Ética a Nicômaco - Livro X 3

O prazer reexaminado e a felicidade como contemplação: por que a vida contemplativa é a mais elevada

Refutando os argumentos de que o prazer não é um bem

Por outro lado, mesmo que o prazer não seja uma qualidade, não se segue daí que ele não seja um bem, pois as atividades da virtude também não são qualidades, e a felicidade tampouco é.
Eles dizem, no entanto, que o bem é algo determinado, enquanto o prazer é indeterminado, porque admite graus. Mas se eles julgam assim a partir da sensação de prazer, o mesmo valeria para a justiça e as demais virtudes, sobre as quais dizemos claramente que as pessoas de certo caráter as têm em maior ou menor grau e agem de acordo com elas em maior ou menor grau. Afinal, as pessoas podem ser mais ou menos justas ou corajosas, e também é possível agir com mais ou menos justiça ou temperança.
Mas se o juízo deles se baseia nos vários tipos de prazer, com certeza eles não estão apontando a causa verdadeira, que de fato alguns prazeres são puros e outros são misturados.
Além disso, assim como a saúde admite graus sem por isso ser indeterminada, por que o prazer não poderia? A mesma proporção não se encontra em todas as coisas, nem uma única proporção se mantém sempre na mesma coisa, mas ela pode afrouxar e ainda assim persistir até certo ponto, e pode variar em grau. O caso do prazer pode então ser desse tipo.
Além disso, eles supõem que o bem é completo, enquanto os movimentos e os processos de vir a ser são incompletos, e tentam mostrar que o prazer é um movimento e um processo de vir a ser. Mas eles parecem estar errados ao dizer que ele é um movimento.
Pois pensa-se que rapidez e lentidão são próprias de todo movimento, e se um movimento, como o dos céus, não tem rapidez ou lentidão em si mesmo, ele a tem em relação a outra coisa. Mas nenhuma das duas coisas se aplica ao prazer. Pois embora possamos ficar contentes depressa, assim como podemos ficar irritados depressa, não podemos sentir prazer depressa, nem mesmo em relação a outra pessoa, ao passo que podemos andar, ou crescer, ou coisas assim, depressa. Então, embora possamos passar depressa ou devagar para um estado de prazer, não podemos exercer depressa a atividade do prazer, isto é, sentir prazer.
Além disso, como o prazer poderia ser um processo de vir a ser? Não se pensa que qualquer coisa possa surgir de qualquer coisa, mas que cada coisa se dissolve naquilo de que ela surge. E a dor seria a destruição daquilo de que o prazer é o surgimento.
Eles dizem também que a dor é a falta daquilo que está de acordo com a natureza, e que o prazer é a reposição dessa falta. Mas essas experiências são corporais. Se então o prazer é a reposição daquilo que está de acordo com a natureza, quem sente prazer seria aquilo em que a reposição acontece, ou seja, o corpo. Mas não se pensa que seja assim. Portanto, a reposição não é o prazer, ainda que a pessoa sinta prazer enquanto a reposição acontece, assim como sentiria dor se estivesse sendo operada.
Essa opinião parece se basear nas dores e nos prazeres ligados à alimentação, no fato de que, quando as pessoas ficam sem comida e sentem dor antes, elas têm prazer com a reposição. Mas isso não acontece com todos os prazeres. Pois os prazeres de aprender e, entre os prazeres dos sentidos, os do olfato, além de muitos sons e imagens, e ainda as lembranças e as esperanças, não pressupõem nenhuma dor anterior. De que então esses prazeres seriam o surgimento? Não houve falta de nada que eles pudessem estar repondo.
Aos que apresentam os prazeres vergonhosos, pode-se responder que esses prazeres não são de fato agradáveis. Se certas coisas são agradáveis para pessoas de caráter corrompido, não devemos supor que sejam agradáveis também para as outras pessoas, assim como não raciocinamos desse modo sobre o que é saudável, doce ou amargo para os doentes, nem atribuímos brancura às coisas que parecem brancas a quem sofre de uma doença nos olhos.
Ou se poderia responder assim: os prazeres são desejáveis, mas não vindos dessas fontes, do mesmo modo que a riqueza é desejável, mas não como recompensa de uma traição, e a saúde é desejável, mas não ao custo de comer qualquer coisa. Ou talvez os prazeres sejam diferentes em espécie. Pois os que vêm de fontes nobres são diferentes dos que vêm de fontes baixas, e ninguém pode ter o prazer do homem justo sem ser justo, nem o do homem musical sem ser musical, e assim por diante.
O fato, também, de que um amigo é diferente de um bajulador parece deixar claro que o prazer não é o bem, ou que os prazeres diferem em espécie. Pois pensa-se que um convive conosco visando o nosso bem, e o outro visando o nosso prazer, e um é censurado pela sua conduta, enquanto o outro é elogiado, porque cada um convive conosco com fins diferentes.
E ninguém escolheria viver a vida inteira com a inteligência de uma criança, por mais que se agradasse com as coisas que agradam às crianças, nem obter prazer praticando algum ato dos mais vergonhosos, ainda que jamais sentisse dor alguma por causa disso.
E muitas coisas que buscaríamos com afinco mesmo que não trouxessem prazer nenhum, como ver, lembrar, conhecer, ter as virtudes. Se o prazer necessariamente acompanha essas coisas, isso não faz diferença: nós as escolheríamos ainda que delas não resultasse prazer algum.
Parece claro, então, que o prazer não é o bem, nem todo prazer é desejável, e que alguns prazeres são desejáveis em si mesmos, diferindo dos outros em espécie ou na sua origem. Isso é o suficiente sobre o que se diz a respeito do prazer e da dor.