Ética a Nicômaco - Livro X 6

O prazer reexaminado e a felicidade como contemplação: por que a vida contemplativa é a mais elevada

A felicidade é atividade, não divertimento

falamos das virtudes, das formas de amizade e dos tipos de prazer. O que falta é discutir, em linhas gerais, o que é a felicidade, que afirmamos ser ela o fim da natureza humana. A discussão será mais breve se primeiro resumirmos o que dissemos.
Dissemos, então, que a felicidade não é uma simples disposição de caráter. Se fosse, poderia pertencer a alguém que passasse a vida inteira dormindo, vivendo como uma planta, ou a alguém que sofresse as maiores desgraças.
Se essas consequências são inaceitáveis, e devemos antes classificar a felicidade como uma atividade, como dissemos, e se algumas atividades são necessárias e desejáveis por causa de outra coisa, enquanto outras são desejáveis em si mesmas, então é evidente que a felicidade deve estar entre as desejáveis em si mesmas, não entre as desejáveis por causa de outra coisa. Pois à felicidade não falta nada: ela é autossuficiente.
Ora, são desejáveis em si mesmas aquelas atividades das quais nada se busca além da própria atividade. E é assim que se considera serem as ações virtuosas, pois praticar atos nobres e bons é algo desejável por si mesmo.
Os divertimentos prazerosos também são tidos como desse tipo, pois os escolhemos não em vista de outras coisas. Na verdade, eles nos prejudicam mais do que nos beneficiam, que nos levam a descuidar do corpo e dos bens.
Mas a maioria das pessoas consideradas felizes se refugia nesses passatempos. Por isso, os que têm graça e esperteza nesses divertimentos são muito estimados nas cortes dos tiranos: eles se tornam companhias agradáveis nas distrações preferidas dos tiranos, e é desse tipo de homem que eles gostam.
Pensa-se que essas coisas têm a ver com a felicidade porque os que estão no poder absoluto passam nelas seu tempo de lazer. Mas talvez essas pessoas não provem nada, pois a virtude e a razão, das quais brotam as boas atividades, não dependem de se ocupar uma posição de poder. E se essas pessoas, que nunca provaram o prazer puro e nobre, se refugiam nos prazeres do corpo, isso não é razão para considerar tais prazeres mais desejáveis. Afinal, também as crianças acham que o que elas mesmas valorizam é o melhor.
É de se esperar, então, que assim como coisas diferentes parecem valiosas para as crianças e para os adultos, também pareçam diferentes para os maus e para os bons. Ora, como temos afirmado muitas vezes, valiosas e prazerosas são aquelas coisas que assim o são para o homem bom. E para cada pessoa, a atividade que está de acordo com a sua própria disposição de caráter é a mais desejável. Portanto, para o homem bom, a mais desejável é a que está de acordo com a virtude.
A felicidade, portanto, não está no divertimento. Seria mesmo estranho que o fim fosse o divertimento, e que alguém se esforçasse e sofresse a vida inteira para se divertir. Pois, em uma palavra, tudo o que escolhemos, escolhemos por causa de outra coisa, exceto a felicidade, que é um fim em si.
Esforçar-se e trabalhar em vista do divertimento parece tolo e completamente infantil. Mas divertir-se para depois poder se esforçar, como diz Anacársis, parece certo, pois o divertimento é uma espécie de relaxamento, e precisamos de relaxamento porque não conseguimos trabalhar sem parar. O relaxamento, então, não é um fim, pois o buscamos em vista da atividade.
Considera-se que a vida feliz é virtuosa. Ora, uma vida virtuosa exige esforço e não consiste em divertimento. E dizemos que as coisas sérias são melhores do que as risíveis e ligadas ao divertimento, e que a atividade da melhor de duas coisas (sejam dois elementos do nosso ser, sejam dois homens) é a mais séria. Mas a atividade do que é melhor é, por isso mesmo, superior e tem mais a ver com a felicidade.
E qualquer pessoa, mesmo um escravo, pode gozar os prazeres do corpo tanto quanto o melhor dos homens. Mas ninguém atribui a um escravo uma parcela de felicidade, a não ser que lhe atribua também uma parcela de vida humana plena. Pois a felicidade não está nesses passatempos, mas, como dissemos, nas atividades virtuosas.