Ética a Nicômaco - Livro VIII 10

A amizade: seus três tipos (por utilidade, por prazer e por virtude) e seu lugar na vida boa

As três formas de governo, suas corrupções e seus paralelos na família

Existem três tipos de forma de governo e um número igual de formas desviadas, que são como deformações delas. As formas de governo são a monarquia, a aristocracia e, em terceiro lugar, aquela que se baseia em um critério de riqueza, que parece adequado chamar de timocracia, embora a maioria das pessoas costume chamá-la de governo constitucional.
A melhor dessas formas é a monarquia, e a pior é a timocracia. O desvio da monarquia é a tirania, pois ambas são formas de governo de um homem, mas entre elas a maior diferença possível: o tirano busca a própria vantagem, enquanto o rei busca a dos seus súditos.
Pois um homem é rei se basta a si mesmo e supera os seus súditos em todas as coisas boas. Um homem assim não precisa de mais nada, e por isso não vai cuidar dos próprios interesses, mas dos interesses dos seus súditos. Um rei que não fosse assim seria apenas um rei de nome.
A tirania é exatamente o contrário disso, pois o tirano persegue o próprio bem. E fica mais claro no caso da tirania que ela é a pior das formas desviadas, e o que é contrário ao melhor é o pior de todos.
A monarquia se converte em tirania, pois a tirania é a forma do governo de um homem, e o rei mau se torna um tirano.
A aristocracia se converte em oligarquia pela maldade dos governantes, que distribuem contra a equidade o que pertence à cidade, ficando para si com todas ou quase todas as coisas boas, dando os cargos sempre às mesmas pessoas e prestando atenção máxima à riqueza. Assim os governantes passam a ser poucos e a ser homens maus, no lugar dos mais dignos.
A timocracia se converte em democracia, pois as duas têm fronteiras próximas: o ideal mesmo da timocracia é ser o governo da maioria, e todos os que cumprem o critério de riqueza contam como iguais. A democracia é a menos das formas desviadas, pois nela a forma de governo se desvia apenas um pouco.
Essas são, então, as mudanças a que as formas de governo estão mais sujeitas, pois são as transições menores e mais fáceis.
É possível encontrar semelhanças com as formas de governo e até modelos delas dentro das próprias famílias. A relação de um pai com os filhos tem a forma da monarquia, que o pai cuida das crianças. É por isso que Homero chama Zeus de pai, pois o ideal da monarquia é ser um governo paterno.
Mas entre os persas o governo do pai é tirânico: eles usam os filhos como escravos. Também é tirânico o governo de um senhor sobre os escravos, pois nele se realiza a vantagem do senhor. Esse parece ser um tipo correto de governo, mas o modelo persa é deturpado, pois os modos de governo adequados a relações diferentes são diversos.
A relação entre marido e mulher parece ser aristocrática, pois o homem governa de acordo com o seu valor, e nos assuntos em que cabe a um homem governar, mas entrega à mulher os assuntos próprios dela. Se o homem governa em tudo, a relação se converte em oligarquia, pois ao agir assim ele não age de acordo com o valor de cada um, e não governa em virtude de uma superioridade.
Às vezes, no entanto, são as mulheres que governam, por serem herdeiras. Nesse caso o governo delas não se em virtude da excelência, mas por causa da riqueza e do poder, como acontece nas oligarquias.
A relação entre irmãos é parecida com a timocracia, pois eles são iguais, a não ser na medida em que diferem na idade. Por isso, se diferem muito na idade, a amizade não é do tipo fraterno.
A democracia se encontra principalmente nas casas sem um senhor (pois ali todos estão em de igualdade) e naquelas em que quem deveria governar é fraco e cada um tem licença para fazer o que quiser.