Imitação de Cristo - Livro III 7

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Como ocultar a graça sob a guarda da humildade

Filho, mais útil e mais seguro é para ti esconder a graça da devoção, não te elevar nas alturas, nem falar muito a respeito dela, nem fazer dela grande estima, mas antes desprezar a ti mesmo e temê-la como dada a quem é indigno. Não convém apegar-se com excessiva tenacidade a este sentimento, que muito depressa pode mudar-se em seu contrário. Considera quão miserável costumas ser na graça, e quão indigente sem a graça. E não está nisto o progresso da vida espiritual, em teres a graça da consolação, mas em suportares com humildade, abnegação e paciência a sua subtração. De modo que então não desanimes no estudo da oração, nem permitas que as demais obras que costumas fazer venham totalmente a faltar, mas, da melhor maneira que puderes e entenderes, faze de boa vontade o que está em ti, e não te negligencies de todo por causa da aridez ou da ansiedade de espírito que sentes.
Pois muitos que, quando as coisas não lhes correm bem, logo se tornam impacientes ou indolentes. Porque nem sempre está em poder do homem o seu caminho, mas pertence a Deus dar e consolar, quando quer e quanto quer, e a quem quer, conforme lhe apraz, e não mais. Alguns imprudentes, por causa da graça da devoção, destruíram a si mesmos, porque quiseram fazer mais do que podiam, não pesando a medida da própria pequenez, mas seguindo antes o afeto do coração que o juízo da razão. E porque presumiram coisas maiores do que era do agrado de Deus, por isso perderam depressa a graça, e ficaram indigentes e abandonados em vileza, eles que tinham posto no céu o seu ninho: para que, humilhados e empobrecidos, aprendam a não voar com as próprias asas, mas a esperar sob as minhas penas. Os que ainda são novos e inexperientes no caminho do Senhor, se não se governarem pelo conselho dos discretos, facilmente podem ser enganados e iludidos.
E se quiserem seguir mais o próprio sentir do que crer nos outros mais experimentados, terão um fim perigoso, se todavia não puderem ser desviados da própria opinião. Raramente os que são sábios a seus próprios olhos suportam com humildade ser governados por outros. Melhor é saber pouco com humildade, e ter pequena inteligência, do que grandes tesouros de ciência com complacência. Melhor é ter menos do que muito, donde possas ensoberbecer-te. Não age com bastante discrição quem se entrega todo à alegria, esquecendo-se da sua antiga indigência e do casto temor do Senhor, e não teme perder a graça oferecida. Nem tem saber bastante virtuoso quem, no tempo da adversidade e de qualquer dificuldade, se conduz com demasiado desespero, e pensa e sente de mim com menos confiança do que convém.
Quem no tempo de paz quiser estar demasiado seguro, muitas vezes no tempo da guerra será encontrado demasiado abatido e medroso. Se soubesses permanecer sempre humilde e moderado em ti, e bem governar e reger o teu espírito, não cairias tão depressa em perigo e em ofensa.
Bom conselho é que, concebido o espírito do fervor, mediteis o que de suceder quando a luz se ausentar. E quando isto acontecer, lembra-te de que de novo posso fazer voltar a luz, que para tua cautela, e para minha glória, retirei por algum tempo. Mais útil é muitas vezes tal prova do que se sempre tivesses prosperidade conforme a tua vontade. Pois os méritos não se hão de avaliar por isto, se alguém tem mais visões ou consolações, ou se é perito nas Escrituras, ou se é posto em mais alto grau: mas se estiver fundado em verdadeira humildade e cheio de divina caridade; se buscar sempre, pura e inteiramente, a honra de Deus; se nada reputar de si mesmo, e em verdade se desprezar, e antes se alegrar de ser desprezado e humilhado pelos outros do que de ser honrado.