Ética a Nicômaco - Livro VII 12
Continência e incontinência (akrasia): por que se conhece o certo e mesmo assim se age errado, e a natureza do prazer
Em defesa do prazer: respondendo às objeções
Esses são, em resumo, os argumentos que se costumam apresentar. Mas eles não provam que o prazer não seja um bem, nem mesmo que não seja o bem supremo, como ficará claro pelo que vamos considerar a seguir.
Primeiro: aquilo que é bom pode sê-lo em dois sentidos. Uma coisa pode ser boa de modo absoluto, e outra ser boa apenas para uma pessoa específica. Como nossas constituições naturais e nossos estados de caráter se dividem assim, também os movimentos e processos que correspondem a eles vão se dividir do mesmo jeito.
Entre os prazeres tidos por ruins, alguns são ruins de modo absoluto, mas não para uma pessoa específica, e para ela vale a pena escolhê-los. Outros não valem a pena nem para essa pessoa, a não ser num momento dado e por pouco tempo, mas não de modo absoluto. E há outros que nem sequer são prazeres, só parecem ser: todos aqueles que envolvem dor e que servem para curar, como os processos que ocorrem em quem está doente.
Além disso, há dois tipos de bem: um é a atividade, outro é o estado de caráter. Os processos que nos devolvem ao nosso estado natural são prazerosos só por acidente. Nesse caso, o que de fato está em atividade nos apetites é a parte do nosso estado e da nossa natureza que continua intacta. A prova disso é que existem prazeres que não envolvem dor nem desejo, como os da contemplação, e neles a natureza não está nem um pouco deficiente.
Que os outros prazeres são acidentais fica claro neste fato: as pessoas não desfrutam das mesmas coisas quando a sua natureza está em seu estado normal e quando ela está se recompondo. No estado normal, elas gostam do que é prazeroso de modo absoluto. No estado de recomposição, gostam até dos contrários disso, pois aí gostam até de coisas ácidas e amargas, que não são prazerosas nem por natureza nem de modo absoluto.
Logo, os estados que essas coisas produzem não são prazeres por natureza nem de modo absoluto. Assim como as coisas prazerosas diferem entre si, também diferem os prazeres que nascem delas.
Outro ponto: não é preciso que exista algo melhor que o prazer, como alguns dizem que o fim é melhor que o processo que leva a ele. Os prazeres não são processos, e nem todos envolvem processo: eles são atividades e são fins em si mesmos. Não surgem enquanto nos tornamos algo, mas quando exercemos alguma faculdade. E nem todos os prazeres têm um fim diferente de si mesmos, só os prazeres de quem está sendo levado à plena realização da sua natureza.
Por isso não é correto dizer que o prazer é um processo perceptível. É melhor chamá-lo de atividade do estado natural, e no lugar de "perceptível" dizer "sem obstáculo". Algumas pessoas o consideram um processo só porque pensam que ele é bom no sentido estrito, pois acreditam que a atividade é um processo, o que não é verdade.
A ideia de que os prazeres são ruins porque algumas coisas prazerosas fazem mal à saúde é como dizer que as coisas saudáveis são ruins porque algumas delas atrapalham ganhar dinheiro. As duas são ruins no aspecto mencionado, mas não são ruins por causa disso. Aliás, até o próprio pensar às vezes prejudica a saúde.
Nem a prudência nem nenhum estado de caráter são atrapalhados pelo prazer que nasce deles. O que atrapalha são os prazeres estranhos a essa atividade, pois os prazeres que vêm de pensar e de aprender nos fazem pensar e aprender ainda mais.
Que nenhum prazer seja produto de uma arte é algo natural. Também não existe arte de nenhuma outra atividade, só da faculdade correspondente, embora se costume dizer que as artes do perfumista e do cozinheiro são artes do prazer.
Os argumentos que se apoiam em que a pessoa temperante evita o prazer, em que a pessoa prudente busca uma vida sem dor, e em que as crianças e os animais buscam o prazer, todos eles caem por uma mesma consideração.
Já mostramos em que sentido alguns prazeres são bons de modo absoluto e em que sentido alguns não são bons. Os animais e as crianças buscam os prazeres deste segundo tipo, e a pessoa prudente busca estar tranquilamente livre desse tipo. São os prazeres que implicam desejo e dor, ou seja, os prazeres do corpo (pois são eles que têm essa natureza) e os seus excessos, em relação aos quais a pessoa sem domínio de si é descontrolada.
É por isso que a pessoa temperante evita esses prazeres, pois mesmo ela tem prazeres próprios.