Ética a Nicômaco - Livro VII 11

Continência e incontinência (akrasia): por que se conhece o certo e mesmo assim se age errado, e a natureza do prazer

Por que o prazer e a dor importam, e três posições que negam que o prazer seja bom

Estudar o prazer e a dor é tarefa do filósofo político, pois é ele quem projeta o fim último, aquele alvo em vista do qual chamamos uma coisa de boa e outra de sem nenhuma ressalva.
Além disso, examinar o prazer e a dor é uma de nossas tarefas obrigatórias. Afinal, estabelecemos que a virtude moral e o vício têm a ver com as dores e os prazeres, e a maioria das pessoas diz que a felicidade envolve prazer. É por isso que o homem feliz recebe um nome derivado de uma palavra que significa desfrutar.
Ora, três posições. A primeira: algumas pessoas acham que nenhum prazer é bom, nem em si mesmo nem por acaso, que o bem e o prazer não são a mesma coisa. A segunda: outras acham que alguns prazeres são bons, mas que a maioria é ruim. A terceira: mesmo que todos os prazeres fossem bons, ainda assim a melhor coisa do mundo não poderia ser o prazer.
Os motivos que sustentam a primeira posição, de que o prazer não é bom de modo algum, são estes. Primeiro: todo prazer é um processo perceptível rumo a um estado natural, e nenhum processo é do mesmo tipo que o seu fim. Por exemplo, o processo de construir não é do mesmo tipo que a casa.
Segundo: a pessoa temperante (aquela que controla seus apetites) evita os prazeres. Terceiro: a pessoa de sabedoria prática busca o que está livre de dor, não o que é prazeroso.
Quarto: os prazeres atrapalham o pensamento, e tanto mais quanto mais a pessoa se deleita neles, como no prazer sexual, pois ninguém consegue pensar em coisa alguma enquanto está absorvido nele.
Quinto: não existe uma arte do prazer, mas todo bem é produto de alguma arte. Sexto: as crianças e os animais buscam os prazeres.
Os motivos da segunda posição, de que nem todos os prazeres são bons, são estes. Primeiro: prazeres que de fato são baixos e merecem reprovação. Segundo: prazeres prejudiciais, pois algumas coisas agradáveis fazem mal à saúde.
O motivo da terceira posição, de que a melhor coisa do mundo não é o prazer, é que o prazer não é um fim, mas um processo.