Crime e Castigo 44
Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração
"Não era bem essa a minha tese", começou ele, com simplicidade e modéstia. "Mas admito que você a enunciou quase corretamente; talvez, se você quiser, perfeitamente." (Quase lhe deu prazer admitir isso.) "A única diferença é que eu não sustento que as pessoas extraordinárias estejam sempre obrigadas a cometer transgressões da moral, como você diz. Aliás, duvido que tal argumento pudesse ser publicado. Eu apenas insinuei que um homem 'extraordinário' tem o direito... não um direito oficial, mas um direito interior de decidir, em sua própria consciência, transpor... certos obstáculos, e só no caso de isso ser essencial para a realização prática de sua ideia (às vezes, talvez, em benefício de toda a humanidade). Você diz que meu artigo não é claro; estou pronto a torná-lo o mais claro que puder. Talvez eu acerte ao pensar que é isso que você quer; muito bem. Eu sustento que, se as descobertas de Kepler e Newton não pudessem ser tornadas conhecidas senão sacrificando a vida de um, de uma dúzia, de cem ou mais homens, Newton teria tido o direito, teria mesmo o dever... de eliminar a dúzia ou a centena de homens para tornar suas descobertas conhecidas de toda a humanidade. Mas disso não decorre que Newton tivesse o direito de matar quem quisesse a torto e a direito e de roubar todo dia no mercado. Depois, eu me lembro, sustento no meu artigo que todos... bem, os legisladores e os condutores dos homens, como Licurgo, Sólon, Maomé, Napoleão, e assim por diante, foram todos, sem exceção, criminosos, pelo simples fato de que, ao fazer uma nova lei, transgrediram a antiga, herdada dos antepassados e tida como sagrada pelo povo, e não recuaram diante do derramamento de sangue, se esse derramamento, muitas vezes de pessoas inocentes que lutavam bravamente em defesa da lei antiga, fosse útil à sua causa. É notável, aliás, que a maioria desses benfeitores e condutores da humanidade foi culpada de carnificinas terríveis. Em suma, eu sustento que todos os grandes homens, ou mesmo os homens um pouco fora do comum, isto é, capazes de dizer alguma palavra nova, devem, por sua própria natureza, ser criminosos, mais ou menos, claro. De outro modo é difícil pra eles saírem do sulco comum; e permanecer no sulco comum é algo a que não podem se submeter, de novo por sua própria natureza, e a meu ver não devem mesmo se submeter. Você vê que não há nada de particularmente novo em tudo isso. A mesma coisa já foi impressa e lida mil vezes antes. Quanto à minha divisão das pessoas em comuns e extraordinárias, reconheço que é um tanto arbitrária, mas não insisto em números exatos. Eu apenas acredito na minha ideia central, a de que os homens são, em geral, divididos por uma lei da natureza em duas categorias: uma inferior (a dos comuns), isto é, por assim dizer, material que serve apenas a reproduzir sua espécie, e os homens que têm o dom ou o talento de dizer uma palavra nova. Há, claro, inúmeras subdivisões, mas os traços distintivos das duas categorias são bem marcados. A primeira categoria, de modo geral, são homens de temperamento conservador e respeitadores da lei; vivem sob controle e adoram ser controlados. A meu ver, é dever deles serem controlados, porque essa é a sua vocação, e não há nada de humilhante nisso pra eles. A segunda categoria, toda ela, transgride a lei; são destruidores ou propensos à destruição, conforme suas capacidades. Os crimes desses homens são, claro, relativos e variados; na maior parte, eles buscam de modos muito variados a destruição do presente em nome do melhor. Mas, se um deles for forçado, em nome de sua ideia, a passar por cima de um cadáver ou a vadear o sangue, ele pode, eu sustento, encontrar dentro de si, em sua consciência, uma sanção para vadear o sangue; isso depende da ideia e de suas dimensões, repare bem. É só nesse sentido que falo do direito deles ao crime no meu artigo (você se lembra que ele começava com a questão jurídica). Não há motivo pra tanta ansiedade, no entanto; as massas dificilmente vão admitir esse direito, elas os punem ou os enforcam (mais ou menos), e ao fazê-lo cumprem com toda justiça sua vocação conservadora. Mas essas mesmas massas põem esses criminosos num pedestal na geração seguinte e os adoram (mais ou menos). A primeira categoria é sempre o homem do presente, a segunda, o homem do futuro. A primeira preserva o mundo e o povoa, a segunda move o mundo e o conduz a seu fim. Cada classe tem igual direito de existir. Na verdade, todos têm direitos iguais aos meus; e viva a guerra eterna, até a Nova Jerusalém, claro!"