Ética a Nicômaco - Livro VIII 5
A amizade: seus três tipos (por utilidade, por prazer e por virtude) e seu lugar na vida boa
A amizade como atividade, e a amizade dos bons
Assim como, no caso das virtudes, alguns homens são chamados de bons por causa de uma disposição de caráter e outros por causa de uma atividade, o mesmo vale para a amizade. Os que convivem se alegram um com o outro e trocam benefícios, mas os que estão dormindo ou separados pela distância não estão exercendo as atividades da amizade, embora estejam prontos para exercê-las. A distância não rompe a amizade por completo, só interrompe o seu exercício.
Mas se a ausência se prolonga, ela parece de fato fazer as pessoas esquecerem a amizade. Daí o ditado: o que os olhos não veem o coração não sente.
Nem os velhos nem as pessoas amargas fazem amizades com facilidade, porque há pouco de agradável neles, e ninguém aguenta passar os dias com quem é uma companhia penosa, ou pouco agradável, já que a natureza parece acima de tudo evitar o que é penoso e buscar o que é agradável.
Os que se aprovam um ao outro mas não convivem parecem mais bem-dispostos do que amigos de verdade. Pois nada é tão próprio dos amigos quanto conviver (porque, embora sejam os que têm carência que desejam benefícios, mesmo os que são plenamente felizes desejam passar os dias juntos, já que a solidão é o que menos combina com essas pessoas). Mas as pessoas não conseguem conviver se não são agradáveis e não gostam das mesmas coisas, como parecem fazer os amigos que são companheiros.
A amizade mais verdadeira, então, é a dos bons, como já dissemos muitas vezes. Pois aquilo que é bom ou agradável sem restrição parece digno de ser amado e desejado, e, para cada pessoa, aquilo que é bom ou agradável para ela. E o homem bom é digno de ser amado e desejado pelo homem bom por essas duas razões.
Ora, parece que amar é um sentimento, mas a amizade é uma disposição de caráter. Pois o amor pode ser sentido até por coisas sem vida, mas o amor recíproco envolve escolha, e a escolha nasce de uma disposição de caráter. E os homens desejam o bem àqueles que amam, em favor deles, não por efeito de um sentimento, mas por efeito de uma disposição de caráter.
E, ao amar um amigo, os homens amam o que é bom para si mesmos, pois o homem bom, ao se tornar amigo, torna-se um bem para o amigo. Cada um, então, ama o que é bom para si mesmo e retribui em igual medida com boa vontade e com agrado, pois se diz que a amizade é igualdade, e essas duas coisas se encontram sobretudo na amizade dos bons.