Ética a Nicômaco - Livro VIII 12
A amizade: seus três tipos (por utilidade, por prazer e por virtude) e seu lugar na vida boa
A amizade entre parentes e entre marido e mulher
Toda forma de amizade, então, envolve convivência, como já foi dito.
Mas podemos separar das demais a amizade entre parentes e a amizade entre companheiros. As amizades entre concidadãos, entre membros de uma mesma tribo, entre companheiros de viagem e coisas parecidas se aproximam mais de simples amizades de convivência, porque parecem se apoiar numa espécie de acordo. Junto com elas podemos classificar a amizade entre quem hospeda e quem é hospedado.
A própria amizade entre parentes, embora pareça ter muitas formas, sempre parece depender da amizade entre pais e filhos. Pois os pais amam os filhos como uma parte de si mesmos, e os filhos amam os pais como algo que se originou deles.
Os pais conhecem melhor que os filhos são seus do que os filhos conhecem que são filhos daqueles pais. E quem gera sente o que gerou como sendo seu mais do que o gerado sente quem o gerou. Pois o produto pertence a quem o produziu (por exemplo, um dente, um fio de cabelo ou qualquer outra coisa pertence à pessoa de quem é), mas quem produz não pertence ao produto, ou pertence em grau menor.
O tempo decorrido produz o mesmo efeito. Os pais amam os filhos assim que eles nascem, mas os filhos só amam os pais depois que algum tempo passou e eles adquiriram entendimento ou a capacidade de perceber as coisas pelos sentidos. Por essas considerações também fica claro por que as mães amam mais do que os pais.
Os pais, então, amam os filhos como a si mesmos (pois aquilo que geraram, por existir separadamente, é como um outro eu deles), enquanto os filhos amam os pais por terem nascido deles, e os irmãos amam uns aos outros por terem nascido dos mesmos pais. A identidade de cada um com os pais os torna idênticos entre si (e é por isso que as pessoas falam em 'mesmo sangue', 'mesma linhagem' e coisas assim). São, portanto, em certo sentido, a mesma coisa, embora em indivíduos separados.
Duas coisas contribuem muito para a amizade: a criação em comum e a proximidade de idade. Pois 'dois da mesma idade se atraem', e pessoas criadas juntas tendem a se tornar companheiros. Por isso a amizade entre irmãos se parece com a amizade entre companheiros.
E os primos e outros parentes estão ligados por descenderem dos irmãos, ou seja, por virem dos mesmos antepassados. Ficam mais próximos ou mais distantes conforme o ancestral comum esteja perto ou longe.
A amizade dos filhos pelos pais, e a dos homens pelos deuses, é uma relação com algo bom e superior. Pois eles concederam os maiores benefícios, já que são a causa da existência, do sustento e da educação desde o nascimento. E esse tipo de amizade tem também mais prazer e utilidade do que a amizade entre estranhos, na medida em que a vida é mais compartilhada.
A amizade entre irmãos tem as mesmas características da amizade entre companheiros (especialmente quando são bons), e em geral aparece entre pessoas que são parecidas entre si. Pois eles pertencem mais uns aos outros e já começam a se amar desde o nascimento, e os que nasceram dos mesmos pais, foram criados juntos e educados de modo parecido se assemelham mais no caráter. Além disso, neles a prova do tempo foi aplicada do modo mais completo e convincente.
Entre os demais parentes encontram-se relações de amizade na devida proporção. Entre marido e mulher a amizade parece existir por natureza, pois o ser humano é por natureza inclinado a formar casais, ainda mais do que a formar cidades, já que a família é anterior e mais necessária do que a cidade, e a reprodução é algo que o ser humano tem em comum com os animais.
Nos demais animais a união se estende só até esse ponto, mas os seres humanos vivem juntos não só para se reproduzir, mas também para os vários fins da vida. Pois desde o começo as funções são divididas, e as do homem e as da mulher são diferentes. Assim eles se ajudam um ao outro, cada um trazendo suas qualidades próprias para o que é comum.
É por essas razões que tanto a utilidade quanto o prazer parecem estar presentes nesse tipo de amizade. Mas essa amizade também pode se basear na virtude, se as partes forem boas, pois cada uma tem a sua própria virtude e ambas terão alegria nisso.
E os filhos parecem ser um laço de união (e é por isso que casais sem filhos se separam com mais facilidade), pois os filhos são um bem comum aos dois, e o que é comum os mantém unidos.
Como marido e mulher, e em geral como um amigo e outro, devem se comportar entre si parece ser a mesma questão de como é justo que se comportem. Pois um homem não parece ter os mesmos deveres para com um amigo, um estranho, um companheiro e um colega de escola.