Ética a Nicômaco - Livro VII 13

Continência e incontinência (akrasia): por que se conhece o certo e mesmo assim se age errado, e a natureza do prazer

O prazer como um bem e seu lugar na felicidade

Além disso, todos concordam que a dor é algo ruim e que deve ser evitado. Parte da dor é ruim sem nenhuma ressalva, e outra parte é ruim porque de algum modo nos atrapalha.
Ora, o contrário daquilo que deve ser evitado, enquanto algo a evitar e ruim, é um bem. Logo, o prazer é necessariamente um bem.
A resposta de Espeusipo não funciona. Ele dizia que o prazer é contrário tanto à dor quanto ao bem, do mesmo modo que o maior é contrário tanto ao menor quanto ao igual. Mas ele próprio não afirmaria que o prazer é, por essência, apenas uma espécie de mal.
E, se alguns prazeres são ruins, isso não impede que o bem supremo seja algum tipo de prazer, assim como o bem supremo pode ser alguma forma de conhecimento, ainda que certos tipos de conhecimento sejam ruins.
Talvez seja até necessário o seguinte: se cada disposição de caráter tem atividades que não são impedidas, e se a felicidade é a atividade (quando não impedida) de todas as nossas disposições, ou de alguma delas, então essa atividade deve ser a mais digna de ser escolhida. E essa atividade é prazer.
Assim, o bem supremo seria algum tipo de prazer, ainda que a maioria dos prazeres talvez seja ruim sem ressalva.
E é por isso que todas as pessoas pensam que a vida feliz é prazerosa e incluem o prazer na sua ideia de felicidade. E com razão, pois nenhuma atividade é completa quando é impedida, e a felicidade é algo completo. É por isso que a pessoa feliz precisa dos bens do corpo e dos bens externos, ou seja, dos bens que vêm da sorte: para não ser impedida nessas frentes.
Quem diz que a vítima na tortura, ou quem cai em grandes desgraças, é feliz contanto que seja bom, está falando algo sem sentido, mesmo sem querer.
E como precisamos da sorte além de outras coisas, algumas pessoas pensam que a boa sorte é a mesma coisa que a felicidade. Mas não é, pois até a própria boa sorte, quando em excesso, vira um estorvo, e talvez então nem devesse mais ser chamada de boa sorte. O limite dela é fixado em referência à felicidade.
E, de fato, o ato de todos os seres, animais e humanos, buscarem o prazer é um indício de que ele é, de algum modo, o bem supremo: "Nenhuma voz se perde de todo, se muitos povos a repetem..."
Mas, como nenhuma natureza ou estado é, nem é tido como, o melhor para todos, também não buscam todos o mesmo prazer. Ainda assim, todos buscam algum prazer.
E talvez na verdade não busquem o prazer que pensam buscar, nem aquele que diriam buscar, mas o mesmo prazer, pois todas as coisas têm por natureza algo de divino dentro de si.
Mas os prazeres do corpo se apropriaram do nome "prazer", tanto porque é para eles que mais frequentemente nos dirigimos quanto porque todos participam deles. Como são os únicos que as pessoas conhecem, elas pensam que não existem outros.
Fica claro também que, se o prazer (isto é, a atividade das nossas faculdades) não fosse um bem, então não seria verdade que a pessoa feliz vive uma vida prazerosa. Pois, para que ela precisaria de prazer, se ele não fosse um bem e a pessoa feliz pudesse até viver uma vida dolorosa?
Pois, se o prazer não é um bem, a dor não é nem um mal nem um bem. Por que, então, ela deveria evitar a dor? Por isso também a vida da pessoa boa não seria mais prazerosa que a de qualquer outra, se as atividades dela não fossem mais prazerosas.