Ética a Nicômaco - Livro VI 9
As virtudes intelectuais: ciência, arte, prudência (phronesis), intelecto e sabedoria
A excelência na deliberação: correção do pensamento voltada ao fim bom
Há uma diferença entre investigar e deliberar, pois deliberar é investigar um tipo específico de coisa.
Precisamos entender também o que é a excelência na deliberação: se ela é uma forma de ciência, ou de opinião, ou de talento para o palpite certo, ou ainda outra coisa.
Ciência ela não é, pois ninguém investiga aquilo que já sabe, mas deliberar bem é um modo de deliberar, e quem delibera investiga e calcula.
Também não é talento para o palpite certo, porque esse talento não envolve raciocínio e age depressa, enquanto as pessoas deliberam por um longo tempo, e costumam dizer que se deve executar com rapidez aquilo que a deliberação concluiu, mas deliberar com calma.
Além disso, a prontidão de espírito é diferente da excelência na deliberação, pois ela é uma espécie de talento para o palpite certo.
E a excelência na deliberação também não é opinião de tipo algum. Mas, já que quem delibera mal comete um erro e quem delibera bem acerta, fica claro que a excelência na deliberação é um tipo de correção, mas não correção da ciência nem da opinião. Não existe correção da ciência (porque não existe erro da ciência), e a correção da opinião é a verdade; além disso, tudo o que é objeto de opinião já está fixado.
Mas a excelência na deliberação envolve raciocínio. Resta, então, a alternativa de que ela seja correção do pensamento, pois o pensamento ainda não é uma afirmação: enquanto a opinião não é investigação e já chegou ao ponto de afirmar, quem delibera, faça isso bem ou mal, está procurando algo e calculando.
Mas a excelência na deliberação é uma certa correção da deliberação. Por isso precisamos primeiro investigar o que é a deliberação e sobre o que ela trata.
E, havendo mais de um tipo de correção, fica claro que a excelência na deliberação não é qualquer tipo. Pois (1) o incontinente e o homem mau, se forem espertos, chegam pelo cálculo àquilo que tinham em mente, de modo que terão deliberado de forma correta, mas terão conseguido para si um grande mal.
Ora, deliberar bem é tido como algo bom, pois é justamente esse tipo de correção da deliberação que é a excelência na deliberação, aquela que tende a alcançar o que é bom.
Mas (2) é possível alcançar até mesmo o bem por um raciocínio falso, e atingir o que se deve fazer, mas não pelos meios certos, sendo o termo intermediário falso. Então isso também ainda não é a excelência na deliberação, esse estado pelo qual se alcança o que se deve, mas não pelos meios certos.
Além disso (3), é possível alcançar o objetivo por uma deliberação longa, enquanto outra pessoa o alcança depressa. No primeiro caso, portanto, ainda não temos a excelência na deliberação, que é o acerto a respeito do que é vantajoso, acerto quanto ao fim, ao modo e ao tempo.
Mais (4): é possível ter deliberado bem ou em sentido absoluto ou com referência a um fim particular. A excelência na deliberação em sentido absoluto, então, é aquela que tem êxito em relação ao fim em sentido absoluto, e a excelência na deliberação em sentido particular é aquela que tem êxito em relação a um fim particular.
Se, então, é próprio das pessoas dotadas de prudência (phronesis) ter deliberado bem, a excelência na deliberação será o acerto a respeito daquilo que conduz ao fim do qual a prudência é a verdadeira apreensão.