Ética a Nicômaco - Livro IV 7
As demais virtudes do caráter: generosidade, magnificência, magnanimidade, mansidão e as virtudes do convívio
A veracidade: o meio-termo entre se gabar e se diminuir
O meio-termo oposto à fanfarronice fica quase na mesma área, e também não tem nome. Não será má ideia descrever esses estados de caráter, porque conheceremos melhor os fatos sobre o caráter se passarmos por eles em detalhe, e ficaremos convencidos de que as virtudes são meios-termos se virmos que isso vale em todos os casos.
No campo da vida em sociedade, já descrevemos os que têm como objetivo dar prazer ou causar dor ao conviver com os outros. Agora vamos descrever os que buscam a verdade ou a mentira tanto nas palavras quanto nos atos e naquilo que dizem ser.
O fanfarrão, então, é tido como aquele que tende a alegar para si as coisas que trazem glória, mesmo quando não as tem, ou a alegar mais do que de fato possui. O falso-modesto, ao contrário, nega o que tem ou diminui o seu valor. Já quem fica no meio-termo é aquele que chama cada coisa pelo seu próprio nome, sendo verdadeiro na vida e na palavra, reconhecendo o que tem, nem mais nem menos.
Ora, qualquer um desses caminhos pode ser adotado com ou sem um objetivo por trás. Mas cada pessoa fala, age e vive de acordo com o seu caráter, quando não está agindo movida por algum interesse oculto.
E a mentira é, em si mesma, baixa e censurável, enquanto a verdade é nobre e digna de louvor. Assim, o homem verdadeiro é mais um caso de alguém que, por estar no meio-termo, merece louvor, e as duas formas do homem mentiroso são censuráveis, em especial o fanfarrão.
Vamos tratar dos dois, mas primeiro do homem verdadeiro. Não estamos falando daquele que mantém a palavra nos seus acordos, ou seja, nas coisas que dizem respeito à justiça ou à injustiça (isso pertenceria a outra virtude), mas do homem que, em assuntos onde nada disso está em jogo, é verdadeiro tanto na palavra quanto na vida porque o seu caráter é assim.
E um homem desses pareceria, de fato, equânime. Pois quem ama a verdade, e é verdadeiro onde nada está em jogo, será ainda mais verdadeiro onde algo está em jogo. Ele evitará a mentira como algo vil, já que a evitava até quando não havia nada em jogo. E um homem assim merece louvor.
Ele tende mais a dizer de menos sobre a verdade do que exagerá-la, porque isso parece de melhor gosto, já que os exageros cansam.
Quem alega ter mais do que tem, sem nenhum objetivo por trás, é um sujeito desprezível (caso contrário não teria sentido prazer na mentira), mas parece mais inútil do que mau. Já quem faz isso com um objetivo: se é pela fama ou pela honra, não é muito de se censurar (tratando-se de um fanfarrão), mas quem faz isso por dinheiro, ou pelas coisas que levam ao dinheiro, é um caráter mais feio.
Não é a capacidade de mentir que faz o fanfarrão, e sim o propósito, porque é em virtude do seu estado de caráter, e por ser um homem de certo tipo, que ele é fanfarrão. É como um homem que mente porque gosta da mentira em si, e outro que mente porque deseja reputação ou ganho.
Ora, os que se gabam em busca de fama alegam ter qualidades que rendem elogio ou parabéns. Já aqueles cujo objetivo é o ganho alegam qualidades úteis ao próximo e cuja ausência não é fácil de detectar, como os poderes de um vidente, de um sábio ou de um médico.
Por essa razão, são coisas como essas que a maioria das pessoas alega ter e sobre as quais se gaba, porque nelas se encontram as qualidades mencionadas acima.
As pessoas falso-modestas, que dizem de menos sobre si mesmas, parecem ter um caráter mais atraente, porque pensamos que falam não por ganho, mas para evitar a ostentação. E aqui também são as qualidades que trazem reputação as que elas negam, como Sócrates costumava fazer.
Os que negam ter qualidades insignificantes e óbvias são chamados de farsantes e são mais desprezíveis. Às vezes isso parece ser fanfarronice, como a roupa espartana, porque tanto o excesso quanto a grande deficiência são uma forma de se gabar.
Mas os que usam a modéstia com moderação, e dizem de menos a respeito de assuntos que não se impõem muito à nossa atenção, parecem atraentes. E é o fanfarrão que parece ser o oposto do homem verdadeiro, porque ele é o pior caráter dos dois.