, nem há demonstração do tipo 'porque é melhor' ou 'porque é pior'. Ninguém sequer menciona algo assim. Por essa razão, alguns dos sofistas, como Aristipo, costumavam ridicularizar a matemática. Ele dizia que nas artes, mesmo nas artes manuais, como a carpintaria e a sapataria, a razão sempre apresentada é 'porque é melhor' ou 'porque é pior', mas as ciências matemáticas não levam em conta bens nem males.
Mas, se há várias ciências das causas, uma ciência diferente para cada princípio diferente, qual delas devemos chamar de a ciência que procuramos? E qual das pessoas que dominam essas ciências tem o conhecimento mais científico do objeto em questão?
Uma mesma coisa pode ter todos os tipos de causa. Tome uma casa: a causa motora é a arte de construir, ou o construtor; a causa final é a função que ela cumpre; a matéria é a terra e as pedras; e a forma é a definição do que a casa é.
A julgar pela nossa discussão anterior sobre qual das ciências deve ser chamada de sabedoria, há razão para aplicar esse nome a cada uma delas. Por ser a mais diretiva e a mais soberana, a ciência do fim e do bem teria a natureza da sabedoria, já que as demais ciências, como servas, não podem nem contradizê-la, pois as outras coisas existem em vista do fim. Mas, por ter sido descrita como aquela que trata das primeiras causas e do que é objeto de conhecimento no sentido mais alto, a ciência da substância também teria a natureza da sabedoria.
Pois há muitos modos pelos quais conhecemos a mesma coisa. Dizemos que quem reconhece o que uma coisa é por aquilo que ela é conhece de modo mais pleno do que quem a reconhece por aquilo que ela não é. E, mesmo dentro do primeiro grupo, um conhece de modo mais pleno que outro: conhece mais plenamente quem sabe o que a coisa é, não quem sabe sua quantidade, sua qualidade, ou o que ela pode por natureza fazer ou sofrer.
Além disso, mesmo nos casos em que a demonstração é possível, achamos que só conhecemos cada coisa quando sabemos o que ela é. Por exemplo, conhecer o que é construir um quadrado de área igual à de um retângulo é saber que isso consiste em encontrar uma média proporcional. O mesmo vale para todos os outros casos. E sabemos das coisas que vêm a ser, das ações e de toda mudança quando conhecemos a origem do movimento, e essa origem é distinta do fim, e oposta a ele. Portanto, pareceria caber a ciências diferentes investigar cada uma dessas causas.
Passemos agora à segunda questão: tomando os pontos de partida da demonstração junto com as causas, é discutível se eles são objeto de uma só ciência ou de várias. Por pontos de partida da demonstração eu entendo as crenças comuns sobre as quais todos baseiam suas provas. Por exemplo, que tudo deve ser ou afirmado ou negado, e que uma coisa não pode ao mesmo tempo ser e não ser, e todas as outras premissas desse tipo. A questão é se a mesma ciência trata dessas crenças e da substância, ou se é outra ciência. E, se não for uma só ciência, qual das duas devemos identificar com aquela que agora procuramos.
Não é razoável que esses temas sejam objeto de uma só ciência. Por que seria próprio da geometria, ou de qualquer outra ciência específica, entender dessas coisas? Se pertencem igualmente a toda ciência, mas não podem pertencer a todas como sua propriedade exclusiva, então conhecer esses temas não é mais próprio da ciência que investiga as substâncias do que de qualquer outra.
E, ao mesmo tempo, de que modo poderia haver uma ciência dos primeiros princípios? Já sabemos agora o que cada um deles de fato é, tanto que as outras ciências os usam como algo familiar. Mas, se houver uma ciência demonstrativa que trate deles, terá de existir um gênero subjacente a ser estudado, alguns dos princípios terão de ser propriedades demonstráveis e outros terão de ser axiomas, pois é impossível que haja demonstração de todos eles. Toda demonstração precisa partir de certas premissas, versar sobre certo objeto e provar certas propriedades. Segue-se daí que todas as propriedades provadas devem pertencer a uma única classe, pois todas as ciências demonstrativas usam os axiomas.
Mas, se a ciência da substância e a ciência que trata dos axiomas são diferentes, qual delas é por natureza mais soberana e anterior? Os axiomas são os mais universais e são princípios de todas as coisas. E, se não cabe ao filósofo, a quem mais caberá investigar o que é verdadeiro e o que é falso a respeito deles?
Vejamos a terceira questão: de modo geral, todas as substâncias caem sob uma única ciência ou sob mais de uma? Se sob mais de uma, a qual tipo de substância deve ser atribuída a ciência que buscamos?
Por outro lado, não é razoável que uma só ciência trate de todas as substâncias. Pois então haveria uma única ciência demonstrativa tratando de todas as propriedades. Toda ciência demonstrativa investiga, a respeito de algum objeto, as propriedades que lhe pertencem por essência, partindo das crenças comuns. Portanto, investigar as propriedades essenciais de uma classe de coisas, partindo de um conjunto de crenças, é tarefa de uma só ciência. O objeto pertence a uma ciência, e as premissas a uma ciência, sejam elas a mesma ou outra. De modo que as propriedades também pertencem a uma ciência, quer sejam investigadas por essas ciências separadas, quer por uma única composta a partir delas.
Mais uma questão: nossa investigação trata só das substâncias ou também das propriedades delas? Quero dizer o seguinte: se o sólido é uma substância, e também o são as linhas e os planos, cabe à mesma ciência conhecer essas coisas e conhecer as propriedades de cada uma dessas classes, as propriedades que as ciências matemáticas demonstram, ou cabe a uma ciência diferente?
Se for à mesma ciência, então a ciência da substância também terá de ser uma ciência demonstrativa. Mas se pensa que não há demonstração da essência das coisas. E, se for a outra ciência, qual será a ciência que investiga as propriedades da substância? Essa é uma questão muito difícil.
Outra questão ainda: devemos dizer que existem apenas as substâncias sensíveis, ou que há outras além delas? E as substâncias são de um só tipo, ou há de fato vários tipos de substância, como afirmam os que sustentam a existência tanto das Formas quanto dos intermediários, dos quais dizem que tratam as ciências matemáticas?
O sentido em que dizemos que as Formas são ao mesmo tempo causas e substâncias independentes foi explicado nas nossas primeiras observações sobre elas. Embora a teoria apresente dificuldades de muitas maneiras, o mais paradoxal de tudo é a afirmação de que existem certas coisas além das do universo material, e que essas coisas são iguais às coisas sensíveis, só que eternas, enquanto as sensíveis são perecíveis. Pois eles dizem que há um homem em si, um cavalo em si e uma saúde em si, sem nenhuma outra qualificação. É um procedimento parecido com o daqueles que diziam que existem deuses, mas em forma humana. Estes não punham senão homens eternos, e os platônicos não fazem das Formas senão coisas sensíveis eternas.
Além disso, se vamos postular, além das Formas e das coisas sensíveis, os intermediários entre elas, teremos muitas dificuldades. Pois é claro que, pelo mesmo princípio, haverá linhas além das linhas em si e das linhas sensíveis, e assim com cada uma das outras classes de coisas. Como a astronomia é uma dessas ciências matemáticas, haverá também um céu além do céu sensível, e um sol e uma lua, e o mesmo com os demais corpos celestes, além dos sensíveis. Mas como podemos acreditar nessas coisas? Não é razoável supor tal corpo imóvel, e supô-lo em movimento é totalmente impossível.
O mesmo vale para as coisas de que tratam a óptica e a harmônica matemática, pois também elas não podem existir separadas das coisas sensíveis, pelas mesmas razões. Pois, se há coisas sensíveis e sensações intermediárias entre a Forma e o indivíduo, é evidente que haverá também animais intermediários entre os animais em si e os animais perecíveis.
Poderíamos também perguntar: em relação a qual tipo de coisas existentes devemos buscar essas ciências dos intermediários? Se a geometria difere da agrimensura apenas nisto, que a agrimensura trata das coisas que percebemos e a geometria das coisas que não são perceptíveis, então é evidente que haverá também uma ciência distinta da medicina, intermediária entre a medicina em si e esta medicina individual, e o mesmo com cada uma das outras ciências. Mas como isso é possível? Teria de haver também coisas saudáveis além das coisas saudáveis perceptíveis e da saúde em si. E, ao mesmo tempo, nem é verdade que a agrimensura trate de grandezas perceptíveis e perecíveis, pois então ela teria perecido quando essas grandezas perecessem.
Por outro lado, a astronomia não pode tratar de grandezas perceptíveis, nem deste céu acima de nós. Pois as linhas perceptíveis não são linhas como as de que fala quem estuda geometria, já que nenhuma coisa perceptível é reta ou redonda no sentido em que ele define 'reto' e 'redondo'. Um aro não toca uma régua reta num único ponto, mas como dizia Protágoras ao refutar os geômetras. Nem os movimentos e as órbitas em espiral no céu são como aqueles de que trata a astronomia, nem os pontos geométricos têm a mesma natureza que os astros reais.
Há ainda alguns que dizem que esses chamados intermediários, entre as Formas e as coisas perceptíveis, existem, mas não separados das coisas perceptíveis, e sim dentro delas. Os resultados impossíveis dessa opinião seriam longos demais de enumerar, mas basta considerar os seguintes pontos.
Não é razoável que isso aconteça só no caso desses intermediários, pois claramente as Formas também poderiam estar dentro das coisas perceptíveis, já que as duas afirmações são partes da mesma teoria. Além disso, dessa teoria se segue que há dois corpos sólidos no mesmo lugar, e que os intermediários não são imóveis, já que estão dentro das coisas perceptíveis, que se movem. E, de modo geral, com que propósito alguém suporia que eles existem, mas que existem dentro das coisas perceptíveis? Seguem-se os mesmos resultados paradoxais que já mencionamos: haverá um céu além do céu, só que não separado, e sim no mesmo lugar, o que é ainda mais impossível.