Ética a Nicômaco - Livro VI 7

As virtudes intelectuais: ciência, arte, prudência (phronesis), intelecto e sabedoria

A sabedoria filosófica diante da prudência

Nas artes, atribuímos a sabedoria aos seus maiores mestres, por exemplo a Fídias como escultor e a Policleto como autor de estátuas de retrato, e aqui não queremos dizer nada com a palavra sabedoria além de excelência naquela arte. Mas também pensamos que algumas pessoas são sábias de modo geral, não em um campo específico nem em qualquer outro aspecto limitado, como diz Homero no Margites: 'A ele os deuses não fizeram nem cavador nem lavrador, nem sábio em qualquer outra coisa.'
Por isso a sabedoria deve claramente ser a mais completa das formas de conhecimento. Disso decorre que o homem sábio não deve conhecer o que se segue dos primeiros princípios, mas também deve possuir a verdade sobre os próprios primeiros princípios.
Por isso a sabedoria deve ser o intelecto (nous) unido à ciência: o conhecimento científico dos objetos mais elevados, conhecimento que recebeu, por assim dizer, o seu acabamento próprio.
Dos objetos mais elevados, dizemos, pois seria estranho pensar que a arte da política, ou a prudência, é o melhor conhecimento, que o homem não é a melhor coisa do mundo.
Ora, se aquilo que é saudável ou bom difere para os homens e para os peixes, mas aquilo que é branco ou reto é sempre o mesmo, qualquer um diria que o que é sábio é o mesmo para todos, mas o que é prudente varia. Pois é a quem observa bem os vários assuntos relativos a si mesmo que se atribui a prudência, e é a essa pessoa que se confiam tais assuntos.
É por isso que dizemos que mesmo alguns animais inferiores têm prudência, ou seja, aqueles que se mostram capazes de prever o que diz respeito à própria vida.
Também é evidente que a sabedoria filosófica e a arte da política não podem ser a mesma coisa. Pois, se chamássemos de sabedoria filosófica o estado de espírito que cuida dos interesses de cada um, haveria muitas sabedorias filosóficas. Não haveria uma única voltada para o bem de todos os animais (assim como não uma arte da medicina para tudo o que existe), mas uma sabedoria filosófica diferente para o bem de cada espécie.
Mas, ainda que se argumente que o homem é o melhor dos animais, isso não muda nada, pois existem outras coisas muito mais divinas por natureza do que o homem, por exemplo, de modo mais evidente, os corpos de que são feitos os céus.
Pelo que foi dito, fica claro, então, que a sabedoria filosófica é conhecimento científico unido ao intelecto a respeito das coisas que são as mais elevadas por natureza.
É por isso que dizemos que Anaxágoras, Tales e homens como eles têm sabedoria filosófica, mas não prudência, quando os vemos ignorar o que é vantajoso para si próprios. E dizemos que eles conhecem coisas notáveis, admiráveis, difíceis e divinas, mas inúteis, justamente porque não são bens humanos o que eles buscam.
A prudência, por outro lado, ocupa-se das coisas humanas e daquilo sobre o que é possível deliberar. Pois dizemos que esta é, acima de tudo, a tarefa do homem prudente: deliberar bem. Mas ninguém delibera sobre coisas que não podem mudar, nem sobre coisas que não têm um fim, isto é, um bem que possa ser realizado pela ação.
O homem que é bom em deliberar sem nenhuma restrição é o homem capaz de mirar, conforme o cálculo, o melhor para o ser humano entre as coisas alcançáveis pela ação.
E a prudência não se ocupa apenas dos princípios gerais: ela precisa também reconhecer os casos particulares. Pois é prática, e a prática lida com casos particulares.
É por isso que algumas pessoas que não têm o saber teórico, em especial as que têm experiência, são mais eficazes na prática do que outras que têm esse saber. Pois, se um homem soubesse que carnes leves são digeríveis e saudáveis, mas não soubesse quais carnes são leves, não produziria saúde. quem sabe que frango faz bem tem mais chance de produzir saúde.
Ora, a prudência ocupa-se da ação. Por isso devemos ter as duas formas dela, ou ao menos a segunda de preferência à primeira. Mas, tanto na prudência quanto na sabedoria filosófica, deve haver um tipo que governa as demais.