Ética a Nicômaco - Livro X 8
O prazer reexaminado e a felicidade como contemplação: por que a vida contemplativa é a mais elevada
Por que a vida contemplativa é a felicidade mais perfeita
A vida guiada pelo outro tipo de virtude, a virtude moral, é feliz de modo secundário, porque as atividades que ela envolve combinam com a nossa condição humana. Os atos justos, corajosos e os outros atos virtuosos nós os praticamos uns em relação aos outros, cumprindo nossos deveres em contratos, serviços, toda sorte de ações e diante das paixões. Todos eles parecem tipicamente humanos.
Alguns desses atos até parecem nascer do corpo, e a virtude de caráter está ligada de muitas maneiras às paixões. A prudência também está conectada à virtude moral, e a virtude moral à prudência, já que os princípios da prudência seguem as virtudes morais, e o acerto no agir moral segue a prudência.
Por estarem ligadas às paixões, as virtudes morais pertencem à nossa natureza composta de corpo e alma, e as virtudes dessa natureza composta são humanas. Logo, também são humanas a vida e a felicidade que correspondem a elas. Já a excelência do intelecto é algo à parte. Basta dizer isso a respeito dela, pois descrevê-la com precisão seria uma tarefa maior do que o nosso propósito exige.
Essa excelência do intelecto parece precisar de pouquíssimos recursos externos, ou de menos do que precisa a virtude moral. Admita que ambas precisam do necessário para viver, e na mesma medida, mesmo que o trabalho do homem público lide mais com o corpo e coisas desse tipo, pois aí a diferença é pequena. Mas no que cada uma precisa para exercer suas atividades, a diferença é grande.
O homem generoso vai precisar de dinheiro para praticar seus atos de generosidade, e o homem justo também vai precisar dele para retribuir serviços (afinal, as intenções são difíceis de enxergar, e até pessoas que não são justas fingem querer agir com justiça). O corajoso vai precisar de poder, se quiser realizar qualquer um dos atos que correspondem à sua virtude, e o temperante vai precisar de oportunidade. De que outro modo ele, ou qualquer um dos outros, seria reconhecido como virtuoso?
Discute-se também se o que mais importa para a virtude é a intenção ou o ato, supondo-se que ela envolva os dois. É claro que a virtude completa envolve ambos. Mas para os atos muitas coisas são necessárias, e quanto maiores e mais nobres são os atos, mais coisas eles exigem. Já quem está contemplando a verdade não precisa de nada disso para exercer sua atividade. Aliás, pode-se dizer que tais coisas são até obstáculos, pelo menos para a contemplação. Mas como ele é um ser humano e vive entre outras pessoas, escolhe praticar atos virtuosos, e por isso vai precisar desses recursos para viver uma vida humana.
Que a felicidade perfeita é uma atividade contemplativa fica claro também pela seguinte consideração. Supomos que os deuses são, acima de todos os outros seres, abençoados e felizes. Mas que tipo de ações devemos atribuir a eles? Atos de justiça? Não pareceriam absurdos os deuses se fizessem contratos, devolvessem depósitos e coisas assim?
Atos de um homem corajoso, então, enfrentando perigos e correndo riscos porque é nobre fazê-lo? Ou atos de generosidade? A quem dariam? Seria estranho que eles realmente tivessem dinheiro ou algo do gênero. E quais seriam seus atos de temperança? Esse elogio não é sem sentido, já que eles não têm apetites ruins?
Se passássemos por todos os tipos de ação virtuosa, as circunstâncias de cada ato seriam triviais e indignas dos deuses. Ainda assim, todos supõem que eles vivem e, portanto, que estão em atividade, pois não podemos imaginá-los dormindo como Endimião. Ora, se você tira de um ser vivo a ação, e mais ainda a produção de coisas, o que resta além da contemplação?
Portanto, a atividade de Deus, que supera todas as outras em bem-aventurança, deve ser contemplativa. E entre as atividades humanas, logo, a que é mais parecida com essa deve ser a que mais tem a natureza da felicidade.
Isso também se mostra pelo fato de que os outros animais não têm parte na felicidade, por estarem completamente privados dessa atividade. Pois enquanto a vida inteira dos deuses é abençoada, e a dos homens também na medida em que possuem alguma semelhança com essa atividade, nenhum dos outros animais é feliz, já que de modo algum participam da contemplação.
A felicidade se estende, então, exatamente até onde se estende a contemplação. E aqueles a quem a contemplação pertence mais plenamente são mais verdadeiramente felizes, não por acaso, mas em virtude da própria contemplação, pois ela é em si mesma valiosa. A felicidade, portanto, deve ser alguma forma de contemplação.
Mas, sendo um ser humano, a pessoa vai precisar também de prosperidade externa, pois a nossa natureza não é autossuficiente para a contemplação. O nosso corpo precisa estar saudável e precisa ter alimento e outros cuidados. Ainda assim, não devemos pensar que quem vai ser feliz precisará de muitas coisas ou de grandes coisas só porque não consegue ser supremamente feliz sem os bens externos.
Afinal, a autossuficiência e a ação não exigem excesso, e podemos praticar atos nobres sem governar a terra e o mar, pois mesmo com recursos moderados é possível agir virtuosamente. Isso é bastante claro, pois as pessoas comuns parecem praticar atos dignos não menos que os poderosos, e talvez até mais. Basta termos esse tanto de recursos, pois a vida de quem age conforme a virtude será feliz.
Sólon também talvez descrevesse bem o homem feliz quando o pintou como alguém moderadamente provido de bens externos, mas que havia realizado (no entender de Sólon) os atos mais nobres e vivido com temperança, pois é possível, com posses apenas moderadas, fazer o que se deve. Anaxágoras também parece ter suposto que o homem feliz não é rico nem poderoso, quando disse que não se surpreenderia se o homem feliz parecesse à maioria uma pessoa estranha, pois as pessoas julgam pelas aparências externas, já que é só isso que percebem.
As opiniões dos sábios, então, parecem estar em harmonia com os nossos argumentos. Mas, embora coisas desse tipo tenham algum poder de convencer, a verdade nos assuntos práticos se discerne a partir dos fatos da vida, pois eles são o fator decisivo. Devemos, portanto, examinar o que já dissemos, submetendo-o ao teste dos fatos da vida. Se estiver em harmonia com os fatos, devemos aceitá-lo, mas se chocar com eles, devemos tratá-lo como mera teoria.
Ora, quem exercita a sua razão e a cultiva parece estar tanto no melhor estado de espírito quanto ser o mais querido pelos deuses. Pois se os deuses têm algum cuidado com os assuntos humanos, como se acredita que têm, seria razoável que se deleitassem com aquilo que é melhor e mais próximo deles (ou seja, a razão) e que recompensassem aqueles que mais amam e honram essa razão, por cuidarem do que lhes é caro e por agirem de modo certo e nobre.
E que todos esses atributos pertencem acima de tudo ao filósofo é evidente. Ele, portanto, é o mais querido pelos deuses. E quem é isso será também, presumivelmente, o mais feliz. De modo que, por essa razão também, o filósofo será, mais do que qualquer outro, feliz.