Metafísica - Livro II 3

Livro II (Alpha menor): a filosofia como busca da verdade, a dificuldade de conhecer e por que não há cadeia infinita de causas

O método e o rigor adequados a cada assunto

O efeito que uma exposição produz em quem escuta depende dos hábitos dele. Esperamos a linguagem a que estamos acostumados, e aquela que foge desse padrão soa fora de lugar, meio incompreensível e estranha, justamente por não ser familiar. Pois é o que nos é habitual que nos parece inteligível.
A força do hábito fica clara nas leis, em que os elementos lendários e infantis, por força do costume, ainda pesam mais do que aquilo que de fato sabemos sobre essas coisas.
Por isso algumas pessoas não dão ouvidos a quem fala, a não ser que ele fale de modo matemático; outras aceitam se ele der exemplos concretos; e outras esperam que ele cite um poeta como testemunha.
Alguns querem que tudo seja feito com rigor exato, enquanto outros se irritam com esse rigor, seja porque não conseguem acompanhar o encadeamento do raciocínio, seja porque o tomam por mera implicância com minúcias. De fato, o rigor tem algo desse aspecto, de modo que, assim como acontece no comércio, também na argumentação quem o ache mesquinho.
Por isso a pessoa precisa estar preparada para saber como receber cada tipo de argumento, pois é absurdo buscar ao mesmo tempo o conhecimento e o método de chegar a esse conhecimento. E não é fácil conquistar nem mesmo um dos dois.
O rigor minucioso da matemática não deve ser exigido em todos os casos, mas apenas nas coisas que não têm matéria. Por isso esse não é o método da ciência da natureza, pois é de supor que a natureza inteira tenha matéria.
Por isso precisamos investigar primeiro o que é a natureza, pois assim veremos também do que trata a ciência da natureza, e se cabe a uma única ciência, ou a mais de uma, investigar as causas e os princípios das coisas.