Ética a Nicômaco - Livro VI 11
As virtudes intelectuais: ciência, arte, prudência (phronesis), intelecto e sabedoria
O juízo, o entendimento e o intelecto lidam todos com os casos particulares
O que chamamos de juízo, a capacidade pela qual dizemos que alguém é um juiz compreensivo e que tem bom senso, é a faculdade de discernir corretamente o que é justo e razoável (a equidade). Isso fica claro pelo fato de dizermos que a pessoa equânime é, mais do que qualquer outra, alguém de juízo compreensivo, e de identificarmos a equidade com esse juízo compreensivo sobre certos fatos. O juízo compreensivo é o juízo que discerne o que é equânime e o faz de modo correto, e o juízo correto é aquele que julga o que é verdadeiro.
Todas as capacidades que examinamos convergem, como era de esperar, para o mesmo ponto. Quando falamos de juízo, de bom entendimento, de prudência e de intelecto, atribuímos a essas mesmas pessoas o ter juízo, o ter chegado à idade da razão, e o ter prudência e bom entendimento. É que todas essas faculdades lidam com os casos últimos, isto é, com os fatos particulares e concretos. Ser uma pessoa de bom entendimento e de juízo correto ou compreensivo consiste em saber julgar sobre as mesmas coisas de que trata a prudência, pois o que é justo e razoável diz respeito a todas as pessoas boas nas suas relações com as outras.
Tudo o que precisa ser feito está entre os casos particulares e últimos. A pessoa prudente não só tem de conhecer os fatos particulares, como também o bom entendimento e o juízo se ocupam de coisas a fazer, e essas coisas são os casos últimos. O intelecto se ocupa dos casos últimos nas duas pontas, pois tanto os primeiros princípios quanto os fatos finais são captados pelo intelecto e não por argumentação. O intelecto que está pressuposto nas demonstrações capta os primeiros princípios, que são imutáveis, enquanto o intelecto que entra no raciocínio prático capta o fato final e variável, ou seja, a premissa menor.
Esses fatos variáveis são os pontos de partida para se compreender a finalidade da ação, já que chegamos às verdades gerais a partir dos casos particulares. Por isso precisamos ter uma percepção desses fatos, e essa percepção é o intelecto.
É por isso que essas capacidades são tidas como dons naturais. Embora ninguém seja considerado filósofo por natureza, as pessoas são consideradas como tendo por natureza o juízo, o bom entendimento e o intelecto. Isso fica claro pelo fato de pensarmos que nossas capacidades correspondem à nossa fase da vida, e que uma certa idade já traz consigo o intelecto e o juízo, o que indica que a natureza é a causa. (Por isso o intelecto é ao mesmo tempo começo e fim, pois as demonstrações partem dele e tratam dele.)
Por isso devemos prestar atenção às afirmações e opiniões não demonstradas de pessoas experientes e mais velhas, ou de pessoas prudentes, não menos do que às demonstrações, pois, como a experiência lhes deu um olhar treinado, elas enxergam com acerto.
Dissemos, então, o que são a prudência e a sabedoria, com o que cada uma delas se ocupa, e afirmamos que cada uma é a virtude de uma parte diferente da alma.