Apologia de Sócrates 1
A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte
A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas
Não sei, atenienses, o efeito que os meus acusadores produziram em vocês. Quanto a mim, quase me fizeram esquecer quem eu sou, de tão convincentes que pareciam. E, no entanto, mal disseram uma palavra de verdade.
Entre as muitas mentiras que contaram, uma me deixou espantado: avisaram vocês para tomarem cuidado, para não se deixarem enganar pela força do meu modo de falar. Dizer isso, quando logo se veria que não sou nenhum grande orador, pareceu-me a maior das desfaçatezes. A não ser que chamem de bom orador aquele que diz a verdade. Se é isso que querem dizer, então admito que sou orador, mas de um jeito bem diferente do deles.
Eles, como eu disse, mal falaram a verdade. De mim vocês vão ouvir toda a verdade, mas não num discurso bem arranjado e enfeitado com palavras bonitas, como o deles. Vou usar as palavras e os argumentos que me ocorrerem na hora, pois confio que o que digo é justo. Que ninguém espere outra coisa de mim. Não ficaria bem, na minha idade, vir diante de vocês como um rapazinho que inventa discursos.
E peço a vocês um favor, atenienses. Se me ouvirem fazer a minha defesa com as mesmas palavras que costumo usar na praça do mercado, junto às mesas dos cambistas, onde muitos de vocês já me ouviram, e em outros lugares, não se admirem nem me interrompam por isso. Pois é a primeira vez, com mais de setenta anos de idade, que compareço diante de um tribunal, e a linguagem deste lugar me é totalmente estranha.
Se eu fosse de fato estrangeiro, vocês me desculpariam por falar na língua e no jeito em que fui criado. Da mesma forma, peço agora o que me parece justo: deixem de lado o meu modo de falar, seja ele melhor ou pior, e prestem atenção apenas a uma coisa, se o que eu digo é justo ou não. Essa é a virtude do juiz, e a do orador é dizer a verdade.
Primeiro devo me defender, atenienses, das antigas acusações falsas e dos meus primeiros acusadores. Depois respondo às acusações mais recentes. Pois muitos me acusaram diante de vocês ao longo de muitos anos, sem dizer nada verdadeiro, e a esses temo mais do que a Anito e seus aliados, embora estes também sejam perigosos.
Mais perigosos ainda são os outros, que pegaram a maioria de vocês quando eram crianças e foram enchendo a cabeça de vocês com mentiras a meu respeito. Diziam que existe um certo Sócrates, um sábio, que investiga as coisas do céu e do que está debaixo da terra, e que faz a causa mais fraca parecer a mais forte. Os que espalharam essa fama são os acusadores que eu temo, pois quem os ouve acha que quem investiga essas coisas nem acredita nos deuses.
Esses acusadores são muitos, e já vêm acusando há muito tempo. Falaram com vocês na idade em que mais acreditavam, quando eram crianças ou jovens, e a acusação correu à revelia, sem ninguém para defender. O mais difícil de tudo é que não dá nem para saber e dizer os nomes deles, a não ser que algum deles por acaso seja um autor de comédias.
Todos os que, por inveja e maldade, foram convencendo vocês, alguns deles já convencidos da própria mentira, esses são os mais difíceis de enfrentar. Não posso trazê-los aqui nem interrogá-los, e por isso tenho de lutar como quem combate sombras, me defendendo e questionando sem que ninguém responda. Peço então que aceitem, como eu disse, que tive dois tipos de acusadores: uns recentes, outros antigos. E espero que entendam por que respondo primeiro aos antigos, pois foi deles que vocês ouviram as acusações há mais tempo e com mais frequência.
Pois bem, devo me defender, atenienses, e tentar arrancar de vocês, em tão pouco tempo, uma má fama que carregaram por tanto tempo. Quem dera eu consiga, se for melhor para vocês e para mim. Mas sei que a tarefa é difícil, e percebo bem o que ela tem. Que isso se resolva como for do agrado do deus. À lei devo obediência, e por isso vou me defender.
Voltemos ao começo, e vejamos qual é a acusação que deu origem à má fama a meu respeito, na qual Meleto se apoiou para abrir este processo contra mim. O que diziam os que me caluniavam? Vou ler a denúncia deles como se fossem meus acusadores: Sócrates é um malfeitor, um curioso intrometido que investiga as coisas debaixo da terra e no céu, que faz a causa mais fraca parecer a mais forte, e ensina isso aos outros.
Essa é a acusação, e foi o que vocês mesmos viram na comédia de Aristófanes: um homem a quem ele chama de Sócrates, andando por aí, dizendo que caminha pelos ares e falando um monte de bobagens sobre coisas das quais não entendo nem muito nem pouco. Não digo isso para desprezar quem estuda esses assuntos, e nem queria que Meleto me processasse por algo assim. Mas a verdade, atenienses, é que não tenho nada a ver com essas investigações sobre a natureza.
Disso a maioria de vocês é testemunha, e a vocês eu apelo: falem entre si, vocês que já me ouviram conversar, e digam uns aos outros se alguma vez me ouviram tratar dessas coisas, pouco ou muito. Pela resposta de vocês vão poder julgar a verdade do resto que dizem a meu respeito.
Não tem mais fundamento o boato de que sou professor e cobro dinheiro por isso. Embora me pareça bonito, se alguém for capaz de educar as pessoas como Górgias de Leontinos, Pródico de Ceos e Hípias de Élis. Cada um deles é capaz de ir de cidade em cidade e convencer os jovens, que poderiam aprender de graça com seus próprios concidadãos, a deixar esses mestres, pagar a eles e ainda ficar agradecidos.
Há também aqui um sábio de Paros, de quem ouvi falar, e soube dele assim: encontrei um homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que todos os outros juntos, Cálias, filho de Hipônico. Sabendo que ele tinha dois filhos, perguntei: Cálias, se os seus dois filhos fossem potros ou bezerros, não seria difícil arranjar alguém para cuidar deles. Contrataríamos um treinador de cavalos ou um agricultor, que os aperfeiçoaria na virtude própria deles. Mas, como são seres humanos, quem você pensa em colocar para cuidar deles? Quem entende da virtude humana e cívica? Você deve ter pensado nisso, já que tem filhos. Existe alguém assim?
Existe sim, ele respondeu. Quem é, perguntei eu, de onde é, e quanto cobra? Éveno de Paros, disse ele, é o homem, e cobra cinco minas. E eu pensei que Éveno seria feliz se realmente tivesse essa arte e ensinasse por um preço tão moderado. Se eu soubesse fazer isso, ficaria muito orgulhoso e vaidoso. Mas a verdade, atenienses, é que não tenho conhecimento desse tipo.
Talvez algum de vocês me responda: mas, Sócrates, de onde vêm essas acusações contra você? Você deve ter feito algo estranho. Toda essa fama e esses boatos não teriam surgido se você fosse como os outros homens. Diga-nos, então, qual é a causa disso, pois não queremos julgar você de forma precipitada. Acho a pergunta justa, e vou tentar mostrar a vocês por que ganhei esse nome e essa má fama.
Escutem, então. Talvez alguns de vocês achem que estou brincando, mas saibam que vou dizer toda a verdade. Atenienses, foi por causa de uma certa sabedoria que ganhei essa fama. Que sabedoria é essa? Aquela que talvez seja própria do ser humano. Nessa eu de fato pareço ser sábio. Já os homens de quem falava há pouco talvez tenham uma sabedoria maior que a humana, ou então não sei como descrevê-la, pois ela eu não possuo. Quem disser que possuo está mentindo e querendo manchar a minha reputação.
E aqui, atenienses, peço que não me interrompam, mesmo que eu pareça dizer algo grandioso. Pois a palavra que vou dizer não é minha. Vou citar uma testemunha digna de confiança: a respeito da minha sabedoria, se é que tenho alguma, e de que tipo ela é, a minha testemunha será o deus de Delfos. Vocês conheciam Querefonte.
Ele era meu amigo desde a juventude, e também amigo da maioria de vocês, pois partilhou o exílio recente do povo e voltou junto. Vocês sabem como Querefonte era impetuoso em tudo o que fazia. Pois certa vez ele foi a Delfos e teve a ousadia de perguntar ao oráculo, e aqui peço de novo que não me interrompam, se havia alguém mais sábio do que eu. A sacerdotisa de Apolo respondeu que não havia ninguém mais sábio. O próprio Querefonte já morreu, mas o irmão dele, que está aqui no tribunal, pode confirmar o que digo.
Vejam por que menciono isso: vou explicar a vocês de onde veio a minha má fama. Quando ouvi a resposta, fiquei pensando: o que será que o deus quer dizer? Qual é o sentido desse enigma? Pois sei que não tenho sabedoria alguma, nem pequena nem grande. O que ele quer dizer, então, ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Ele é um deus, e não pode mentir, isso seria contra a sua natureza.
Por muito tempo fiquei sem entender o que ele queria dizer. Depois, com grande esforço, parti para verificar a questão assim: procurei um homem que tinha fama de sábio, para refutar o oráculo e mostrar a ele que aquele homem era mais sábio do que eu, embora o oráculo tivesse dito que eu era o mais sábio. Não preciso dizer o nome dele, mas era um dos políticos. Quando comecei a conversar com ele, não pude deixar de notar que, embora fosse considerado sábio por muitos e ainda mais por si mesmo, ele não era de fato sábio.
Então tentei mostrar a ele que se achava sábio, mas não era. Com isso, ele passou a me odiar, e essa hostilidade foi partilhada por vários que estavam presentes e me ouviram. Fui embora pensando comigo mesmo: sou mais sábio do que esse homem. É bem provável que nenhum de nós dois saiba nada de belo e bom, mas ele acha que sabe alguma coisa sem saber, enquanto eu, como não sei, também não acho que sei. Nesse pequeno ponto pareço levar uma ligeira vantagem: não acho que sei aquilo que não sei.
Depois fui a outro, que tinha pretensões ainda maiores de sabedoria, e cheguei exatamente à mesma conclusão. E com isso fiz dele e de muitos outros meus inimigos. Então fui de um a outro, percebendo, com pesar e medo, que estava criando inimizades. Mesmo assim, parecia necessário pôr acima de tudo a palavra do deus. Eu tinha de ir a todos os que pareciam saber alguma coisa, para descobrir o sentido do oráculo.
E juro a vocês, atenienses, pois devo dizer a verdade, o resultado da minha missão foi este: descobri que os homens de maior reputação eram quase os mais tolos, e que outros, tidos como inferiores, eram na verdade mais sensatos. Vou contar a vocês as minhas andanças e os trabalhos que enfrentei, só para no fim achar o oráculo irrefutável.
Depois dos políticos, fui aos poetas, os de tragédia, os de hinos e os outros, pensando que ali eu seria flagrado na hora como mais ignorante do que eles. Peguei as passagens mais bem trabalhadas das obras deles e perguntei o que queriam dizer, achando que aprenderia algo. Tenho vergonha de confessar a verdade, mas devo dizer: quase qualquer um dos presentes falaria melhor sobre aquela poesia do que os próprios poetas.
Então percebi que não é por sabedoria que os poetas compõem o que compõem, mas por uma espécie de dom natural e inspiração, como acontece com os adivinhos e profetas, que também dizem muitas coisas belas sem entender o sentido delas. Vi que os poetas estavam no mesmo caso. E notei que, por causa da poesia, eles se julgavam os mais sábios também nas outras coisas, em que não eram sábios. Saí dali achando que era superior a eles pela mesma razão que era superior aos políticos.
Por fim, fui aos artesãos. Eu sabia que praticamente nada entendia, e tinha certeza de que eles entendiam muitas coisas boas. Nisso não me enganei: de fato sabiam coisas que eu não sabia, e nesse ponto eram mais sábios do que eu. Mas notei que até os bons artesãos caíam no mesmo erro dos poetas. Porque eram bons no seu ofício, julgavam-se sábios também nas coisas mais importantes, e esse defeito encobria a sabedoria que tinham. Então me perguntei, em nome do oráculo, se preferia ser como sou, sem o saber nem a ignorância deles, ou ser como eles nas duas coisas. E respondi a mim mesmo e ao oráculo que era melhor ser como sou.
Dessa investigação, atenienses, surgiram muitas inimizades, das piores e mais perigosas, e dela vieram muitas calúnias. Ganhei o nome de sábio, pois quem me ouve sempre imagina que eu mesmo possuo a sabedoria que aponto faltar nos outros. Mas a verdade, atenienses, é que só o deus é sábio, e na sua resposta ele quis mostrar que a sabedoria humana vale pouco ou nada. Não estava falando de Sócrates, apenas usou o meu nome como exemplo, como se dissesse: o mais sábio entre vocês é aquele que, como Sócrates, reconhece que de nada vale a sua sabedoria.
Por isso ando ainda por aí, obediente ao deus, examinando a sabedoria de qualquer um, cidadão ou estrangeiro, que pareça sábio. E quando vejo que não é sábio, em defesa do oráculo eu lhe mostro que não é. Essa ocupação me absorve por inteiro, e não me sobra tempo para nenhum assunto público importante nem para os meus próprios negócios. Vivo em extrema pobreza por causa da minha dedicação ao deus.
Além disso, os jovens das famílias mais ricas, que têm bastante tempo livre, vêm atrás de mim por conta própria. Gostam de ver as pessoas sendo questionadas, e muitas vezes me imitam e passam a examinar os outros. Descobrem logo que há muita gente que pensa saber alguma coisa, mas sabe pouco ou nada. Então os que foram questionados por eles ficam irritados, não consigo mesmos, mas comigo. Dizem: esse maldito Sócrates é um corruptor da juventude.
E quando alguém pergunta a eles o que é que eu faço ou ensino de mau, não sabem o que dizer e ficam sem resposta. Mas, para não parecerem confusos, repetem as acusações prontas que se usam contra todos os filósofos: que ensino as coisas do céu e debaixo da terra, que não acredito nos deuses, e que faço a causa mais fraca parecer a mais forte. Eles não querem confessar a verdade, que ficou claro que só fingiam saber. E como são muitos, ambiciosos e enérgicos, e falam de mim de forma organizada e convincente, encheram os ouvidos de vocês há muito tempo com suas calúnias insistentes.
Por isso Meleto, Anito e Lícon se voltaram contra mim. Meleto, ressentido em nome dos poetas; Anito, em nome dos artesãos e políticos; Lícon, em nome dos oradores. Então, como eu disse no começo, eu me admiraria se conseguisse arrancar de vocês, em tão pouco tempo, uma calúnia tão grande. Esta é a verdade, atenienses, e eu a digo sem esconder nem disfarçar nada, grande ou pequeno. E, no entanto, sei que é justamente por causa dessa franqueza que eles me odeiam. E o ódio deles não é prova de que digo a verdade? Essa é a origem do preconceito contra mim, e é essa a sua causa, como vocês vão descobrir agora ou em qualquer outra investigação.
Quanto aos meus primeiros acusadores, esta defesa basta. Passo agora a Meleto, esse homem de bem e amigo da cidade, como ele se diz, e aos acusadores mais recentes. Tomemos de novo a denúncia deles, que diz mais ou menos assim: Sócrates é culpado de corromper a juventude e de não acreditar nos deuses da cidade, mas em outras divindades novas. Essa é a acusação. Examinemos cada parte dela.
Ele diz que faço o mal e corrompo a juventude. Mas eu, atenienses, digo que Meleto é que faz o mal, pois leva as coisas a sério como se fosse brincadeira, arrastando pessoas para o tribunal e fingindo zelo e interesse por questões com as quais nunca se importou de verdade. E vou tentar provar isso a vocês. Venha cá, Meleto, e me responda: você se preocupa muito com o aperfeiçoamento dos jovens? Sim, me preocupo. Então diga aos juízes quem é que os torna melhores. Pois você deve saber, já que se deu ao trabalho de descobrir quem os corrompe, e me acusa diante deles. Diga aos juízes quem os melhora.
Veja, Meleto, que você fica calado e não tem o que dizer. Não é isso vergonhoso, e prova suficiente do que eu digo, que você nunca se interessou pelo assunto? Mas fale, amigo, quem é que os torna melhores? As leis. Não foi isso que perguntei, meu caro, mas que pessoa, que, antes de tudo, conhece as leis. Estes juízes aqui presentes, Sócrates. Como assim, Meleto, eles são capazes de educar os jovens e torná-los melhores? Sem dúvida. Todos eles, ou alguns sim e outros não? Todos. Por Hera, que boa notícia! Há muitos que melhoram os jovens, então.
E os ouvintes que estão aqui, eles os melhoram ou não? Também. E os conselheiros? Também os conselheiros. Mas será, Meleto, que os membros da assembleia corrompem os jovens? Ou também esses os tornam melhores? Também eles. Então todo ateniense, ao que parece, torna os jovens melhores, com exceção de mim, e só eu os corrompo. É isso que você afirma? Afirmo com toda a força. Que grande infelicidade você atribui a mim. Mas me responda: você acha que é assim também com os cavalos? Que todos os homens os tornam melhores, e um só é que os estraga? Não é exatamente o contrário? Um só, ou poucos, os treinadores, são capazes de torná-los melhores, e a maioria, quando lida com eles, antes os estraga? Não é assim, Meleto, com os cavalos e com todos os outros animais?
Com certeza é, quer você e Anito digam que sim, quer digam que não. Feliz seria a juventude se tivesse um só corruptor e todo o resto a melhorasse. Mas você, Meleto, mostrou bem que nunca pensou nos jovens, e revela com clareza o seu descaso por aquilo de que me acusa. E agora, Meleto, te pergunto outra coisa, por Zeus: é melhor viver entre bons cidadãos ou entre maus? Responda, amigo, não pergunto nada difícil. Os maus não fazem mal aos que estão perto deles, e os bons não fazem o bem? Sem dúvida. E existe alguém que prefira ser prejudicado a ser ajudado pelos que convivem com ele? Responda, a lei manda responder. Alguém quer ser prejudicado? Claro que não.
E quando você me acusa de corromper a juventude, alega que eu os corrompo de propósito ou sem querer? De propósito, eu digo. Mas você acabou de admitir que os bons fazem o bem aos que estão perto, e os maus, o mal. Será que a sua sabedoria superior já percebeu isso tão cedo, e eu, na minha idade, estou em tanta ignorância a ponto de não saber que, se eu corromper alguém com quem convivo, é bem provável que eu seja prejudicado por ele? E mesmo assim eu o corromperia, e de propósito, como você diz? Nisso não acredito, Meleto, e acho que ninguém acredita.
Ou eu não corrompo, ou, se corrompo, é sem querer, de modo que você mente nos dois casos. E se corrompo sem querer, a lei não manda trazer ao tribunal por faltas involuntárias, mas chamar em particular para instruir e advertir. Pois é claro que, se eu aprender, vou parar de fazer o que faço sem querer. Mas você fugiu de conversar comigo e me instruir, e em vez disso me trouxe aqui, onde a lei manda trazer os que precisam de castigo, e não de ensino.
Já está claro, atenienses, como eu dizia, que Meleto nunca se importou com isso, nem muito nem pouco. Mesmo assim, diga-nos, Meleto, de que modo você afirma que eu corrompo os jovens? Pela acusação que escreveu, é evidente que dizem que ensino a não acreditar nos deuses da cidade, mas em outras divindades novas. Não é isso que você diz, que corrompo com esse ensino? Sim, afirmo isso com toda a força.
Então, por esses mesmos deuses de que falamos agora, Meleto, explique a mim e a estes homens com mais clareza. Pois não consigo entender se você diz que ensino a acreditar que existem alguns deuses, e então eu mesmo acredito que existem deuses e não sou totalmente ateu, e nisso não sou culpado, só que não são os mesmos deuses da cidade, e sim outros, e é disso que você me acusa; ou se você afirma que eu não acredito em deus algum e ainda ensino isso aos outros. É isso que digo, que você não acredita em deus algum.
Que afirmação espantosa, Meleto! Por que pensa assim? Acha que eu não acredito que o sol e a lua sejam deuses, como os outros homens acreditam? Não acredita mesmo, juízes, garanto, pois ele diz que o sol é pedra e a lua é terra. Você pensa que está acusando Anaxágoras, caro Meleto? E tem tão má opinião destes juízes, achando que são tão ignorantes a ponto de não saber que essas ideias estão nos livros de Anaxágoras de Clazômenas, que estão cheios delas?
Os jovens aprenderiam isso comigo, quando podem comprar essas ideias no teatro por uma dracma, no máximo, e rir de Sócrates se ele fingir que são suas, ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus, é assim que você me vê? Que não acredito em deus algum? Em nenhum mesmo, por Zeus, de jeito nenhum. Você é inacreditável, Meleto, e acho que nem você acredita em si mesmo.
Esse homem me parece, atenienses, muito insolente e descontrolado, e escreveu esta denúncia por pura arrogância, descontrole e imaturidade. Ele parece ter montado um enigma para me testar: será que o sábio Sócrates vai perceber que estou me contradizendo de propósito, ou vou conseguir enganar a ele e aos outros que ouvem? Pois para mim é claro que ele se contradiz na denúncia, como se dissesse: Sócrates é culpado de não acreditar nos deuses, mas acredita nos deuses. Isso é coisa de quem está brincando.
Examinem comigo, atenienses, o que me parece ser a contradição dele. E você, Meleto, responda. E lembrem-se do pedido que fiz, que não façam barulho se eu falar do meu jeito de sempre. Existe alguém, Meleto, que acredite que há coisas humanas, mas não acredite que há seres humanos? Que ele responda, atenienses, em vez de ficar tentando provocar tumulto. Existe alguém que acredite em equitação, mas não em cavalos? Ou que acredite no tocar flauta, mas não em flautistas? Não existe, meu amigo. Vou responder por você, já que você se recusa a responder.
Mas responda à próxima pergunta: existe alguém que acredite em coisas divinas e espirituais, mas não acredite em espíritos ou seres divinos? Não existe. Que bom que você respondeu, ainda que forçado por estes juízes. Você jura na denúncia que eu ensino e acredito em coisas divinas, sejam novas ou antigas, não importa. De qualquer modo, acredito em coisas divinas, é o que você diz e jura. E, se acredito em seres divinos, como posso não acreditar em espíritos? É claro que devo acreditar. Tomo o seu silêncio como concordância. E o que são esses espíritos? Não são deuses ou filhos de deuses?
Sem dúvida que são. Mas é exatamente isto que chamo do enigma que você inventou: os espíritos são deuses, e você diz primeiro que eu não acredito em deuses, e depois que acredito, se acredito em espíritos. Pois, se os espíritos são filhos dos deuses, nascidos das ninfas ou de outras mães, como dizem, que ser humano acreditaria que existem filhos de deuses, mas não deuses? Seria tão absurdo quanto afirmar que existem mulas, mas negar que existam cavalos e jumentos.
Não há como, Meleto, você ter escrito esta denúncia a não ser para nos testar, ou por não ter nenhum crime de verdade de que me acusar. Não há meio de convencer qualquer pessoa de bom senso de que alguém possa acreditar em coisas divinas e sobre-humanas, e ao mesmo tempo não acreditar que existem deuses, seres divinos e heróis.
Quanto à acusação de Meleto, já disse o bastante. Não preciso de uma defesa elaborada. Mas sei bem quantas inimizades acumulei, e é isso que vai me destruir, se eu for destruído: não Meleto nem Anito, mas a inveja e a difamação da multidão, que já foi a morte de muitos homens bons e provavelmente ainda será de muitos outros. Não há perigo de eu ser o último deles.
Talvez alguém diga: e você não se envergonha, Sócrates, de ter levado uma vida que agora te traz a um fim prematuro? A esse posso responder com justiça: você se engana. Um homem que vale alguma coisa não deve ficar calculando as chances de viver ou morrer. Deve apenas considerar, ao agir, se faz o certo ou o errado, se age como homem bom ou mau.
Pelo seu raciocínio, os heróis que morreram em Troia teriam valido pouco, e acima de todos o filho de Tétis, que tanto desprezou o perigo diante da desonra. Quando ele estava ansioso para matar Heitor, a mãe, que era deusa, lhe disse mais ou menos isto: meu filho, se vingar a morte do seu amigo Pátroclo e matar Heitor, você também vai morrer, pois logo após Heitor está pronto o seu destino. Ele, ao ouvir isso, desprezou a morte e o perigo. Temendo muito mais viver na desonra sem vingar o amigo, respondeu: que eu morra já, depois de punir quem fez o mal, em vez de ficar aqui junto dos navios, motivo de riso e peso inútil da terra. Acha que ele se importou com a morte e o perigo?
Pois é assim, atenienses, na verdade: onde quer que um homem se coloque, julgando ser o melhor lugar, ou seja colocado por um comandante, ali ele deve permanecer na hora do perigo, sem dar importância à morte nem a nada, apenas à desonra. Seria estranho da minha parte, atenienses, eu que permaneci onde fui colocado, enfrentando a morte como qualquer outro, quando os generais que vocês escolheram me deram ordens em Potideia, Anfípolis e Délio, e agora, quando o deus me ordena, segundo creio e imagino, cumprir a missão do filósofo de examinar a mim mesmo e aos outros, eu abandonar o meu posto por medo da morte ou de qualquer outra coisa.
Isso é que seria estranho, e então sim eu poderia ser levado a julgamento por não acreditar nos deuses, por desobedecer ao oráculo, por temer a morte e por me achar sábio sem ser. Pois temer a morte, atenienses, é apenas se julgar sábio sem ser, é achar que se sabe o que não se sabe. Ninguém sabe se a morte não é, por acaso, o maior dos bens para o ser humano, e mesmo assim a temem como se soubessem com certeza que é o maior dos males. E não é essa a ignorância mais vergonhosa, a de achar que se sabe o que não se sabe?
Nisso, atenienses, talvez eu me diferencie da maioria, e, se em algo posso me dizer mais sábio, é nisto: como não sei o suficiente sobre o que há no Hades, também não acho que sei. Mas sei que praticar a injustiça e desobedecer a quem é melhor, seja deus ou homem, é mau e vergonhoso. Por isso, diante de males que sei serem males, nunca vou temer ou fugir do que talvez seja um bem.
Então, mesmo que vocês me soltassem agora, sem dar ouvidos a Anito, que disse que eu nunca deveria ter sido processado, ou que, uma vez processado, era preciso me condenar à morte, alegando que, se eu escapasse, os filhos de vocês seriam todos arruinados seguindo os meus ensinamentos, e se me dissessem: Sócrates, desta vez não vamos ouvir Anito e vamos te soltar, com uma condição, que você pare de investigar e filosofar, e que, se for pego fazendo isso de novo, vai morrer.
Se vocês me soltassem com essa condição, eu responderia: atenienses, eu os honro e os amo, mas vou obedecer ao deus antes que a vocês, e, enquanto eu tiver vida e forças, jamais vou deixar de filosofar, de exortar e de mostrar a verdade a cada um de vocês que eu encontrar, dizendo do meu jeito de sempre: meu amigo, você que é cidadão de Atenas, a maior e mais célebre cidade pela sabedoria e pela força, não tem vergonha de se preocupar em acumular o máximo de dinheiro, fama e honra, e de se importar tão pouco com a sabedoria, a verdade e o aperfeiçoamento da alma, com o qual você nem se incomoda?
E se alguém com quem eu converso disser que se importa, não vou logo deixá-lo ir. Vou interrogá-lo, examiná-lo e refutá-lo. E se me parecer que ele não tem virtude, mas só diz que tem, vou repreendê-lo por dar pouco valor ao que é mais importante e muito valor ao que é menor. Vou repetir isso a todos que encontrar, jovens e velhos, estrangeiros e cidadãos, mas principalmente aos cidadãos, por serem mais próximos de mim. Pois saibam que é isso que o deus me ordena.
E creio que nenhum bem maior aconteceu a esta cidade do que o meu serviço ao deus. Pois não faço outra coisa senão andar por aí convencendo vocês, jovens e velhos, a não se preocupar primeiro com o corpo e o dinheiro, mas, antes de tudo, com o maior aperfeiçoamento da alma. Eu digo que não é do dinheiro que vem a virtude, mas é da virtude que vêm o dinheiro e todos os outros bens do homem, tanto na vida pública quanto na privada.
Se é esse o ensino que corrompe a juventude, então sou nocivo. Mas, se alguém disser que esse não é o meu ensino, está mentindo. Por isso, atenienses, digo a vocês: façam ou não o que Anito manda, absolvam ou não, mas saibam que, faça o que fizerem, eu jamais vou mudar de conduta, nem que eu tivesse de morrer muitas vezes.
Não me interrompam, atenienses, e ouçam-me, pois ficou combinado que vocês me ouviriam até o fim. Tenho mais a dizer, e talvez vocês queiram gritar, mas creio que ouvir vai ser bom para vocês. Saibam que, se matarem um homem como eu, vão prejudicar a si mesmos mais do que a mim. A mim nada pode prejudicar, nem Meleto nem Anito. Eles não podem, pois não é permitido que um homem melhor seja prejudicado por um pior.
Talvez Anito possa me matar, me exilar ou me tirar os direitos de cidadão, e ele pode achar, e outros também, que com isso me causa um grande mal. Mas nisso eu não concordo. Bem maior é o mal que ele faz agora, ao tentar matar um homem injustamente. Agora, atenienses, estou longe de me defender por mim mesmo, como talvez se pense, mas por vocês, para que não cometam um erro contra a dádiva que o deus lhes deu, condenando a mim.
Pois, se me matarem, não vão achar facilmente outro como eu, que, se posso usar uma comparação um tanto cômica, fui colocado junto à cidade pelo deus como um moscardo junto a um cavalo grande e nobre, que, por causa do próprio tamanho, é meio lento e precisa ser despertado. Parece-me que o deus me colocou junto à cidade para ser algo assim: para despertar, persuadir e repreender cada um de vocês, sem parar, o dia inteiro, por toda parte.
Não vai ser fácil para vocês arranjar outro como eu, atenienses. Por isso, se me ouvirem, vão me poupar. Mas talvez vocês, irritados como quem é acordado de repente do sono, me dêem um golpe e, dando ouvidos a Anito, me matem com facilidade. Aí então passariam o resto da vida dormindo, a não ser que o deus, no seu cuidado por vocês, lhes enviasse outro moscardo.
De que fui dado a vocês pelo deus, eis a prova: se eu fosse como os outros homens, não teria descuidado de todos os meus negócios, nem suportado o abandono das minhas coisas por tantos anos, para sempre cuidar dos assuntos de vocês, indo a cada um em particular, como um pai ou um irmão mais velho, exortando vocês a cuidar da virtude. Tal conduta não seria própria da natureza humana.
Se eu tivesse ganho algo com isso, ou recebido pagamento pelas minhas exortações, ainda haveria algum sentido. Mas, como vocês mesmos veem, nem a ousadia dos meus acusadores se atreve a dizer que algum dia eu cobrei ou pedi pagamento de alguém. Disso eles não têm testemunha. E eu tenho uma testemunha suficiente da verdade do que digo: a minha pobreza.
Talvez alguém se admire por que ando por aí em particular dando conselhos e me metendo nos assuntos dos outros, mas não me atrevo a subir à tribuna e aconselhar a cidade em público. Vou dizer por quê. Vocês já me ouviram falar, em várias ocasiões e lugares, de uma voz divina que me vem, e que é justamente a divindade de que Meleto zomba na denúncia.
Esse sinal, que é uma espécie de voz, começou a me vir desde criança. Ela sempre me proíbe, mas nunca me ordena fazer algo que eu vá fazer. É isso que me impede de entrar para a política. E me parece muito bem que ela me impeça. Pois saibam, atenienses, que, se eu tivesse entrado na política, já teria morrido há muito tempo, sem trazer nenhum benefício nem a vocês nem a mim.
E não fiquem irritados comigo por eu dizer a verdade: ninguém que se oponha honestamente a vocês ou a qualquer multidão, tentando impedir as muitas injustiças e ilegalidades que se cometem numa cidade, vai salvar a vida. Quem luta de verdade pelo que é justo, se quiser viver ao menos por um breve tempo, precisa ficar na vida privada, e não na pública.
Disso vou dar provas convincentes, não com palavras, mas com aquilo que vocês mais valorizam: fatos. Ouçam o que me aconteceu, para verem que eu jamais cederia à injustiça por medo da morte, e que, por não ceder, morreria na hora. Vou contar coisas comuns de tribunal, talvez sem graça, mas verdadeiras.
O único cargo público que ocupei, atenienses, foi o de conselheiro. A minha tribo, a Antióquida, presidia o tribunal no dia em que vocês quiseram julgar em bloco os generais que não recolheram os corpos dos mortos depois da batalha de Arginusas, o que era contra a lei, como todos vocês reconheceram depois. Naquele momento, fui o único dos presidentes a me opor a fazer algo ilegal, e votei contra vocês. Quando os oradores ameaçaram me denunciar e prender, e vocês gritavam e os incentivavam, resolvi correr o risco ao lado da lei e da justiça, em vez de tomar parte na injustiça de vocês por medo da prisão e da morte.
Isso foi no tempo da democracia. Mas, quando chegou ao poder a oligarquia dos Trinta, eles mandaram me chamar, junto com outros quatro, à câmara central, e ordenaram que trouxéssemos de Salamina Leão, o salamínio, para ser executado. Davam ordens desse tipo a muita gente, querendo envolver o maior número possível nos seus crimes. Naquela hora, mais uma vez, mostrei não com palavras, mas com fatos, que pouco me importava com a morte, se não soa muito grosseiro dizer assim, mas que a minha única e grande preocupação era não cometer nenhuma injustiça nem impiedade.
Aquele governo, por mais forte que fosse, não me intimidou a ponto de me fazer agir mal. Quando saímos da câmara, os outros quatro foram a Salamina e trouxeram Leão, mas eu fui quietamente para casa. Por isso eu poderia ter perdido a vida, se aquele governo não tivesse logo chegado ao fim. E muitos podem testemunhar isso.
Acham então que eu teria sobrevivido todos estes anos se levasse uma vida pública e, como bom homem, sempre defendesse o que é justo, pondo isso, como devia, acima de tudo? De jeito nenhum, atenienses, nem eu nem qualquer outro homem. Mas eu fui sempre o mesmo em tudo o que fiz, na vida pública e na privada, e jamais cedi em nada contra a justiça a ninguém, nem a esses que, caluniando-me, dizem ser meus discípulos.
Nunca fui mestre de ninguém. Mas, se alguém quer me ouvir falar e fazer o meu trabalho, jovem ou velho, não impeço ninguém. E não converso só com quem paga. Ofereço-me igualmente a ricos e pobres, para que perguntem e me respondam e ouçam o que digo. E se algum deles se torna bom ou mau, não é justo que se ponha a culpa em mim, pois nunca prometi nem ensinei coisa alguma a ninguém. Se alguém diz que aprendeu ou ouviu de mim em particular algo que todos os outros não ouviram, fiquem sabendo que ele mente.
Mas vão me perguntar: por que algumas pessoas gostam de passar tanto tempo comigo? Já lhes disse toda a verdade, atenienses: gostam de ouvir o exame dos que se fazem de sábios sem ser. Há graça nisso. E esse dever de examinar os outros me foi imposto pelo deus, por oráculos, por sonhos e por todo modo pelo qual a vontade divina alguma vez ordenou algo a alguém.
Isso, atenienses, é verdade e fácil de comprovar. Pois, se de fato corrompo ou corrompi alguns jovens, seria de esperar que aqueles que, já adultos, percebessem que dei a eles maus conselhos na juventude, viessem agora me acusar e se vingar. Ou, se não quisessem vir eles mesmos, que algum dos seus parentes, pais, irmãos ou outros, dissesse que mal as suas famílias sofreram por minha causa.
Muitos deles eu vejo aqui no tribunal. Está Críton, da minha idade e do meu bairro, pai de Critóbulo, que também vejo. Está Lisânias de Esfeto, pai de Ésquines, presente. Está Antifonte de Cefiso, pai de Epígenes. E estão os irmãos de vários que conviveram comigo: Nicóstrato, filho de Teozótides, irmão de Teódoto, e Teódoto já morreu, então não viria pedir ao irmão para me poupar. E Páralo, filho de Demódoco, que tinha um irmão, Teages. E Adimanto, filho de Áriston, cujo irmão Platão está presente. E Eantodoro, irmão de Apolodoro, que também vejo.
E muitos outros eu poderia mencionar, algum dos quais Meleto deveria ter trazido como testemunha no seu discurso. Se esqueceu, que os traga agora, eu cedo a vez, e que diga, se tiver alguma prova desse tipo. Mas vão descobrir o contrário, atenienses: todos eles estão prontos a defender a mim, o tal corruptor, o que faz mal aos seus parentes, como dizem Meleto e Anito.
Os jovens já corrompidos talvez tivessem motivo para me defender, mas os parentes deles, que não foram corrompidos, já homens de mais idade, que outro motivo teriam para me defender senão o motivo justo e correto: que sabem que Meleto mente e que eu digo a verdade?
Pois bem, atenienses, isto e coisas parecidas é tudo o que tenho a dizer em minha defesa. Ainda mais uma palavra. Talvez alguém se ofenda comigo ao lembrar como ele mesmo, num julgamento igual ou até menos grave, suplicou e implorou aos juízes com muitas lágrimas, trazendo os filhos ao tribunal, num espetáculo comovente, junto com vários parentes e amigos, enquanto eu, que talvez corra perigo de vida, não vou fazer nada disso.
Talvez esse contraste lhe ocorra, e ele se irrite comigo e vote com raiva por estar aborrecido por isso. Se há entre vocês alguém assim, e não digo que haja, a esse posso responder com justiça: meu amigo, eu sou um homem, e, como os outros homens, sou feito de carne e osso, e não de pau ou pedra, como diz Homero. Tenho família, sim, e filhos, atenienses, três deles, um já quase homem e dois ainda crianças. E, no entanto, não vou trazer nenhum deles aqui para implorar a vocês a minha absolvição.
E por que não? Não por arrogância nem por falta de respeito a vocês. Se temo ou não a morte, é outra questão, da qual não vou falar agora. Mas, por causa da opinião pública, sinto que tal conduta seria vergonhosa para mim, para vocês e para toda a cidade. Quem chegou à minha idade e tem fama de sábio não deve se rebaixar assim. Mereça eu ou não essa fama, o certo é que a opinião geral decidiu que Sócrates é, de algum modo, superior aos outros homens.
Se aqueles entre vocês que têm fama de superiores em sabedoria, coragem ou qualquer outra virtude se rebaixam dessa forma, que vergonha seria a conduta deles. Já vi homens de reputação, depois de condenados, se comportarem do modo mais estranho, como se achassem que iam sofrer algo terrível ao morrer, e que seriam imortais se vocês os deixassem viver. Acho que esses são uma desonra para a cidade, e qualquer estrangeiro que chegasse diria que os homens mais notáveis de Atenas, a quem os próprios atenienses dão honras e cargos, não são melhores que mulheres.
Isso, atenienses, nem vocês que têm alguma reputação devem fazer, nem, se nós o fizermos, vocês devem permitir. Devem, ao contrário, mostrar que estão muito mais dispostos a condenar quem encena essas cenas tristes e faz a cidade de ridícula do que quem fica calmo.
Mas, deixando de lado a questão da opinião pública, também me parece errado pedir um favor ao juiz e assim conseguir a absolvição, em vez de instruí-lo e convencê-lo. Pois o dever do juiz não é fazer da justiça um presente, mas julgar. Ele jurou que julgaria conforme as leis, e não conforme o seu próprio agrado. Não devemos acostumar vocês a perjurar, nem vocês devem se acostumar a isso, pois nem uns nem outros agiríamos com piedade.
Não me peçam, então, atenienses, que eu faça diante de vocês coisas que considero indignas, ímpias e injustas, ainda mais quando estou sendo julgado justamente por impiedade, por acusação de Meleto. Pois, se eu vencesse os juramentos de vocês pela força da persuasão e da súplica, estaria ensinando vocês a não acreditar nos deuses e, ao me defender, estaria na verdade me acusando de não acreditar neles.
Mas não é nada disso. Pois eu acredito que há deuses, atenienses, e num sentido mais elevado do que nenhum dos meus acusadores acredita. E a vocês e ao deus eu confio a minha causa, para que seja decidida da forma que for melhor para mim e para vocês.