Ética a Nicômaco - Livro VI 8

As virtudes intelectuais: ciência, arte, prudência (phronesis), intelecto e sabedoria

A prudência política, por que falta aos jovens e por que não é ciência

A sabedoria política e a prudência (phronesis = saber agir bem em cada situação) são o mesmo estado da mente, mas a essência de cada uma é diferente. Da sabedoria que cuida da cidade, a forma que comanda é a sabedoria legislativa (a que faz as leis), enquanto a que se relaciona com ela como os casos particulares se relacionam com a regra geral é o que chamamos pelo nome comum de sabedoria política. Esta lida com a ação e a deliberação, pois um decreto é algo a ser cumprido num ato individual concreto.
É por isso que os que praticam essa arte são considerados como quem participa da política, pois eles fazem coisas, assim como o trabalhador braçal faz coisas.
A prudência também é identificada sobretudo com a forma dela que se ocupa do próprio homem, do indivíduo, e é esta que recebe o nome comum de prudência. Das outras formas, uma se chama administração da casa, outra legislação, e a terceira política, e dentro desta última uma parte se chama deliberativa e a outra judicial.
Saber o que é bom para si mesmo é um tipo de conhecimento, mas é muito diferente dos outros tipos. O homem que conhece e cuida dos próprios interesses é tido como prudente, enquanto os que se metem em política são vistos como gente que se intromete em tudo. Daí vem aquela frase de Eurípides: como eu poderia ser sábio, eu que podia, sem esforço, contado entre a multidão do exército, ter tido uma parte igual à dos outros?
Pois quem age assim busca o próprio bem e julga que é isso que se deve fazer. Dessa opinião nasceu a ideia de que essas pessoas é que têm prudência. Mas talvez o bem de cada um não possa existir sem a administração da casa, nem sem alguma forma de governo. Além disso, não está claro como cada um deve organizar os próprios assuntos, e isso ainda precisa ser investigado.
O que foi dito se confirma por um fato: enquanto rapazes jovens chegam a ser geômetras, matemáticos e sábios em assuntos desse tipo, acredita-se que não se encontra um jovem que seja prudente.
A causa é que a prudência se ocupa não das regras gerais, mas também dos casos particulares, e estes ficam familiares pela experiência, e o jovem não tem experiência, pois é o tempo longo que experiência. Pode-se até perguntar por que um menino chega a ser matemático, mas não filósofo ou físico. É porque os objetos da matemática existem por abstração (separados na mente da realidade concreta), enquanto os primeiros princípios das outras matérias vêm da experiência. Os jovens não têm convicção real sobre estes últimos e apenas usam as palavras certas, ao passo que o conteúdo dos objetos matemáticos lhes é bastante claro.
Além disso, o erro na deliberação pode ser sobre a regra geral ou sobre o caso particular: posso deixar de saber que toda água pesada faz mal, ou deixar de saber que esta água em particular é pesada.
Que a prudência não é conhecimento científico fica evidente, pois ela se ocupa, como foi dito, do fato particular último, que a coisa a ser feita é dessa natureza. Ela se opõe, então, ao intelecto (nous = a intuição direta dos primeiros princípios), pois o intelecto capta as premissas-limite, para as quais não se pode dar nenhuma razão, enquanto a prudência se ocupa do particular último, que não é objeto de conhecimento científico, mas de percepção.
Não a percepção das qualidades próprias de um único sentido, mas uma percepção parecida com aquela pela qual percebemos que a figura diante de nós é um triângulo, pois também ali haverá um ponto de parada. Mas isso é mais percepção do que prudência, ainda que seja um tipo de percepção diferente daquela das qualidades próprias de cada sentido.