Apologia de Sócrates 2

A defesa de Sócrates diante do tribunal de Atenas (399 a.C.), registrada por Platão: a acusação de impiedade, a missão de examinar a vida e a recusa em temer a morte

A proposta de pena: Sócrates recusa o exílio e a multa

muitas razões, atenienses, pelas quais não me revolto com o voto que me condenou. Eu esperava por isso. O que me surpreende é que a contagem tenha ficado tão equilibrada. Eu pensava que a maioria contra mim seria bem maior. Como foi, bastaria que trinta votos passassem para o outro lado e eu teria sido absolvido.
E posso dizer que, no que toca a Meleto, eu até escapei. Mais ainda: sem a ajuda de Anito e de Lícon, qualquer um percebe que ele nem sequer teria conseguido um quinto dos votos, como a lei exige, e por isso teria pago uma multa de mil dracmas.
Pois bem, ele propõe a morte como pena. E eu, atenienses, o que deveria propor em troca? Claro que aquilo que me é devido. E o que me é devido? Que recompensa cabe a um homem que nunca teve a esperteza de ficar sossegado a vida toda, e que largou de lado o que a maioria valoriza: dinheiro, os interesses da família, os cargos militares, os discursos na assembleia, as magistraturas, as conspirações e os partidos?
Julgando que eu era honesto demais para entrar na política e sobreviver, não fui para onde de nada serviria a vocês nem a mim. Em vez disso, fui aonde poderia fazer o maior bem a cada um de vocês em particular. Procurei convencer cada homem entre vocês a cuidar primeiro de si mesmo, a buscar a virtude e a sabedoria antes de buscar os próprios bens, e a cuidar da cidade antes de cuidar dos interesses dela. Essa devia ser a ordem das coisas em tudo o que ele faz.
O que se deve fazer a um homem assim? Sem dúvida algo bom, atenienses, se ele recebe o que é justo, e um bem que combine com ele. Qual seria a recompensa adequada a um homem pobre, que é seu benfeitor e que precisa de tempo livre para poder instruir vocês? Não recompensa tão apropriada quanto a refeição no Pritaneu.
E ele merece isso muito mais do que o cidadão que venceu a corrida de cavalos ou de carros em Olímpia. Pois esse homem deixa vocês com a aparência de felizes, e eu deixo vocês de fato felizes. E ele não passa necessidade, enquanto eu passo. Por isso, se eu tiver de propor uma pena justa, digo que a pena justa é a refeição no Pritaneu.
Talvez vocês pensem que falo assim por desafio, como antes a respeito das lágrimas e das súplicas. Mas não é isso. Falo assim porque estou convencido de que nunca prejudiquei ninguém de propósito, embora eu não consiga convencer vocês disso, pois o tempo foi curto demais. Se houvesse em Atenas, como em outras cidades, uma lei dizendo que uma causa de pena de morte não pode ser decidida num dia, creio que eu teria convencido vocês. Mas não é possível desfazer grandes calúnias num instante.
E, convencido de que nunca fiz mal a outro, com certeza não farei mal a mim mesmo. Não vou dizer que mereço algum mal, nem vou propor uma pena contra mim. Por que faria isso? Por medo da pena de morte que Meleto propõe? Mas eu nem sei se a morte é um bem ou um mal. Por que então eu escolheria uma pena que com certeza é um mal?
Direi prisão? E por que viver na cadeia, escravo dos magistrados do ano, dos Onze? Ou a pena deve ser uma multa, com prisão até que ela seja paga? O problema é o mesmo: eu teria de ficar preso, porque dinheiro eu não tenho e não posso pagar.
E se eu disser exílio (que talvez seja a pena que vocês me darão), seria preciso que o amor à vida me cegasse muito para eu ser tão sem juízo a ponto de esperar o seguinte: se vocês, que são meus concidadãos, não suportam minhas conversas e minhas palavras, e as acham tão pesadas e odiosas que não querem mais ouvi-las, é pouco provável que outros me suportem.
Não, atenienses, isso não é nada provável. E que vida eu teria, na minha idade, andando de cidade em cidade, sempre mudando de lugar de exílio e sempre sendo expulso? Pois tenho certeza de que, para onde eu for, os jovens vão se reunir ao meu redor, como aqui. Se eu os afastar, eles mesmos farão os mais velhos me expulsarem. E se eu os deixar vir, os pais e amigos deles me expulsarão por causa deles.
Alguém vai dizer: Sim, Sócrates, mas você não pode ficar de boca calada e ir morar numa cidade estrangeira, onde ninguém vai incomodar você? Ora, é muito difícil fazer vocês entenderem minha resposta a isso. Pois se eu disser que ficar calado seria desobedecer ao deus, e que por isso não posso me calar, vocês não vão acreditar que falo a sério.
E se eu disser, por outro lado, que conversar todos os dias sobre a virtude e sobre as outras coisas em que vocês me ouvem examinando a mim mesmo e aos outros é o maior bem do homem, e que uma vida sem exame não vale a pena ser vivida, vocês vão acreditar em mim ainda menos. Mas digo a verdade, ainda que seja algo difícil de fazer vocês aceitarem.
Além disso, nunca me acostumei a achar que mereço sofrer algum mal. Se eu tivesse dinheiro, teria proposto pagar quanto pudesse, e não sairia muito prejudicado. Mas não tenho nada, e por isso preciso pedir que vocês ajustem a multa ao que eu posso pagar. Bem, talvez eu pudesse pagar uma mina, e por isso proponho essa pena.
Platão, Críton, Critóbulo e Apolodoro, meus amigos aqui presentes, mandam que eu diga trinta minas, e eles serão os fiadores. Que sejam então trinta minas a pena, e por essa quantia eles ficam como garantia segura para vocês.