A Divina Comédia: Purgatório 27

A segunda cantica (33 cantos): ainda com Virgílio, Dante sobe a montanha do Purgatório, onde as almas se purificam dos sete pecados capitais terraço a terraço, até o Paraíso Terrestre, onde reencontra Beatriz

Dante atravessa o muro de fogo e Virgílio se despede como guia

Como quando os primeiros raios vibram lá onde o Criador derramou seu sangue, caindo o Ebro sob a alta Libra,
e as ondas do Ganges foram abrasadas pelo meio-dia, assim estava o sol; e assim o dia partia, quando o anjo de Deus nos apareceu contente.
Estava à beira de fora da chama e cantava 'Beati mundo corde!' em voz muito mais viva que a nossa.
"Não se vai mais além sem que primeiro a chama morda, almas santas; entrai nela e não sejais surdas ao cantar que além",
disse-nos quando nos aproximamos dele; e quando o ouvi, tornei-me tal como quem é posto na fossa.
Me inclinei para a frente com as mãos unidas, olhando o fogo e imaginando vivamente corpos humanos que vi em chamas.
Minhas boas escoltas voltaram-se para mim; e Virgílio me disse: "Filho meu, aqui pode haver tormento, mas não morte.
Lembra-te, lembra-te! E se eu te guiei são sobre Gerião, o que farei agora, mais perto de Deus?
Acredita com certeza que se ficasses dentro do ventre desta chama por mil anos plenos, não te faria perder um único cabelo.
E se talvez aches que te engano, vai em direção a ela e deixa-te convencer com tuas próprias mãos na beira de tua veste.
Põe agora, põe todo temor; volta para e vem: entra sem medo!" E eu, firme e contra minha consciência.
Quando me viu firme e duro, turbado um pouco disse: "Vê, filho: entre Beatriz e tu está este muro."
Como Píramo, ao nome de Tisbe, abriu os olhos na hora da morte e a olhou, quando a amoreira ficou vermelha;
assim minha dureza se amoleceu, e me voltei ao sábio guia, ao ouvir o nome que sempre nasce em minha mente.
A isso ele balançou a cabeça e disse: "Como! Queremos ficar deste lado?"; depois sorriu como se faz a uma criança conquistada com maçã.
Depois entrou no fogo à minha frente, pedindo a Estácio que viesse atrás, que por longa estrada nos havia separado.
Assim que entrei, me teria jogado em vidro fervente para me refrescar, tão imenso era o incêndio ali.
Meu doce pai, para me consolar, ia falando de Beatriz enquanto andávamos, dizendo: "Seus olhos me parece ver."
Uma voz nos guiava cantando do outro lado; e nós, atentos a ela, saímos onde se subia.
'Venite, benedicti Patris mei' ressoou dentro de uma luz que estava, tal que me venceu e não pude olhá-la.
"O sol se vai", acrescentou, "e vem a tarde; não vos detenhais, mas apressai o passo enquanto o ocidente ainda não escurece."
O caminho subia reto pela rocha para tal ponto que eu bloqueava os raios do sol à minha frente, o sol baixo.
E poucos degraus tínhamos subido quando, eu e meus sábios, sentimos o sol se pôr atrás, ao sumirmos da sombra.
E antes que o horizonte se tornasse de um único aspecto em todas suas partes imensas e a noite houvesse distribuído todas suas disposições,
cada um de nós fez de um degrau seu leito; pois a natureza do monte nos tirou a força de subir mais e o prazer disso.
Como cabras que foram rápidas e altivas nos cumes, antes de pastar, ficam mansas, repousando à sombra enquanto o sol abrasa,
guardadas pelo pastor que se apoia na vara e as serve no descanso;
e como o pastor que dorme fora, passando a noite junto ao rebanho tranquilo para que uma fera não o disperse;
assim éramos nós três naquele momento, eu como uma cabra e eles como pastores, encurralados de um lado e do outro pela alta rocha.
Pouco do exterior se podia ver de lá; mas por esse pouco eu via as estrelas mais brilhantes e maiores que de costume.
Enquanto assim ruminava e as contemplava, o sono me tomou; o sono que frequentemente, antes do fato, sabe as novidades.
Na hora, creio, em que Citérea, que sempre parece arder com o fogo do amor, primeiro irradiou do oriente sobre o monte,
num sonho pareceu-me ver uma mulher jovem e bela andando por uma pradaria colhendo flores; e cantando dizia:
"Saiba quem perguntar meu nome que eu sou Lia, e vou movendo as belas mãos para fazer uma guirlanda.
Para me agradar ao espelho, aqui me adorno; mas minha irmã Raquel jamais se afasta do seu espelho e fica sentada o dia todo.
Ela deseja ver seus belos olhos assim como eu anseio adornar-me com as mãos; a ela o ver, e a mim o fazer, satisfaz."
E pelos esplendores antelucanos, que tanto mais são gratos aos peregrinos quanto, ao voltar, pousam menos longe de casa,
as trevas fugiam de todos os lados, e meu sono com elas; assim me levantei, vendo os grandes mestres levantados.
"Aquele doce fruto que o cuidado dos mortais busca por tantos ramos hoje porá em paz tua fome."
Virgílio me disse essas palavras; e nunca houve dádivas tão iguais em dar prazer a estas.
Tão grande veio sobre mim vontade sobre vontade de estar acima, que a cada passo depois sentia crescer-me as asas para o voo.
Quando toda a escada embaixo de nós foi percorrida e estávamos no degrau mais alto, Virgílio cravou em mim seus olhos,
e disse: "O fogo temporal e o eterno tu viste, filho; e chegaste a um lugar aonde eu por mim mesmo não vejo mais além.
Trouxe-te aqui com engenho e arte; agora toma teu próprio prazer por guia; estás fora das vias íngremes, fora das estreitas.
o sol que reluz em tua fronte; vê as ervas, as flores e os arbustos que aqui a terra produz por si mesma.
Até que venham alegres os belos olhos que chorando me fizeram vir a ti, podes sentar e andar entre elas.
Não aguardes mais minha palavra ou sinal; tua vontade é livre, reta e sã; e seria erro não agir segundo seu próprio juízo:
portanto, sobre ti, de ti mesmo te coroo e mitro."