Ética a Nicômaco - Livro VI 12
As virtudes intelectuais: ciência, arte, prudência (phronesis), intelecto e sabedoria
Por que precisamos da prudência e da sabedoria filosófica
Pode-se levantar uma dificuldade quanto à utilidade dessas qualidades da mente. Primeiro, a sabedoria filosófica não contempla nada que torne a pessoa feliz, pois não trata de coisa alguma que esteja vindo a ser. E ainda que a prudência tenha esse mérito, para que precisamos dela?
A prudência é a qualidade da mente que se ocupa do que é justo, nobre e bom para o ser humano. Mas essas são justamente as coisas que cabe ao homem bom fazer, e não ficamos mais aptos a agir só por conhecê-las, se as virtudes são estados de caráter. É como conhecer o que é saudável: não digo aquilo que produz saúde, mas aquilo que resulta de já se ter saúde. Por isso não ficamos mais aptos a agir só por dominar a medicina ou a ginástica.
Por outro lado, se dissermos que a pessoa deve ter prudência não para conhecer verdades morais, mas para se tornar boa, então a prudência será inútil para quem já é bom. E também é inútil para quem não tem virtude, pois não fará diferença se a pessoa mesma tem prudência ou se obedece a outros que a têm. Bastaria fazer como fazemos com a saúde: queremos ficar saudáveis, mas nem por isso aprendemos medicina.
Além disso, pareceria estranho que a prudência, sendo inferior à sabedoria filosófica, fosse posta no comando dela. É o que parece sugerir o fato de que a arte que produz alguma coisa governa e dá ordens sobre aquilo que produz.
Essas, então, são as questões que precisamos discutir. Até aqui apenas expusemos as dificuldades.
Primeiro, vamos dizer que esses estados, em si mesmos, merecem ser escolhidos, porque são as virtudes das duas partes da alma, cada uma da sua, mesmo que nenhuma delas produza coisa alguma.
Segundo, eles de fato produzem algo, mas não do modo como a medicina produz saúde, e sim do modo como a saúde produz saúde. É assim que a sabedoria filosófica produz felicidade. Sendo uma parte da virtude inteira, ela torna a pessoa feliz pelo simples fato de ser possuída e de se exercer.
Terceiro, a obra própria do ser humano só se realiza de acordo com a prudência junto com a virtude moral. A virtude faz mirar no alvo certo, e a prudência faz tomar os meios certos para alcançá-lo. (A quarta parte da alma, a que cuida da nutrição, não tem virtude desse tipo, pois não há nada que esteja em seu poder fazer ou deixar de fazer.)
Quanto à objeção de que a prudência não nos torna mais aptos a fazer o que é nobre e justo, comecemos um pouco antes, partindo do seguinte princípio. Nós dizemos que algumas pessoas que praticam atos justos não são necessariamente justas: é o caso de quem cumpre os atos ordenados pela lei sem querer, ou por ignorância, ou por outro motivo, e não pelos atos em si mesmos (ainda que façam o que devem e tudo o que o homem bom faria). Assim também, ao que parece, para ser bom é preciso estar em certo estado ao praticar cada ato, ou seja, é preciso praticá-lo por escolha e pelos próprios atos em si.
Ora, a virtude torna a escolha correta, mas a questão de que meios devem naturalmente ser usados para executar a nossa escolha não pertence à virtude, e sim a outra faculdade. Precisamos voltar nossa atenção a isso e explicá-lo com mais clareza.
Existe uma faculdade chamada habilidade. Ela consiste em ser capaz de fazer aquilo que conduz ao alvo que estabelecemos para nós e de acertá-lo. Se o alvo é nobre, a habilidade é louvável; mas se o alvo é mau, a habilidade não passa de esperteza. Por isso chamamos as pessoas prudentes de hábeis ou espertas.
A prudência não é essa faculdade, mas não existe sem ela. E esse olho da alma só adquire sua forma acabada com a ajuda da virtude, como já foi dito e é evidente. Pois os raciocínios que tratam dos atos a serem feitos partem de um ponto de partida, a saber: "já que o fim, isto é, o que é melhor, é de tal e tal natureza", seja ele qual for (suponhamos, para o argumento, que seja o que quisermos). E isso só é evidente para o homem bom, pois a maldade nos perverte e nos faz enganar a respeito dos pontos de partida da ação.
Portanto, fica evidente que é impossível ser prudente sem ser bom.