Ética a Nicômaco - Livro X 2

O prazer reexaminado e a felicidade como contemplação: por que a vida contemplativa é a mais elevada

Os argumentos de Eudoxo de que o prazer é o bem, e sua crítica

Eudoxo achava que o prazer era o bem porque observava todas as coisas, racionais e irracionais, buscarem o prazer, e porque em tudo aquilo que escolhemos é o que tem mais valor, e o que é mais escolhido é o maior bem. Assim, o fato de todas as coisas se moverem na direção do mesmo objeto indicava que esse era o bem supremo para todas elas (pois cada coisa, dizia ele, encontra o seu próprio bem, assim como encontra o seu próprio alimento). E o que é bom para todas as coisas, e ao qual todas elas miram, era o bem.
Os argumentos de Eudoxo eram aceitos mais pela excelência do seu caráter do que por si mesmos. Tinham-no por alguém notavelmente comedido, e por isso se pensava que ele não defendia o que defendia por gostar do prazer, mas porque os fatos eram mesmo assim.
Ele acreditava que a mesma conclusão se seguia com igual clareza ao se examinar o contrário do prazer. A dor, em si mesma, era algo que todas as coisas evitam, e portanto o seu contrário deve ser, do mesmo modo, algo que se escolhe.
Além disso, é objeto da maior escolha aquilo que escolhemos não por causa de outra coisa nem com vistas a outra coisa, e o prazer, reconhecidamente, é desse tipo. Ninguém pergunta com que finalidade sente prazer, o que a entender que o prazer é, em si mesmo, algo que se escolhe.
Eudoxo argumentava ainda que o prazer, quando somado a qualquer bem (por exemplo, a uma ação justa ou comedida), torna esse bem mais digno de escolha, e que por si mesmo é que o bem pode ser aumentado.
Esse argumento parece mostrar que o prazer é um dos bens, e não mais um bem do que qualquer outro, pois todo bem é mais digno de escolha junto com outro bem do que sozinho.
É justamente com um argumento desse tipo que Platão prova que o bem não é o prazer. Ele sustenta que a vida prazerosa é mais desejável com sabedoria do que sem ela, e que, se a mistura é melhor, então o prazer não é o bem, pois o bem não pode ficar mais desejável com o acréscimo de coisa alguma.
Ora, fica claro que nada mais, tanto quanto o prazer, pode ser o bem se fica mais desejável ao se acrescentar a ele qualquer das coisas que são boas em si mesmas. O que existe, então, que atenda a esse critério e do qual, ao mesmo tempo, possamos participar? É algo desse tipo que estamos procurando.
Aqueles que objetam dizendo que aquilo a que todas as coisas miram não é necessariamente bom estão, podemos supor, falando bobagem. Pois dizemos que aquilo que todos pensam é realmente assim, e quem ataca essa crença dificilmente terá algo mais digno de crédito para sustentar em seu lugar.
Se fossem criaturas sem juízo a desejar as coisas em questão, poderia haver algo no que eles dizem. Mas se criaturas inteligentes também as desejam, que sentido pode ter essa objeção? E talvez mesmo nas criaturas inferiores haja algum bem natural, mais forte do que elas próprias, que mira o bem que lhes é próprio.
O argumento sobre o contrário do prazer também não parece correto. Dizem que, se a dor é um mal, não se segue que o prazer seja um bem, pois um mal se opõe a outro mal, e ao mesmo tempo ambos se opõem ao estado neutro. Isso é bastante correto, mas não se aplica ao caso em questão.
Pois, se o prazer e a dor pertencessem ambos à classe dos males, deveriam ambos ser evitados. E se pertencessem à classe das coisas neutras, nenhum dos dois deveria ser evitado, ou então ambos deveriam ser evitados por igual. Mas, na verdade, as pessoas claramente evitam um deles como um mal e escolhem o outro como um bem. Essa, então, deve ser a natureza da oposição entre eles.