Ética a Nicômaco - Livro X 7

O prazer reexaminado e a felicidade como contemplação: por que a vida contemplativa é a mais elevada

A contemplação é a felicidade perfeita

Se a felicidade é a atividade de acordo com a virtude, faz sentido que ela seja de acordo com a virtude mais alta, e essa será a virtude da melhor parte que existe em nós. Seja a razão, seja outra coisa, esse elemento é o que consideramos nosso guia e governante natural, aquele que pensa as coisas nobres e divinas. Quer ele próprio seja divino, quer seja apenas o mais divino que em nós, a sua atividade de acordo com a virtude que lhe é própria será a felicidade perfeita. dissemos que essa atividade é a contemplação.
Isso parece concordar tanto com o que afirmamos antes quanto com a verdade. Primeiro, essa atividade é a melhor, pois não a razão é a melhor parte que em nós, como também aquilo que a razão conhece é o melhor que se pode conhecer. Segundo, ela é a mais contínua, pois conseguimos contemplar a verdade de modo mais constante do que fazer qualquer outra coisa. Achamos ainda que a felicidade tem prazer misturado a ela, e todos reconhecem que a atividade da sabedoria filosófica é a mais prazerosa entre as atividades virtuosas. De qualquer modo, a busca dessa sabedoria parece oferecer prazeres admiráveis pela pureza e pela duração, e é de esperar que quem sabe passe o tempo de forma mais prazerosa do que quem ainda investiga.
E a autossuficiência de que se fala deve pertencer acima de tudo à atividade contemplativa. O filósofo, assim como o homem justo ou quem possua qualquer outra virtude, precisa do necessário para viver. Mas, mesmo bem providos dessas coisas, o homem justo precisa de pessoas para quem e com quem agir com justiça, e o mesmo vale para o homem temperante, o corajoso e cada um dos demais. o filósofo consegue contemplar a verdade mesmo sozinho, e quanto mais sábio ele é, melhor o faz. Talvez o faça melhor se tiver colegas de trabalho, mas ainda assim ele é o mais autossuficiente. E essa atividade parece ser amada por si mesma, pois dela nada resulta além da própria contemplação, enquanto das atividades práticas obtemos algum ganho para além da ação em si.
Pensa-se também que a felicidade depende do lazer, pois nos ocupamos para depois ter descanso, e fazemos guerra para depois viver em paz. Ora, a atividade das virtudes práticas se mostra nos assuntos da política ou da guerra, e as ações ligadas a isso parecem não deixar lazer. As ações guerreiras não deixam nenhum, pois ninguém escolhe estar em guerra, nem provoca guerra para guerrear. Quem fizesse inimigos dos próprios amigos para causar batalha e matança pareceria um completo assassino. Mas a ação do estadista também não deixa lazer, e além da própria atividade política ela busca o poder e as honras, ou ao menos a felicidade, para ele e para os concidadãos, uma felicidade diferente da ação política e claramente buscada como algo distinto dela.
Portanto, se entre as ações virtuosas as ações políticas e militares se destacam pela nobreza e pela grandeza, e ainda assim não deixam lazer, visam a um fim externo e não são desejáveis por si mesmas, enquanto a atividade da razão, que é a contemplação, parece superior em valor sério, não visa a nenhum fim além de si mesma, tem o prazer que lhe é próprio (e esse prazer aumenta a atividade), e reúne a autossuficiência, o lazer, a ausência de fadiga (até onde isso é possível para o ser humano) e todos os demais traços atribuídos ao homem supremamente feliz, segue-se que essa será a felicidade completa do ser humano, desde que lhe seja concedido um tempo de vida completo, pois nenhum dos traços da felicidade pode ser incompleto.
Mas uma vida assim seria alta demais para o ser humano. Pois ele não viverá desse modo enquanto homem, e sim na medida em que algo divino presente nele. E quanto esse elemento é superior à nossa natureza composta, tanto a sua atividade é superior à atividade da outra espécie de virtude. Se a razão é divina em comparação com o homem, então a vida segundo a razão é divina em comparação com a vida humana. Não devemos seguir os que aconselham que, sendo humanos, pensemos em coisas humanas, e que, sendo mortais, pensemos em coisas mortais. Devemos, na medida do possível, nos tornar imortais e fazer todo esforço para viver de acordo com a melhor parte que em nós. Pois, mesmo que ela seja pequena em volume, em poder e em valor supera de longe tudo o mais.
E essa parte parece ser o próprio ser humano, que é a parte dominante e melhor dele. Seria estranho, então, escolher não a vida do seu verdadeiro eu, mas a de outra coisa. E o que dissemos antes se aplica aqui: aquilo que é próprio de cada coisa é por natureza o melhor e o mais prazeroso para ela. Para o ser humano, portanto, a vida segundo a razão é a melhor e a mais prazerosa, pois a razão é, mais do que qualquer outra coisa, o próprio ser humano. Logo, essa vida é também a mais feliz.