Imitação de Cristo - Livro III 56
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Que o homem não se abata demasiadamente quando cai em alguns defeitos
Filho, mais me agradam a paciência e a humildade nas adversidades do que muita consolação e devoção na prosperidade. Por que te entristece um pequeno dito proferido contra ti? Ainda que fosse mais grave, não devias comover-te. Mas agora deixa que passe: não é o primeiro, nem é novo, nem será o último, se viveres muito tempo. És bastante corajoso enquanto nada de adverso se te opõe; também aconselhas bem e sabes fortalecer os outros com palavras: mas, quando chega à tua porta uma tribulação repentina, faltam-te o conselho e a firmeza.
Atenta para a tua grande fragilidade, que tantas vezes experimentas em pequenos contratempos: contudo, essas coisas sucedem para a tua salvação. Quando estas e semelhantes coisas acontecerem, dispõe-te do melhor modo que souberes, de coração; e, se a tribulação te tocar, não te abata, todavia, nem por muito tempo te enrede. Ao menos suporta-a com paciência, se não podes com alegria. E, se ouves com menos agrado e sentes indignação, contém-te, e não permitas que saia da tua boca algo desordenado, pelo qual os pequeninos se escandalizem. Logo se aquietará a comoção provocada, e a dor interior se adoçará ao voltar a graça. Ainda vivo eu, disse o Senhor; estou pronto a ajudar-te e a consolar-te mais que de costume, se confiares em mim e devotamente me invocares.
Tem ânimo sereno e cinge-te para maior tolerância. Nem tudo está perdido se com frequência te percebes atribulado ou gravemente tentado. És homem, e não Deus; és carne, e não Anjo. Como poderias tu permanecer sempre no mesmo estado de virtude, quando isto faltou ao Anjo no céu e ao primeiro Homem no paraíso, que não permaneceram firmes por muito tempo? Eu sou aquele que levanta os que choram, restituindo-lhes a saúde, e os que reconhecem a sua fraqueza eu os elevo à minha divindade.
Senhor, bendita seja a vossa palavra, doce ao meu paladar mais que o mel e o favo. Que faria eu em tantas tribulações e angústias minhas, se não me confortásseis com as vossas santas palavras? Contanto que enfim chegue ao porto da salvação, que me importa o que e quanto eu tiver padecido? Dai-me um bom fim e dai-me uma feliz passagem deste mundo. Lembrai-vos de mim, meu Deus, e conduzi-me pelo caminho reto ao vosso reino. Amém.