Ética a Nicômaco - Livro VI 13
As virtudes intelectuais: ciência, arte, prudência (phronesis), intelecto e sabedoria
A prudência e a virtude moral precisam uma da outra
Precisamos então examinar a virtude mais uma vez, porque a virtude se comporta de modo parecido. Assim como a prudência (phronesis) está para a esperteza, não é a mesma coisa, mas é semelhante, assim a virtude natural está para a virtude em sentido estrito.
Todas as pessoas acham que cada tipo de caráter pertence de algum modo por natureza a quem o tem, pois desde o instante em que nascemos já somos justos, ou inclinados ao autocontrole, ou corajosos, ou trazemos as outras qualidades morais. Mas ainda assim buscamos outra coisa como sendo o que é bom em sentido estrito: buscamos a presença dessas qualidades de outra maneira.
Tanto as crianças quanto os animais têm as disposições naturais para essas qualidades, mas sem a razão essas disposições claramente fazem mal.
O que parecemos perceber é só isto: alguém pode ser levado ao erro por essas disposições, como um corpo forte que se move sem enxergar pode tropeçar feio por falta de visão. Ainda assim, se a pessoa adquire a razão, isso muda o modo de agir, e o seu estado, embora continue parecido com o que era, passa a ser virtude em sentido estrito.
Por isso, assim como na parte de nós que forma opiniões existem dois tipos, a esperteza e a prudência, também na parte moral existem dois tipos, a virtude natural e a virtude em sentido estrito, e desta última faz parte a prudência.
É por isso que alguns dizem que todas as virtudes são formas de prudência, e por isso Sócrates de um lado estava no caminho certo e de outro se enganou. Ao pensar que todas as virtudes eram formas de prudência ele errou, mas ao dizer que elas pressupõem a prudência ele acertou.
Isso se confirma pelo fato de que ainda hoje, quando as pessoas definem a virtude, depois de nomear o estado de caráter e os seus objetos elas acrescentam: 'aquele estado que está de acordo com a regra certa'. Ora, a regra certa é a que está de acordo com a prudência.
Todas as pessoas, então, de algum modo parecem adivinhar que esse tipo de estado é a virtude, isto é, aquele que está de acordo com a prudência.
Mas precisamos ir um pouco além. A virtude não é apenas o estado que está de acordo com a regra certa, e sim o estado que pressupõe a presença da regra certa, e a prudência é uma regra certa sobre essas questões.
Sócrates, então, achava que as virtudes eram regras ou princípios racionais, pois julgava que todas elas eram formas de conhecimento científico, ao passo que nós achamos que elas envolvem um princípio racional.
Fica claro, então, pelo que foi dito, que não é possível ser bom em sentido estrito sem a prudência, nem ser prudente sem a virtude moral.
Desse modo podemos também refutar o argumento dialético que sustentaria que as virtudes existem separadas umas das outras. Diriam que a mesma pessoa não é, por natureza, igualmente bem dotada para todas as virtudes, de forma que ela já teria adquirido uma virtude sem ainda ter adquirido outra.
Isso é possível no caso das virtudes naturais, mas não no caso daquelas pelas quais a pessoa é chamada boa sem qualquer restrição, pois com a presença de uma só qualidade, a prudência, serão dadas todas as virtudes.
E é evidente que, mesmo que ela não tivesse nenhum valor prático, precisaríamos dela porque é a virtude da parte de nós em questão. É evidente também que a escolha não será correta sem a prudência, assim como não será sem a virtude, pois uma determina o fim e a outra nos faz realizar as coisas que levam a esse fim.
Mas, por outro lado, a prudência não é soberana sobre a sabedoria filosófica, ou seja, sobre a parte superior de nós, assim como a arte da medicina não é soberana sobre a saúde. A medicina não usa a saúde, ela cuida para que a saúde venha a existir. Ela dá ordens, então, em favor da saúde, mas não dá ordens à saúde.
Além disso, sustentar essa soberania seria como dizer que a arte da política governa os deuses porque dá ordens sobre todos os assuntos da cidade.