Ética a Nicômaco - Livro VIII 7

A amizade: seus três tipos (por utilidade, por prazer e por virtude) e seu lugar na vida boa

A amizade entre desiguais e a proporção no afeto

Existe um outro tipo de amizade, aquela em que desigualdade entre as partes. É o caso do pai em relação ao filho e, de modo geral, do mais velho em relação ao mais novo, do homem em relação à esposa e, em geral, de quem governa em relação a quem é governado. Essas amizades também diferem entre si, pois a que existe entre pais e filhos não é a mesma que existe entre governantes e governados, nem a do pai pelo filho é igual à do filho pelo pai, nem a do marido pela esposa é igual à da esposa pelo marido. Para cada um deles a virtude e a função própria são diferentes, e diferentes são também as razões pelas quais amam, de modo que o afeto e a amizade também são diferentes. Cada parte, então, não recebe o mesmo da outra, nem deve buscar isso. Mas quando os filhos dão aos pais o que devem dar a quem os trouxe ao mundo, e os pais dão aos filhos o que lhes devem, a amizade dessas pessoas será duradoura e excelente. Em toda amizade que envolve desigualdade, o afeto também deve ser proporcional, ou seja, o melhor deve ser mais amado do que ama, e o mesmo vale para quem é mais útil, e assim por diante em cada caso. Quando o afeto é proporcional ao mérito de cada parte, surge num certo sentido uma igualdade, e a igualdade é justamente tida como característica da amizade.
Mas a igualdade não parece tomar a mesma forma nos atos de justiça e na amizade. Nos atos de justiça, o que é igual em sentido primário é aquilo que está em proporção ao mérito, e a igualdade quantitativa é secundária. na amizade, a igualdade quantitativa é primária e a proporção ao mérito é secundária. Isso fica claro quando um grande intervalo entre as partes em virtude, em vício, em riqueza ou em qualquer outra coisa. Nesse caso elas não são amigas, e nem sequer esperam sê-lo. Isso é mais evidente no caso dos deuses, que nos superam de modo decisivo em todas as coisas boas. Mas é claro também no caso dos reis, pois homens muito inferiores a eles não esperam ser seus amigos, nem pessoas sem nenhuma importância esperam ser amigas dos melhores ou mais sábios. Nesses casos não é possível definir com exatidão até que ponto os amigos podem continuar amigos. Muita coisa pode ser tirada e a amizade permanece, mas quando uma das partes se afasta a uma grande distância, como acontece com Deus, a possibilidade da amizade cessa. É daí que vem, na verdade, a pergunta sobre se os amigos realmente desejam para seus amigos os maiores bens, por exemplo, que se tornem deuses. Pois nesse caso seus amigos não seriam amigos deles, e portanto não seriam bens para eles, que os amigos são bens.
A resposta é que, se estávamos certos ao dizer que o amigo deseja o bem ao amigo por causa do próprio amigo, então o amigo deve continuar sendo o tipo de ser que é, seja ele qual for. Por isso é enquanto ele continuar sendo humano que se desejará para ele os maiores bens. Mas talvez não todos os maiores bens, pois é para si mesmo, acima de tudo, que cada pessoa deseja aquilo que é bom.