Ética a Nicômaco - Livro X 9

O prazer reexaminado e a felicidade como contemplação: por que a vida contemplativa é a mais elevada

Da ética à política: por que conhecer a virtude não basta, e por que precisamos de leis

Se tratamos de forma suficiente, ao menos em linhas gerais, desses assuntos e das virtudes, e também da amizade e do prazer, devemos supor que nosso plano chegou ao fim? Na verdade, como diz o ditado, onde coisas a fazer, o objetivo não é examinar e reconhecer cada uma delas, mas sim realizá-las. No caso da virtude, então, não basta saber: precisamos tentar tê-la e usá-la, ou tentar qualquer outro caminho que exista para nos tornarmos bons.
Ora, se os argumentos bastassem por si mesmos para tornar bons os homens, eles mereceriam, como diz Teógnis, recompensas muito grandes, e tais recompensas deveriam ter sido oferecidas. Mas na prática, embora pareçam capazes de incentivar e estimular os jovens de espírito nobre, e de deixar um caráter bem formado, que ama de verdade o que é belo e elevado, pronto para ser tomado pela virtude, os argumentos não conseguem levar a maioria das pessoas à nobreza e à bondade.
Pois essas pessoas não obedecem por natureza ao senso de vergonha, e sim apenas ao medo. Elas não se abstêm de atos ruins por achá-los baixos, mas por temer o castigo. Vivendo guiadas pela paixão, perseguem os próprios prazeres e os meios de obtê-los, e fogem das dores correspondentes, e não têm sequer ideia do que é belo e verdadeiramente agradável, que nunca o experimentaram.
Que argumento conseguiria refazer essas pessoas? É difícil, se não impossível, remover por meio de argumentos os traços que muito tempo se incorporaram ao caráter. Talvez devamos nos contentar se, estando presentes todas as influências que costumam nos tornar bons, conseguirmos ao menos uma pequena dose de virtude.
quem pense que nos tornamos bons por natureza, outros que é pelo hábito, outros que é pelo ensino. A parte da natureza, claramente, não depende de nós: ela está presente, por algumas causas divinas, naqueles que são de fato afortunados. o argumento e o ensino, podemos suspeitar, não têm força sobre todos os homens. A alma do aluno precisa antes ter sido cultivada por meio de hábitos, para sentir alegria no que é nobre e aversão ao que é vil, como a terra que vai nutrir a semente.
Pois quem vive conforme a paixão manda não vai ouvir o argumento que o demove, nem o entenderá se o ouvir. E como convencer alguém nesse estado a mudar de vida? De modo geral, a paixão parece ceder não ao argumento, mas à força. O caráter, então, precisa estar ali de algum modo, com uma afinidade pela virtude, amando o que é nobre e odiando o que é vil.
Mas é difícil receber, desde a juventude, uma formação correta para a virtude se a pessoa não foi criada sob boas leis. Pois viver com temperança e resistência não é agradável para a maioria, sobretudo quando são jovens. Por isso a criação e as ocupações deles devem ser fixadas por lei, pois deixam de ser penosas quando se tornam um costume.
Mas com certeza não basta que, quando jovens, recebam a criação e o cuidado certos. que precisam, mesmo depois de adultos, praticar e se habituar a essas coisas, vamos precisar de leis também para isso, e, de modo geral, para cobrir a vida inteira. Pois a maioria das pessoas obedece à necessidade mais do que ao argumento, e ao castigo mais do que ao senso do que é nobre.
É por isso que alguns pensam que os legisladores deveriam estimular os homens à virtude e impulsioná-los pelo apelo ao que é nobre, supondo que aqueles bem encaminhados pela formação de hábitos darão atenção a tais influências. E pensam que castigos e penas devem ser impostos aos que desobedecem e são de natureza inferior, enquanto os incuravelmente maus devem ser totalmente banidos.
Um homem bom, pensam eles, por viver com a mente fixa no que é nobre, vai se submeter ao argumento, enquanto um homem mau, cujo desejo é o prazer, é corrigido pela dor, como um animal de carga. É também por isso que dizem que as dores aplicadas devem ser as mais opostas aos prazeres que esses homens amam.
Seja como for, se (como dissemos) o homem que deve se tornar bom precisa ser bem treinado e habituado, e em seguida passar o tempo em ocupações dignas, e não praticar atos ruins nem de bom grado nem contra a vontade, e se isso pode ser alcançado quando os homens vivem segundo uma espécie de razão e de ordem correta, desde que essa tenha força, sendo assim, a ordem do pai não tem a força exigida nem o poder de obrigar (nem em geral a ordem de um homem só, a menos que seja rei ou algo semelhante). A lei, sim, tem poder de obrigar, e ao mesmo tempo é uma regra que procede de uma espécie de sabedoria prática e de razão.
E embora as pessoas odeiem os homens que se opõem aos seus impulsos, mesmo quando se opõem com razão, a lei, ao determinar o que é bom, não é odiosa.
no Estado espartano, ou quase nele, o legislador parece ter dado atenção às questões da criação e das ocupações. Na maioria dos Estados, esses assuntos foram negligenciados, e cada um vive como quer, ao modo dos ciclopes, ditando a lei à própria mulher e aos próprios filhos.
Ora, o melhor seria que houvesse um cuidado público e adequado com essas coisas. Mas se a comunidade as negligencia, parece justo que cada um ajude os próprios filhos e amigos rumo à virtude, e que tenha o poder de fazê-lo, ou pelo menos a vontade.
Do que foi dito, parece que ele consegue fazer isso melhor se tornar a si mesmo capaz de legislar. Pois o controle público claramente se efetua por leis, e o bom controle, por boas leis. Que sejam escritas ou não escritas parece não fazer diferença, nem que sejam leis voltadas à educação de indivíduos ou de grupos, assim como não faz diferença no caso da música, da ginástica e de outras atividades do tipo.
Pois assim como nas cidades têm força as leis e os tipos de caráter predominantes, nos lares têm força as ordens e os hábitos do pai, e estes têm força ainda maior por causa do laço de sangue e dos benefícios que ele concede, pois os filhos começam com um afeto natural e uma disposição a obedecer.
Além disso, a educação privada tem uma vantagem sobre a pública, como tem o tratamento médico particular. Pois embora, em geral, o repouso e a abstinência de comida sejam bons para quem está com febre, para um doente específico podem não ser. E um treinador de boxe certamente não prescreve o mesmo estilo de luta a todos os seus alunos. Parece, então, que o detalhe é trabalhado com mais precisão quando o controle é particular, pois cada um tem mais chance de receber o que serve ao seu caso.
Mas os detalhes podem ser mais bem cuidados, um por um, por um médico, um instrutor de ginástica ou qualquer outro que tenha o conhecimento geral do que é bom para todos ou para pessoas de um certo tipo (pois as ciências, dizem, tratam, e de fato tratam, daquilo que é universal). Não que algum detalhe específico não possa, talvez, ser bem cuidado por alguém sem formação técnica, se ele estudou com exatidão, à luz da experiência, o que acontece em cada caso, assim como pessoas que parecem ser os melhores médicos de si mesmas, embora não pudessem ajudar mais ninguém.
Mesmo assim, talvez se concorde que, se um homem deseja de fato dominar uma arte ou ciência, ele precisa ir ao universal e conhecê-lo o melhor possível, pois, como dissemos, é com isso que as ciências se ocupam.
E sem dúvida quem quer tornar os homens, sejam muitos ou poucos, melhores pelo seu cuidado precisa tentar se tornar capaz de legislar, se é por meio das leis que podemos nos tornar bons. Pois colocar uma pessoa qualquer, qualquer uma que nos seja apresentada, na condição correta não é tarefa para o primeiro que aparece. Se alguém consegue fazê-lo, é o homem que sabe, tal como na medicina e em todos os outros assuntos que dão espaço ao cuidado e à prudência.
Não devemos, então, examinar a seguir de onde ou como se pode aprender a legislar? Seria, como em todos os outros casos, com os estadistas? Sem dúvida isso era tido como parte da arte de governar. Ou existe uma diferença evidente entre a arte de governar e as outras ciências e artes?
Nas outras, as mesmas pessoas que se oferecem para ensinar as artes também as praticam, por exemplo os médicos ou os pintores. Mas, embora os sofistas afirmem que ensinam a política, ela não é praticada por nenhum deles, e sim pelos políticos, que parecem fazê-lo por uma certa habilidade e experiência mais do que por reflexão. Pois não se esses políticos escrevendo ou falando sobre tais assuntos (ainda que talvez fosse uma ocupação mais nobre do que compor discursos para os tribunais e a assembleia), nem se que tenham feito estadistas dos próprios filhos ou de algum outro amigo.
E seria de esperar que o fizessem, se pudessem, pois não nada melhor do que essa habilidade que pudessem deixar às suas cidades, ou preferir ter para si mesmos, ou, portanto, para os que lhes são mais caros. Ainda assim, a experiência parece contribuir não pouco, senão eles não teriam se tornado políticos pela familiaridade com a política. Assim, parece que quem visa conhecer a arte da política precisa também de experiência.
Mas os sofistas que professam essa arte parecem estar muito longe de ensiná-la. Pois, dito de modo geral, eles nem sequer sabem que tipo de coisa ela é nem sobre que tipo de coisas trata. Senão não a teriam classificado como idêntica à retórica, ou até inferior a ela, nem teriam achado fácil legislar reunindo as leis que gozam de boa fama. Dizem que é possível selecionar as melhores leis, como se a própria seleção não exigisse inteligência e como se o juízo correto não fosse a maior das coisas, tal como nas questões de música.
Pois enquanto as pessoas experientes em qualquer campo julgam corretamente as obras nele produzidas, e entendem por que meios ou de que modo foram realizadas, e o que combina com o quê, os inexperientes devem se contentar se não deixarem de perceber se a obra foi bem ou mal feita, como acontece no caso da pintura.
Ora, as leis são, por assim dizer, as obras da arte política. Como, então, alguém poderia aprender com elas a ser legislador, ou julgar quais são as melhores? Nem mesmo os médicos parecem se formar pelo estudo de manuais. No entanto, as pessoas ao menos tentam expor não os tratamentos, mas também como classes específicas de pessoas podem ser curadas e devem ser tratadas, distinguindo os vários tipos de constituição física. Mas, embora isso pareça útil aos experientes, para os inexperientes não tem valor.
Sendo assim, embora as coletâneas de leis, e também de constituições, possam ser úteis aos que sabem estudá-las e julgar o que é bom ou ruim e que normas servem a que circunstâncias, aqueles que percorrem tais coletâneas sem uma capacidade treinada não terão o juízo correto (a não ser como dom espontâneo da natureza), ainda que talvez se tornem mais inteligentes nesses assuntos.
Ora, nossos antecessores deixaram para nós o tema da legislação sem ter sido examinado. Talvez seja melhor, então, que nós mesmos o estudemos, e que estudemos de modo geral a questão da constituição, a fim de completar, na medida do possível, nossa filosofia da natureza humana.
Primeiro, então, se algo de bom foi dito em detalhe pelos pensadores anteriores, tentemos revê-lo. Depois, à luz das constituições que reunimos, estudemos que tipos de influência preservam e destroem os Estados, e que tipos preservam ou destroem cada espécie de constituição, e a que causas se deve o fato de uns serem bem administrados e outros mal administrados.
Quando essas coisas tiverem sido estudadas, talvez tenhamos mais chance de enxergar, com uma visão abrangente, qual constituição é a melhor, como cada uma deve ser ordenada, e que leis e costumes deve adotar para ficar no seu melhor. Comecemos, pois, nossa discussão.