Ética a Nicômaco - Livro IV 6
As demais virtudes do caráter: generosidade, magnificência, magnanimidade, mansidão e as virtudes do convívio
A simpatia no convívio: o meio-termo sem nome entre a bajulação e a implicância
Nas reuniões entre as pessoas, na vida social e na troca de palavras e ações, alguns são considerados bajuladores: são os que elogiam tudo para agradar e nunca discordam, porque acham que seu dever é não causar nenhum desgosto a quem encontram. Já os que, ao contrário, se opõem a tudo e não se importam nem um pouco em desagradar são chamados de ríspidos e brigões.
É bem claro que esses dois estados que citamos merecem reprovação, e que o estado intermediário merece elogio: é aquele em que a pessoa aceita umas coisas e se incomoda com outras, nas situações certas e do jeito certo. Mas esse estado não recebeu um nome, embora seja o que mais se parece com a amizade.
Pois a pessoa que corresponde a esse estado intermediário é muito parecida com o que chamamos de um bom amigo, faltando apenas o afeto.
Mas o estado de que falamos difere da amizade porque não envolve nenhuma paixão ou afeto pelos que convivem com a pessoa: não é por amar ou odiar que ela trata cada coisa do modo certo, e sim por ser uma pessoa de um certo tipo.
Pois ela vai agir do mesmo jeito com os que conhece e com os que não conhece, com os íntimos e com os que não são íntimos, com a diferença de que em cada caso vai agir como é apropriado. Afinal, não é correto ter o mesmo cuidado com os íntimos e com os estranhos, nem são as mesmas condições que tornam certo causar desgosto a uns e a outros.
Já dissemos em geral que essa pessoa vai conviver com os outros do modo certo. Mas é levando em conta o que é honroso e o que é vantajoso que ela vai buscar não causar desgosto ou trazer prazer.
Pois ela parece se ocupar dos prazeres e desgostos da vida social. E sempre que não for honroso, ou for prejudicial, trazer prazer a alguém, ela vai recusar e preferir causar desgosto. Da mesma forma, se concordar com a ação de outro trouxesse a esse outro uma vergonha grande, ou um dano, enquanto opor-se traz só um pequeno desgosto, ela não vai concordar, e sim recusar.
Ela vai conviver de um jeito com pessoas de alta posição e de outro com pessoas comuns, de um jeito com conhecidos próximos e de outro com os mais distantes, e assim também diante de todas as outras diferenças, dando a cada grupo o que é apropriado. E mesmo que por si mesma escolha trazer prazer e evitar causar desgosto, ela vai se guiar pelas consequências, quando estas forem maiores, ou seja, pela honra e pela vantagem.
Por um grande prazer futuro, também, ela vai infligir pequenos desgostos.
A pessoa que atinge o meio-termo, então, é como a descrevemos, mas não recebeu um nome. Entre os que trazem prazer, quem busca ser agradável sem nenhum objetivo oculto é o bajulador, mas quem faz isso para obter alguma vantagem em dinheiro, ou nas coisas que o dinheiro compra, é o lisonjeiro. Já quem briga com tudo é, como foi dito, ríspido e brigão.
E os extremos parecem contradizer um ao outro porque o meio-termo está sem um nome.