Ética a Nicômaco - Livro V 8

A justiça: a distributiva e a corretiva, o justo como meio-termo e a equidade que corrige a lei

Quando o ato injusto torna a pessoa injusta: vontade, conhecimento e escolha

descrevemos os atos justos e injustos. Uma pessoa age de modo justo ou injusto quando pratica tais atos de forma voluntária. Quando age de modo involuntário, não age nem justa nem injustamente, a não ser por acidente, pois nesse caso ela apenas faz coisas que por acaso são justas ou injustas.
O que decide se um ato é ou não uma injustiça (ou uma justiça) é ele ser voluntário ou involuntário. Quando é voluntário, ele é censurado, e então é de fato um ato de injustiça. Por isso pode haver coisas que são injustas sem ainda serem atos de injustiça, caso falte o caráter voluntário.
Por voluntário entendo, como foi dito, qualquer coisa que está no poder da pessoa e que ela faz com conhecimento, ou seja, sem ignorar quem ela atinge, com que instrumento e com que finalidade (por exemplo, em quem bate, com o quê e para quê). E cada ato desse tipo deve ser feito sem ser por acidente nem sob coação. Por exemplo, se A pega a mão de B e com ela bate em C, então B não age de modo voluntário, pois o ato não estava no poder dele.
A pessoa atingida pode ser o próprio pai de quem bateu, e quem bateu pode saber que é um homem ou alguém ali presente, mas não saber que é o pai. Uma distinção parecida pode ser feita quanto à finalidade e quanto à ação inteira.
Portanto, aquilo que é feito por ignorância, ou que, mesmo sem ser por ignorância, não está no poder de quem age, ou é feito sob coação, é involuntário. até muitos processos naturais que realizamos e sofremos com pleno conhecimento, e nenhum deles é voluntário nem involuntário, como envelhecer ou morrer.
Mas tanto nos atos injustos quanto nos justos, a injustiça ou a justiça pode ser apenas acidental. Alguém pode devolver um depósito contra a vontade e por medo, e nesse caso não se deve dizer que faz o que é justo nem que age com justiça, exceto por acidente. Do mesmo modo, quem sob coação e contra a vontade deixa de devolver o depósito deve ser dito agir injustamente e fazer o que é injusto apenas por acidente.
Entre os atos voluntários, alguns fazemos por escolha deliberada, outros não. Por escolha, aqueles que fazemos depois de deliberar; sem escolha, aqueles que fazemos sem deliberação prévia.
Há, então, três tipos de dano nas relações entre as pessoas. Os feitos por ignorância são erros quando a pessoa atingida, o ato, o instrumento ou a finalidade são diferentes do que quem agiu supunha. Quem agiu pensava que não estava acertando ninguém, ou que não estava acertando com aquele projétil, ou que não estava acertando aquela pessoa, ou que não era para aquele fim, mas o resultado foi outro do que ele julgava provável. Por exemplo, ele lançou não com a intenção de ferir, mas de espetar de leve. Ou então a pessoa atingida ou o projétil foram diferentes do que supunha.
Ora, quando (1) o dano acontece contra toda expectativa razoável, é um infortúnio. Quando (2) não vai contra a expectativa razoável, mas também não revela vício de caráter, é um erro. Pois a pessoa comete um erro quando a falha tem origem nela mesma, mas é vítima do acaso quando a origem está fora dela.
Quando (3) ela age com conhecimento, mas sem deliberar, é um ato de injustiça. Por exemplo, os atos motivados pela raiva ou por outras paixões necessárias ou naturais ao ser humano. Quando as pessoas praticam esses atos danosos e equivocados, elas agem injustamente, e os atos são atos de injustiça, mas isso não significa que quem os pratica seja injusto ou perverso, pois o dano não vem de um vício de caráter. Mas quando (4) a pessoa age por escolha deliberada, ela é injusta e tem caráter vicioso.
Por isso se julga com razão que os atos vindos da raiva não são feitos com intenção premeditada, pois quem inicia o estrago não é quem age tomado de raiva, e sim quem o enfureceu.
Além disso, a disputa não é sobre se a coisa aconteceu ou não, mas sobre a justiça dela, pois é a injustiça aparente que provoca a fúria.
De fato, as pessoas não discutem sobre o ato ter ocorrido, como acontece nas transações comerciais, em que um dos dois lados tem de ser desonesto (a menos que discutam por esquecimento). Em vez disso, concordando quanto ao fato, elas disputam de que lado está a justiça (já que quem feriu outra pessoa de propósito não pode deixar de saber que fez isso). Assim, um acha que está sendo tratado injustamente, e o outro discorda.
Mas se a pessoa prejudica outra por escolha deliberada, ela age injustamente. E são esses os atos de injustiça que mostram que quem os pratica é uma pessoa injusta, desde que o ato viole a proporção ou a igualdade. Do mesmo modo, alguém é justo quando age com justiça por escolha deliberada, mas basta agir de forma voluntária para agir com justiça.
Entre os atos involuntários, alguns são perdoáveis e outros não. São perdoáveis os erros que as pessoas cometem não na ignorância, mas também por causa da ignorância. os erros que as pessoas cometem não por causa da ignorância (embora os cometam em estado de ignorância), e sim por causa de uma paixão que não é natural nem própria do ser humano, esses não são perdoáveis.