Imitação de Cristo - Livro III 57
Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo
Que não se devem perscrutar as coisas elevadas nem os ocultos juízos de Deus
Filho, guarda-te de disputar sobre matérias elevadas e sobre os ocultos juízos de Deus: por que este é assim abandonado, e aquele é elevado a tão grande graça? Por que também este é tão afligido, e aquele tão extraordinariamente exaltado? Tais coisas excedem toda a faculdade humana, e nenhuma razão ou disputa prevalece para investigar o juízo divino. Quando, pois, o inimigo te sugerir isto, ou ainda quando alguns homens curiosos o perguntarem, responde aquilo do Profeta: Justo sois, Senhor, e justo é o vosso juízo; e ainda: Os juízos do Senhor são verdadeiros, justificados em si mesmos. Os meus juízos devem ser temidos, não discutidos, porque são incompreensíveis ao entendimento humano.
Não queiras tampouco indagar nem disputar sobre os méritos dos Santos, quem seja mais santo que outro, ou quem seja maior no reino dos céus. Tais coisas geram muitas vezes contendas e disputas inúteis, alimentam também a soberba e a vanglória: donde nascem invejas e dissensões, enquanto um se esforça por preferir soberbamente este Santo, e outro aquele. Querer saber e investigar tais coisas não traz fruto algum, mas antes desagrada aos Santos, porque eu não sou Deus de dissensão, mas de paz, paz que consiste mais na verdadeira humildade do que na própria exaltação.
Alguns são levados por zelo de devoção a estes ou àqueles Santos, com afeto maior, mas humano antes que divino. Eu sou quem criou todos os Santos; eu dei a graça; eu concedi a glória. Eu conheci os méritos de cada um; eu os preveni nas bênçãos da minha doçura. Eu conheci de antemão os meus amados antes dos séculos; eu os escolhi do mundo, não foram eles que primeiro me escolheram. Eu os chamei pela graça, atraí-os pela misericórdia; eu os conduzi através de várias tentações. Eu infundi consolações magníficas; eu dei a perseverança; eu coroei a sua paciência.
Eu reconheço o primeiro e o último; eu a todos abraço com inestimável dileção. Eu devo ser louvado em todos os meus Santos; eu, sobre todas as coisas, devo ser bendito e honrado em cada um dos que tão gloriosamente engrandeci e predestinei sem nenhum mérito próprio precedente. Aquele, pois, que desprezou um dos meus menores, não honra o grande: porque eu fiz o pequeno e o grande. Quem detrai a algum dos Santos, detrai também a mim, e a todos os demais no reino dos céus. Todos são um pelo vínculo da caridade, têm o mesmo sentir, querem o mesmo, e todos se amam mutuamente em unidade.
Mais ainda, e o que é muito mais elevado, eles amam a mim mais do que a si mesmos e aos seus próprios méritos. Pois, arrebatados acima de si e arrancados do amor próprio, todos se dirigem por inteiro ao meu amor, no qual também repousam fruindo. Não há nada que os possa desviar ou abater: pois, cheios da verdade eterna, ardem no fogo de uma caridade inextinguível. Calem-se, pois, os homens carnais e animais de discorrer sobre o estado dos Santos: eles que não sabem amar senão as alegrias particulares; tiram e acrescentam segundo a sua inclinação, não conforme apraz à eterna Verdade.
Em muitos há ignorância, sobretudo naqueles que, pouco iluminados, raramente sabem amar alguém com perfeita dileção espiritual. Muitos ainda são levados a estes ou àqueles por afeto natural e amizade humana; e, assim como se comportam nas coisas inferiores, assim também imaginam as celestiais. Mas há uma distância incomparável entre aquilo que os imperfeitos não conhecem e aquilo que os homens iluminados contemplam por revelação e enxergam nas coisas do alto.
Guarda-te, pois, filho, de tratar com curiosidade dessas coisas que excedem o teu saber; mas esforça-te antes e empenha-te nisto: poderes ser achado ao menos o menor no reino de Deus. E ainda que alguém soubesse quem é mais santo que outro, ou quem seria tido por maior no reino dos céus, de que lhe aproveitaria esse conhecimento, se dele não se humilhasse diante de mim e se não erguesse para maior louvor do meu nome? Muito mais agradável a Deus faz quem pensa na grandeza dos seus pecados e na pequenez das suas virtudes, e quão longe está da perfeição dos Santos, do que aquele que disputa sobre a maioria ou a menoridade deles. Melhor é suplicar aos Santos com devotas orações e lágrimas, e implorar os seus gloriosos sufrágios com humilde mente, do que perscrutar os seus segredos com vã indagação.
Eles bem e otimamente se contentam, se os homens soubessem contentar-se e refrear as suas palavras vãs. Não se gloriam dos próprios méritos, pois nada de bondade atribuem a si mesmos; mas tudo a mim, porquanto eu lhes dei todas as coisas pela minha infinita caridade. São de tal modo cheios do amor da divindade e de gozo transbordante, que nada lhes falta de glória, e nada lhes falta de felicidade. Todos os Santos, quanto mais altos em glória, tanto mais humildes em si mesmos, e tanto mais próximos e queridos a mim se mostram. Por isso tens escrito que lançavam as suas coroas diante de Deus, e cairam sobre os seus rostos diante do Cordeiro, e adoraram aquele que vive pelos séculos dos séculos.
Muitos perguntam quem é maior no reino de Deus, os quais ignoram se serão dignos de ser contados entre os menores. Grande coisa é ser ao menos o menor no céu, onde todos são grandes: porque todos serão chamados filhos de Deus, e o serão. O menor virá a ser mil, e o pecador de cem anos morrerá. Pois, perguntando os Discípulos quem seria o maior no reino dos céus, ouviram tal resposta: Se não vos converterdes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no reino dos céus. Aquele, pois, que se humilhar como esta criancinha, esse é o maior no reino dos céus.
Ai daqueles que se desdenham de humilhar-se voluntariamente com os pequeninos, porque a humilde porta do reino celeste não os deixará entrar. Ai também dos ricos, que têm aqui as suas consolações, porque, entrando os pobres no reino de Deus, eles ficarão de fora, lamentando-se. Alegrai-vos, humildes, e exultai, pobres, porque vosso é o reino de Deus, contanto, porém, que andeis na verdade.