Ética a Nicômaco - Livro VI 10
As virtudes intelectuais: ciência, arte, prudência (phronesis), intelecto e sabedoria
A compreensão (synesis) e como ela difere da prudência
A compreensão, e também a boa compreensão, pela qual dizemos que alguém é uma pessoa de bom entendimento, não é exatamente a mesma coisa que a opinião nem que a ciência (se fosse, todas as pessoas teriam bom entendimento), e também não é uma das ciências particulares, como a medicina, que estuda as coisas ligadas à saúde, ou a geometria, que estuda as grandezas do espaço.
Pois a compreensão não trata das coisas que existem sempre e não mudam, nem de cada uma das coisas que vêm a existir, mas das coisas sobre as quais cabe perguntar e deliberar.
Por isso ela trata dos mesmos objetos que a prudência, mas a compreensão e a prudência não são a mesma coisa. A prudência dá ordens, já que seu fim é decidir o que se deve ou não se deve fazer; a compreensão apenas julga. (Compreensão e boa compreensão são a mesma coisa, assim como a pessoa de bom entendimento.)
A compreensão não é ter a prudência nem é adquiri-la. Mas, assim como chamamos de compreender o ato de aprender, quando isso significa usar a faculdade do conhecimento, do mesmo modo a palavra compreensão se aplica ao uso da faculdade da opinião para julgar o que outra pessoa diz sobre os assuntos de que trata a prudência, e julgar com acerto, pois julgar bem e julgar com acerto são a mesma coisa.
E foi daí que veio o uso da palavra compreensão, pela qual dizemos que alguém tem bom entendimento, ou seja, do emprego dessa palavra para captar a verdade científica, pois muitas vezes chamamos de compreensão esse ato de captar.