Ética a Nicômaco - Livro IV 8

As demais virtudes do caráter: generosidade, magnificência, magnanimidade, mansidão e as virtudes do convívio

A graça: o meio-termo na diversão e no humor

Como a vida tem descanso além de atividade, e nesse descanso entram o lazer e a diversão, parece haver também aqui um tipo de convívio que é de bom gosto: existe um jeito de dizer, e também de ouvir, aquilo que se deve e como se deve. O tipo de pessoa com quem você fala ou a quem você ouve também faz diferença. É claro que aqui também um excesso e uma falta em relação ao meio-termo.
Quem leva o humor ao excesso é tido como um palhaço grosseiro, que busca a graça a qualquer custo e mira mais em arrancar uma risada do que em dizer o que é adequado e em não magoar quem é alvo da brincadeira. quem não sabe nem fazer uma piada nem suportar quem faz é tido como rude e sem trato.
Mas quem brinca com bom gosto é chamado de espirituoso, o que sugere uma certa agilidade para virar de um lado e de outro. Essas tiradas são vistas como movimentos do caráter, e assim como os corpos se distinguem pelos seus movimentos, também os caracteres se distinguem assim.
O lado cômico das coisas, no entanto, não é difícil de achar, e a maioria das pessoas se diverte mais do que deveria com a brincadeira e com a piada. Por isso até os palhaços grosseiros são chamados de espirituosos, porque caem nas graças dos outros. Mas que eles diferem do homem espirituoso, e não pouco, fica claro pelo que foi dito.
Ao estado intermediário pertence também o tato. É próprio da pessoa de tato dizer e ouvir o que convém a alguém bom e bem-educado, porque coisas que convém a essa pessoa dizer e ouvir em tom de brincadeira, e a brincadeira do homem bem-educado difere da do homem grosseiro, e a do homem instruído difere da do homem sem instrução.
para ver isso até comparando as comédias antigas com as novas: para os autores das primeiras, a linguagem indecente era engraçada; para os das segundas, a insinuação velada diverte mais. E essas duas diferem bastante quanto ao decoro.
Devemos então definir quem brinca bem por dizer aquilo que não fica mal a uma pessoa bem-educada, ou por não causar dor, ou até por dar prazer, a quem ouve? Ou essa última definição é ela mesma imprecisa, que coisas diferentes são odiosas ou agradáveis para pessoas diferentes?
O tipo de piada que ele estará disposto a ouvir será o mesmo que ele faz, porque aquilo que ele tolera ouvir parece ser também aquilo que ele faz. Há, então, piadas que ele não fará, porque a graçola é uma espécie de ofensa, e coisas que os legisladores nos proíbem de ofender, e talvez devessem ter nos proibido até de fazer piada com elas. A pessoa refinada e bem-educada, portanto, será como descrevemos, sendo por assim dizer uma lei para si mesma.
Assim é, então, o homem que observa o meio-termo, seja ele chamado de pessoa de tato ou de espirituoso. O palhaço grosseiro, por outro lado, é escravo do próprio senso de humor, não poupa nem a si nem aos outros se conseguir arrancar uma risada, e diz coisas que nenhum homem refinado diria, e algumas das quais ele nem ouviria.
O rústico, por sua vez, é inútil para esse tipo de convívio social, porque não contribui com nada e critica tudo. Mas o relaxamento e a diversão são tidos como um elemento necessário da vida.
Os meios-termos da vida que descrevemos são, portanto, três, e todos têm a ver com algum tipo de troca de palavras e atos. Eles diferem, no entanto, em que um se ocupa da verdade, e os outros dois do que é agradável. Dos que se ocupam do prazer, um aparece nas brincadeiras, e o outro no convívio social comum da vida.