Imitação de Cristo - Livro III 8
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Da baixa estima de si mesmo aos olhos de Deus
Falarei ao meu Senhor, sendo eu pó e cinza? Se mais alto me reputar, eis que Vos levantais contra mim, e as minhas iniquidades dão de Vós verdadeiro testemunho, e não posso contradizer. Mas se me aviltar e me reduzir ao nada, e me apartar de toda estima própria, e me reduzir a pó, como na verdade sou, ser me á propícia a Vossa graça, e estará próxima ao meu coração a Vossa luz, e toda estima de mim, por menor que seja, será submergida no vale do meu nada e perecerá para sempre. Ali me mostrareis a mim mesmo o que sou, o que fui e de onde vim, porque sou nada e não o sabia. Se a mim mesmo sou deixado, eis o nada e toda fraqueza; mas se de repente me olhardes, logo me torno forte e me encho de nova alegria. E é muito de admirar que assim tão repentinamente eu seja erguido e tão benignamente abraçado por Vós, eu que pelo meu próprio peso sempre sou levado para o mais baixo.
Faz isto o Vosso amor, que gratuitamente me previne e me socorre em tão numerosas necessidades, e também me guarda de graves perigos, e, para dizer a verdade, me arranca de inúmeros males. De fato, amando me mal a mim mesmo, perdi me; e buscando somente a Vós e amando Vos puramente, encontrei a mim e a Vós igualmente, e por amor mais profundamente me reduzi ao nada. Porque Vós, ó Dulcíssimo, fazeis comigo acima de todo merecimento e acima daquilo que ouso esperar ou pedir.
Bendito sejais, ó meu Deus, porque, ainda que eu seja indigno de todos os bens, contudo a Vossa nobreza e infinita bondade nunca cessa de fazer bem até mesmo aos ingratos e aos que de Vós estão longe apartados. Convertei nos a Vós, para que sejamos gratos, humildes e devotos, porque Vós sois a nossa salvação, a nossa virtude e a nossa fortaleza.