Ética a Nicômaco - Livro VIII 11

A amizade: seus três tipos (por utilidade, por prazer e por virtude) e seu lugar na vida boa

A amizade dentro da família e nas formas de governo

Cada uma das formas de governo envolve amizade na mesma medida em que envolve justiça.
A amizade entre um rei e seus súditos se baseia no excesso de benefícios que ele concede. Sendo um homem bom, ele cuida dos súditos visando o bem-estar deles, como um pastor cuida de suas ovelhas (foi por isso que Homero chamou Agamenon de 'pastor dos povos').
Assim também é a amizade de um pai, embora esta supere a do rei pela grandeza dos benefícios concedidos. Afinal, o pai é responsável pela existência dos filhos, o que se considera o maior bem, e também pela criação e educação deles. Esses mesmos benefícios são atribuídos aos antepassados.
Além disso, por natureza o pai tende a governar os filhos, os antepassados os descendentes, e o rei os súditos. Essas amizades supõem a superioridade de uma das partes sobre a outra, e é por isso que os antepassados são honrados.
Logo, a justiça que existe entre pessoas ligadas dessa forma não é a mesma dos dois lados, mas em cada caso é proporcional ao mérito. O mesmo vale para a amizade.
A amizade entre marido e mulher, por sua vez, é igual à que se encontra numa aristocracia. Pois, conforme a virtude, o melhor recebe mais do que é bom, e cada um recebe o que lhe convém. O mesmo se com a justiça nessas relações.
A amizade entre irmãos se parece com a dos companheiros, pois eles são iguais e da mesma idade, e pessoas assim em geral se assemelham nos sentimentos e no caráter.
Parecida com esta também é a amizade própria do governo timocrático. Pois numa forma de governo assim o ideal é que os cidadãos sejam iguais e justos, e por isso o poder é exercido por turnos, em condições de igualdade. A amizade adequada a esse caso corresponde a isso.
Mas nas formas desviadas de governo, assim como a justiça quase não existe, também a amizade quase não existe. Ela existe menos na pior forma de todas: na tirania pouca ou nenhuma amizade.
Pois onde nada é comum entre quem governa e quem é governado, também não amizade, que não justiça. É o caso, por exemplo, da relação entre o artesão e a ferramenta, entre a alma e o corpo, entre o senhor e o escravo. Em cada caso, a parte usada se beneficia de quem a usa, mas não amizade nem justiça em relação a coisas sem vida.
Também não amizade em relação a um cavalo ou a um boi, nem em relação a um escravo enquanto escravo. Pois nada é comum entre as duas partes: o escravo é uma ferramenta viva, e a ferramenta, um escravo sem vida.
Portanto, enquanto escravo, não se pode ser amigo dele. Mas enquanto homem, sim. Pois parece haver alguma justiça entre qualquer homem e qualquer outro capaz de participar de um sistema de leis ou de firmar um acordo. Por isso pode haver amizade com ele, na medida em que ele é um homem.
Logo, enquanto nas tiranias a amizade e a justiça quase não existem, nas democracias elas existem de modo mais pleno, pois, onde os cidadãos são iguais, eles têm muito em comum.