Imitação de Cristo - Livro III 55

Livro III: a consolação interior, em diálogo entre Cristo e o discípulo

Que devemos negar a nós mesmos e imitar a Cristo pela cruz

Filho, quanto és capaz de sair de ti mesmo, tanto poderás passar para dentro de mim. Assim como nada cobiçar fora produz a paz interior, assim também abandonar-se interiormente une a Deus. Quero que aprendas a perfeita negação de ti mesmo na minha vontade, sem contradição e sem queixa. Segue-me: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Sem o caminho não se anda; sem a verdade não se conhece; sem a vida não se vive. Eu sou o caminho que deves seguir, a verdade em que deves crer, a vida que deves esperar. Eu sou o caminho inviolável, a verdade infalível, a vida interminável. Eu sou o caminho retíssimo, a verdade suprema, a vida verdadeira, a vida bem-aventurada, a vida incriada. Se permaneceres no meu caminho, conhecerás a verdade, e a verdade te libertará, e alcançarás a vida eterna.
Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos. Se queres conhecer a verdade, crê em mim. Se queres ser perfeito, vende tudo. Se queres ser meu discípulo, nega-te a ti mesmo. Se queres possuir a vida bem-aventurada, despreza a vida presente. Se queres ser exaltado no céu, humilha-te no mundo. Se queres reinar comigo, leva a cruz comigo. Pois somente os servos da cruz encontram a vida da bem-aventurança e da verdadeira luz.
Senhor Jesus Cristo, porque estreita foi a vossa vida, e desprezada pelo mundo, dai-me imitar convosco o desprezo do mundo. Pois o servo não é maior do que o seu senhor, nem o discípulo está acima do mestre. Exercite-se o vosso servo na vossa vida, porque ali está a minha salvação e a verdadeira santidade. Tudo o que leio e ouço fora dela não me recreia nem me deleita plenamente.
Filho, porque sabes estas coisas e leste tudo isto, bem-aventurado serás se as fizeres. Quem tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama, e eu o amarei, e manifestar-me-ei a ele, e farei que se assente comigo no reino de meu Pai. Portanto, Senhor, assim como dissestes e prometestes, que assim de fato me aconteça merecer. Recebi, recebi de vossa mão a cruz: levá-la-ei até a morte, assim como me impusestes. Verdadeiramente a vida do bom monge é uma cruz, mas é guia para o paraíso. O começo está feito, não é lícito voltar atrás, nem convém abandoná-lo.
Eia, irmãos, prossigamos juntos: Jesus estará conosco; por causa de Jesus tomamos esta cruz; por causa de Jesus perseveremos na cruz; será o nosso ajudador aquele que é o nosso guia e o que vai à nossa frente. Eis que o nosso Rei entra adiante de nós, ele que pelejará por nós. Sigamos virilmente, ninguém tema os terrores; estejamos prontos a morrer corajosamente na batalha, e não lancemos sobre a nossa glória a vergonha de fugir da cruz.