Ética a Nicômaco - Livro VI 5

As virtudes intelectuais: ciência, arte, prudência (phronesis), intelecto e sabedoria

O que é a prudência (phronesis): a capacidade verdadeira e racional de agir bem

Sobre a prudência (phronesis), vamos chegar à verdade examinando quem são as pessoas que reconhecemos como tendo essa qualidade. Considera-se que é a marca de quem tem prudência ser capaz de deliberar bem sobre o que é bom e vantajoso para si mesmo, não em algum ponto específico, como sobre que tipos de coisa favorecem a saúde ou a força, mas sobre que tipos de coisa favorecem a vida boa de modo geral.
Isso fica claro pelo fato de que reconhecemos a prudência em alguém num ponto específico quando essa pessoa calculou bem para alcançar um fim bom que não seja objeto de nenhuma arte. Segue-se que, no sentido geral também, quem é capaz de deliberar tem prudência.
Ora, ninguém delibera sobre coisas que não podem mudar, nem sobre coisas que lhe é impossível fazer.
Portanto, que a ciência (epistēmē) envolve demonstração, mas não demonstração de coisas cujos princípios podem variar (pois todas essas coisas poderiam de fato ser de outro modo), e que é impossível deliberar sobre coisas que são por necessidade, a prudência não pode ser ciência nem arte: não é ciência porque aquilo que pode ser feito é capaz de ser de outro modo, não é arte porque agir e produzir são coisas de tipos diferentes.
A única alternativa que resta, então, é que a prudência seja uma disposição verdadeira e racional de agir em relação às coisas que são boas ou más para o homem. Pois, enquanto produzir tem um fim diferente de si mesmo, agir não tem: o próprio bom agir é o seu fim.
É por essa razão que consideramos que Péricles e homens como ele têm prudência, ou seja, porque conseguem ver o que é bom para si mesmos e o que é bom para os homens em geral. Achamos que conseguem fazer isso aqueles que são bons em administrar casas ou cidades.
por isso que damos à temperança (sophrosune) esse nome: queremos dizer que ela preserva a prudência da pessoa. Ora, o que ela preserva é um juízo do tipo que descrevemos.
Pois não é qualquer juízo que o prazer e a dor destroem ou distorcem, como o juízo de que o triângulo tem ou não tem seus ângulos iguais a dois ângulos retos, mas apenas os juízos sobre o que deve ser feito.
Pois as causas que dão origem às coisas que fazemos estão no fim ao qual elas se dirigem. Mas o homem que foi arruinado pelo prazer ou pela dor logo deixa de enxergar qualquer causa originária dessas, deixa de ver que, por causa disto ou em vista disto, ele deveria escolher e fazer o que escolhe e faz. Pois o vício destrói a causa que origem à ação.)
A prudência, então, tem de ser uma disposição racional e verdadeira de agir em relação aos bens humanos.
Além disso, embora exista algo como excelência na arte, não existe algo como excelência na prudência. E na arte aquele que erra de propósito é preferível, mas na prudência, como nas virtudes, ele é o pior.
Fica claro, então, que a prudência é uma virtude e não uma arte.
Como existem duas partes da alma capazes de seguir um raciocínio, a prudência tem de ser a virtude de uma das duas, ou seja, daquela parte que forma opiniões. Pois a opinião se ocupa daquilo que pode variar, e o mesmo vale para a prudência.
Mas, ainda assim, ela não é apenas uma disposição racional. Isso fica claro pelo fato de que uma disposição desse tipo pode ser esquecida, mas a prudência não pode.