Ética a Nicômaco - Livro IV 9
As demais virtudes do caráter: generosidade, magnificência, magnanimidade, mansidão e as virtudes do convívio
A vergonha é um sentimento, não uma virtude
A vergonha não deve ser descrita como uma virtude, pois é mais parecida com um sentimento do que com um estado de caráter.
De todo modo, ela é definida como uma espécie de medo de cair em desonra, e produz um efeito parecido com o do medo do perigo, pois quem se sente envergonhado fica vermelho, e quem teme a morte fica pálido.
Os dois casos, então, parecem ser de certo modo reações do corpo, o que se considera característico de um sentimento, e não de um estado de caráter.
O sentimento não cai bem em qualquer idade, mas só na juventude. Achamos que os jovens devem ser sujeitos ao sentimento de vergonha porque vivem guiados pelo sentimento e por isso cometem muitos erros, mas são contidos pela vergonha; e elogiamos os jovens que têm essa tendência, mas ninguém elogiaria uma pessoa mais velha por sentir vergonha, já que achamos que ela não deveria fazer nada que provoque esse sentimento.
Pois o sentimento de vergonha não é nem mesmo característico de um homem bom, já que vem como consequência de más ações (porque tais ações não deveriam ser feitas; e se algumas ações são vergonhosas de fato e outras só segundo a opinião comum, isso não faz diferença, pois nenhum dos dois tipos deveria ser feito, de modo que nenhuma vergonha deveria ser sentida); e é marca de um homem mau ser capaz de praticar qualquer ação vergonhosa.
Ser constituído de tal modo que se sentiria envergonhado caso fizesse uma ação dessas, e por isso se considerar bom, é absurdo, pois é por ações voluntárias que se sente vergonha, e o homem bom nunca fará más ações de modo voluntário.
Mas pode-se dizer que a vergonha é uma coisa boa de forma condicional: se um homem bom fizesse tais ações, ele se sentiria envergonhado; só que as virtudes não estão sujeitas a esse tipo de condição.
E se a falta de vergonha (não se envergonhar de praticar ações vis) é algo ruim, isso não torna boa a vergonha de praticá-las.
A continência (o autocontrole) também não é uma virtude, mas um tipo de estado misto; isso será mostrado mais adiante. Mas, por ora, vamos tratar da justiça.